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Paradise Bar Island Blues

Capa do Livro: Escritos de Vitória - Bares, Botequins etc... – Volume 8

Paradise Island. Balance no lance da luz eu pus de relance. Na onda se confunde ilha e terra da onça de seda, mulher em fé, pé na vereda. Bares Santos Bar, mares tantos ares. E a busca do êxtase no Paradise Bar, estranha forma mutante, às vezes Britz, às vezes val do antes que a calma, na Lama algo se ama. Raiz Quadrada da cama = Royal = Duque de Caxias = Rimbaud no Marrocos. Mar e Terra.

E tanto faz. É a mesma busca do êxtase, ausência do mal. Mal às vezes chamado demônio, outras exu, mas que reside, na ausência do tu da luz no êxtase essência.

Pois este é o êxtase: os milagres de ver, de ouvir, de tatear, de cheirar, de gustar de você, excelência, leitora vil, avessa do zero até onde é o mil!

O êxtase de viver. Festa dos sentidos, sinto muito. Festa em que se penetra na própria pele no milagre de viver. Festa em que se sente o que é viver: a paz é o Tao, o êxtase é a ausência do mal. Ou talvez: o êxtase é a presença do bem — nem se pensar é zen.

E o mal nos arranca da festa do êxtase para o inferno do ódio, da guerra, da agressão, da destruição, da doença, da violência, do roubo, da tristeza: — tristes espéculos invertidos da beleza.

Viver o málcool no Paradise Bar Island até o nem da estase zen procriar o para além: — o êxtase da ausência do além do bem e do mal. A paz é o Tap. Musical essência, excelência que busco até perder o ser. Meter.

Meter o nariz onde não sou chamado pelo bom senso.

Narrador, por favor, pare o espetáculo do conto! Há um Fantasma na Ópera! Disfarçado de freguês, ele fala alto, bate nos pratos, arrasta correntes e tira a concentração dos músicos! Desculpe, Sr. Fantasma, mas ou o senhor se retira ou paramos o conto! Obrigada...

Autor desassombrado, retomo o conto 1 exorcismo depois da intervenção da gerente de narrativa.

Em Paradise Bar Island, centro da Praia do Canto, perto do Scandinave, todos ficam Haver Navios. Jogamos xadrez existencial com peças esculpidas por um artista serial empregando a erosão do tempo sobre a carne crua que sobra. Neste açougue em que nos devoramos de amor, passatempo canibal de toda uma vida. Aqui sou conhecido como "O Planejador". O homem que nunca consegue enlouquecer, atormentado por sua lucidez. Meu cérebro, computadorizado, consegue contrabalançar os efeitos de qualquer droga de bebida e continua funcionando bem. Novos planejadores surgem e, diariamente, me desafiam para um duelo.

Aguardo, hoje, um "amigo" com quem travarei a justa da noite. Deus decidirá, medievalmente, quem é o melhor. Sou um de Seus anjos. Estranho, porém anjo: estranjo.

Enquanto espero, copo de uísque ou garrafa de vinho na mão, observo as pessoas mergulharem e se afogarem em seus sonhos suicidas de vida. Eu, na minha identidade secreta, interpreto os sonhos. Dos outros. Conheço sua força e seu poder. Por isso, procuro esquecer dos meus tão logo acordo. Sei que não quero saber, não quero a lucidez que me atormenta, quero esquecer meus sonhos e mergulhar no anonimato do exército industrial de reserva.

Sublime maldição, a de olhar uma mesma realidade e vê-la se transformar simultaneamente em músicas que jamais comporei, ensaios que nunca pensarei, poemas e textos que não escreverei, quadros que impintarei.

Moto-contínuo, 24 horas por dia o computador funciona apesar de mim. Eventualmente, transcrevo uma de suas obras, O que me angustia é que a maior parte se perde. Contudo, nem se desistisse de fazer outras coisas conseguiria dar vazão à ava lanche de cultura que ele derrama sobre mim. O que atormenta a impossibilidade de expressar tudo o que ele produz. A maior parte se perde. Como prêmio de consolação, anjos louros os colhem dentro do meu esquecimento e os levam para deleite exclusivo de Deus.

Como demora o adversário planejador para o duelo de xadrez existencial! Mato o tempo que me mata dando tratos a bola e filosofando.

O alienado mergulha em si. Sou um alienado de mim mesmo. Nunca desejo mergulhar dentro de mim. O fato de ser mergulhador profissional faz com que eu ache um saco o mergulho interior.

Ainda mais que meus sonhos acontecem e, apesar de esquecidos, começam a desfilar em parada pela mente momento antes do desastre previsto que, então, evito. Não mergulho para dentro propositadamente. Mergulho para fora de mim e me espalho, raio divergente refratado por cacos dos fragmentos que foram um mosaico esquecido de sua forma original.

Enfim, vejo o garoto que me desafiou para o duelo. Ele se dirige ao balcão e solicita uma peça de xadrez existencial. Apontam para uma "rainha" branca, toda de negro, em uma mesa à mesma distância de nós dois. Olhos no sol negro do Paradise Bar Island, nós nos estudamos. Permaneço quieto. Deixo que ele saque a arma de carne primeiro. Talvez desista. Não. Manda avisar à rainha que irá imediatamente à sua mesa. Para aguardá-lo.

Retorna uma hora depois. Percebo quando, disfarçada-mente, coloca uma aliança grossa, de ouro velho, no anular da mão esquerda. Dois erros seguidos: o atraso e a confissão de que é casado. A conclusão é óbvia: ele comete dois erros seguidos para ser apanhado. Percebendo que ele deseja ser apanhado, vou irritá-lo, contradizer seus planos, ignorá-lo, deixando de apanhá-lo.

Não vou desmascará-lo. Se a rainha souber que é uma mera peça de xadrez, se eu revelar a verdade, vai se decepcionar comigo. Mulheres de classe detestam ter a certeza de que foram usadas em um jogo, apesar de desconfiarem e de saberem previa-mente que são parte dele. Recebem uma senha na entrada e bebem para esquecê-la.

O rapaz deseja que eu quebre a regra básica: jogamos o jogo de não jogar o jogo. Se eu esquecer dos lances e denunciar o primarismo de seus movimentos, a dama se aborrecerá comigo, ele negará e irá embora com ela, vencendo a partida.

Estas são as leis básicas: — Devemos esquecer de que se trata de um jogo. Não devemos recordar de que existem regras de um jogo que esquecemos. Não devemos recordar de que esquecemos o jogo e a regra. Não devemos recordar de que não nos rememoramos de que não lembramos de que esquecemos algo.

Quem violar as leis, ou as leis contra se lembrar de leis ou percebê-las, ou quem violar as leis contra recordar de leis contra ver ou perceber leis é desclassificado e punido com a morte da perda do ideal de ego.

São leis tão elementares quanto as que regem a união de duas letras para formar uma sílaba e de várias sílabas para formar uma palavra. Um escritor não se lembra delas quando escreve ou lê. Nem um campeão planejador quando joga. Isso explica por que computadores ganham de grandes mestres de xadrez e perdem para amadores: estão programados para jogadas perfeitas, que possuem lógica, e não para o caos tático de um iniciante.

Uma regra mais avançada, pouco vista no xadrez existencial, é a que permite às peças ganhar a partida e levar os dois jogadores, como troféu, para sua satisfação doméstica. Apenas uma mulher havia conseguido essa proeza: a rainha branca de Alice no País das Maravilhas que se dirige para minha mesa exatamente ao mesmo tempo que o desafiante. Tive a certeza de que estavam combinados pelos seus olhares cúmplices que não trocaram. Evitaram de se olhar, o que não é normal em duas pessoas que se destacam pela beleza e pelo oferecimento a qualquer um.

Prepare-se, leitor, eles vão tentar nos confundir, fazer com que enlouqueçamos, com que percamos o fio da meada das idéias! Agüente firme, que depois da tempestade vem a calma-ria! Não acredite em nada do que for dito até surgir a palavra mágica, previamente convencionada entre nós: "disputa".

OK, vamos lá, todos em seus lugares! Segunda tornada.

Paradise Bar Island. Noite. A rainha branca e o desafiante se aproximam ao mesmo tempo da mesa do campeão planejador. A rainha branca coloca uma substância efervescente em seu uísque e o desafia a tomá-lo. O campeão, confiante em seu computador cerebral interno — capaz de decodificar o efeito de qualquer droga sobre ele e contrabalançá-lo, anulando-o —, sabe que perderá a partida caso demonstre medo e toma de um só gole a estranha poção:

— Experimente essa efervescente erva aromática, essência ébria da bebida. Repare como fica bem a espuma de shampoo sob o uísque: uma cerveja destilada pelo oposto do alambique.

Com esta frase, de botar qualquer um doido, lábios de Fiorucci colocou alguma porcaria, tipo Sonrisal, em meu uísque, que ficou fervendo feito guaraná na pior ou champanhe demi sec na melhor das hipóteses. As duas, péssimas. Confiante em meu computador e desejoso de desligá-lo por alguns instantes, tomei. A droga começou a bater cada vez mais forte. Começou a tocar "purple haze was in my brain/lately things don't seem the same"? Tenho de segurar as ondas ou perco a partida. Mas tá difícil. Em seguida, sentou, ladeada pelo rapaz, aliás, seu filho, como soube depois em... — em outro conto que não vos conto, hipócritas cruéis e egoístas longe de toda comunhão santa das belas-letras! Leitores do nada que é: — o vazio de todas as coisas. É, tá difícil segurar as ondas.

Aí se sentou com o filho: "Bom dia, doutor!"

A voz doce tentava me enlouquecer, porém eu: "Boa noite, madame. O negro já desceu sob o inconsciente, o negro da noite ameaçadora que somos. Mas o que trago, além do málcool, é a paz e a fraternidade que, de coração, vos ofereço psicanaliticamente falando, é claro".

Ela agradeceu e entrou em associação livre, transe auto-hipnótico paradoxal em que o analista era o filho, a quem pediu conselho e confessou que também gostava de mulheres.

O filho, impassível, pediu que ela ligasse o vídeo individual disponível nas mesas do Paradise Bar Island. Sem acreditar na reação aleatório-alienada do filho —"Estado de Choque!!", ligou a TV. O filho:

— Mãe, a gente é como um aparelho de TV. Se um rádio está fora de freqüência, dá um chiado. O ser humano, fora da freqüência adequada, tem um sintoma. Se alguém toca nas zonas erógenas de outro, qualquer pessoa, qualquer um e até eu — se a senhora tocasse meu peru, por exemplo — nos excitaríamos. Tá limpo! A senhora funcionou perfeitamente, quando ligada na freqüência ardente e prazerosa do sexo.

Passaram, depois, a debater acaloradamente sobre o que era o silêncio. Depois de ouvi-los por horas a fio, decidi que era hora de fazer meu primeiro lance — ou perderia por abandono — e pedi para responder. —

O que é o silêncio? E permaneci mudo por meia hora. Depois fiquei calado por dez anos e, enfim, por um século. O bar parou no fim da temporalidade, algumas pessoas envelheceram e morreram. Nós, ali, na partida, atemporais. O espaço-tempo-realidade quebrava suas ondas ante o muro invisível que a resposta erguera — proteção invisível de Kolynos antitudo. Aí, concluí: "Entenderam?"

Hora de tentarem outro lance. O rapaz:

— Sei que a senhora me ama...

— Eu te amo, te amo, disse a mãe, olhando-o hipnotico-fixamente nos olhos.

Mas me ama desesperadamente!

— É, com o desespero, com o desespero!

— O bom, mãe, é que o desespero não tem limites. Amor interminável! O amor é uma transparência móvel que deixa o rei nu ante a pureza da criança!

Vamos, então, em disputa da mãe. Lance final. Ela e seu filho — aliás, digo, isto é, o rapaz e a rainha branca. Melhor assim, ou para não chocar os mais pudicos ou porque o computador voltou a funcionar. Entretanto, se a lenda é melhor do que a história, imprima-se a lenda e beba para se esquecer da história. Pensem o que quiserem. Pouco importa, mãe, mulher, amiga, comparsa ou recém-conhecida. Os cães ladram e a caravana passa.

Eles me olham telepaticamente, primeiro sinal de fraqueza. Fascinados pela minha busca da verdade, tentarão me destruir com a sua inexistência.

Vamos, então, em disputa da mulher. O rapaz insiste na velha técnica de errar e, do alto de seu smoking-fraque, pede que ela pague a conta. O melhor é não manifestar nenhum interesse. Mulheres bonitas estão tão acostumadas a receberem elogios que só podem ser seduzidas pela estranheza da indiferença. Concentro-me, aparentemente, no filme, olhar vidrado e pétreo na pedra do vídeo. Cometo, então, um erro, quando vejo o olhar apaixonado — e falso — da rainha branca. Sinto-me prestes a ganhar o jogo, perco a concentração, tenho pena dela e me indago sobre seus verdadeiros sentimentos. Qual é sua verdade, afinal? Telepaticamente ciente de minha pergunta metafísica, de alto valor no xadrez existencial, o rapaz tenta me destruir usando meu próprio estilo contra mim. Sente-se confiante no meu erro e na minha cara boboca de compaixão. Pergunta:

— E a verdade, meu amigo, o que é a verdade, afinal? No xadrez existencial do Paradise Bar lsland não se deve pensar em nada que não possa ser saciado por uma boa resposta, você sabe! Você errou!

Permaneço em silêncio. O juiz inicia a contagem. Peço tempo. Faltando um segundo, falo:

— A verdade só existe nos limites de sua definição: "adequação do pensamento ao objeto e à palavra que o expressa". Xeque-mate.

Também sei errar de propósito.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Bares, Botequins etc... – Volume 8 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura, Esporte e Turismo - Jorge Alencar
Coordenadora do Projeto – Miriam Santos Cardoso
Conselho Editorial – Joca Simonetti, Pedro J. Nunes, Sérgio Blank
Assessoria Técnica – Biblioteca Municipal de Vitória
Revisão – Reinaldo Santos Neves, Enyldo Carvalinho Filho
Capa – Wagner Veiga, acervo do artista
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e ITA
Autor do texto: Oscar Gama Filho
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2018

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Porto - Escritos de Vitória

Porto - Escritos de Vitória

Morava na Beira-Mar e, muitas vezes, percorria os olhos em direção ao Porto. Algumas coisas me intrigavam, a vida dos embarcadiços, as estórias de contrabando, as mensagens escritas nas pedras, os marinheiros do Bar Scandinávia, as prostitutas

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