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Pedro Fonseca, o fotógrafo

Parece que vejo Pedro, orgulhosamente portando uma máquina fotográfica russa, dizendo que iria retratar Vitória em 180 graus. Guardo a beleza da foto que ele escolheu para inaugurar a máquina, Ela pegava do Penedo às Cinco Pontes (Cacau Monjardim)

Os anos quarenta receberam, com a alegria própria dos descompromissados, na orla do mar, no serpentear das praias, então calmas, limpas e coloridas, uma figura humana que viria encher de vida, suave abandono e esmerada consciência profissional o relicário documental de uma cidade e seu povo.

Chegava a Vitória o fotógrafo Pedro Fonseca. De máquina fotográfica a tiracolo, tornou-se um freqüentador assíduo das rodas jovens da imprensa e uma imagem esguia e obrigatória, simpática e compreensiva, em todos os acontecimentos sociais, artísticos, culturais e oficiais, documentando com arte e sensibilidade os instantes maiores de seu tempo.

A paisagem era a sua paixão. Suas fotos traduziam cores e nuances em preto e branco que enfeitavam as galerias e exposições do Foto Clube do Espírito Santo, que ajudou a fundar, incentivou e projetou. Em pouco as fotos artísticas de Pedro Fonseca, ao lado de outros bons trabalhos de uma equipe amadora e tecnicamente adulta, representavam além mar, em exposições internacionais, com medalhas e louvor, o padrão da arte fotográfica capixaba. O estudo de contrastes, utilizando apenas os recursos da época e a sua sensibilidade, a sua intimidade com o sol e a lua, o mar e a praia, o casario antigo e as amostras de uma urbanização acelerada que já se fazia sentir, revelam-se de pronto na ágil fotografia do artista. Ponto por ponto, traço por traço, Pedro modelava a sua arte e exportava a sua técnica.

A sua paixão pela perfeição levava-o a buscar os mais avançados lançamentos. Era vizinho daqueles que viajavam e sempre tinha um pedido de catálogo a fazer. Possuía, para a sua época, um dos melhores laboratórios caseiros, cuja alegria maior se traduziu no carinho com que colocava suas máquinas, suas bacias e seus produtos químicos e sua assistência pessoal, vestida de adorável espírito de paternidade, à disposição dos iniciantes e dos profissionais de outros Estados que visitavam a nossa Capital.

Parece que vejo Pedro, orgulhosamente portando uma máquina fotográfica russa, dizendo que iria retratar Vitória em 180 graus. Guardo a beleza da foto que ele escolheu para inaugurar a máquina, Ela pegava do Penedo às Cinco Pontes. Parecia uma criança desfolhando quase um metro de rolo.

Durante os trinta anos em que convivemos ele não mudou nunca. O homem responsável, o amigo solidário, o irmão-gêmeo dos fatos sociais, o enamorado da natureza, o fotógrafo exigente, o contador de casos, o solteirão impenitente, o arisco fofoqueiro em círculo fechado, vivia, sempre, uma misteriosa aflição, quando contava os seus segredos. Sabia de tudo e conhecia todos. Quando tirava do bolso a lima de papelão e começava a aparar as unhas, com a malemolência dos movimentos cadenciados e tranqüilos, era hora de Pedro contar as últimas fofocas. Poucos, muito poucos, eram escolhidos para a confidência furtiva, na penumbra morna de seu laboratório arrumado, perfeitamente limpo e seguramente ideal.

Quando se tratava de fotos, os negativos eram selecionados, acariciados até, ficando os comprometedores guardados em caixas especiais. Os mais fortes, gerados pela indiscrição das fotos rápidas, eram cuidadosamente tesourados. Mas, alguns, como eu, mereciam a confiança pra ver os negativos mais positivos da coleção do velho artista. Estes momentos transformavam-se no seu mistério fundamental. Um decote ousado, uma coxa mais exposta, um beijo furtivo, um fim de noite mais avançado, um seio caprichosamente desnudo ou a mão boba relaxada e saliente, emprestavam à fisionomia de Pedro um ar de suspense e emoção. Aqueles negativos, para ele, na sua doce inocência, erma troféus de batalha. Se vivo fosse, com esta abertura total, com esta sem cerimônia desnuda, estaria irremediavelmente aposentado. Não admitia padrões avançados em termos do que considerava, mineiro que era, licencioso.

Talvez residisse neste conceito a importância que emprestava ao rosto e às paisagens tão pródigos e eloqüentes nos seus registros fotográficos. Era beleza pura, como diria o verso do cantor.

Homem de amizades guardadas carinhosamente, jamais as misturava com o possível interesse pela remuneração do seu trabalho. Paciente, no entanto, não perdoava a desfeita. E tecia, junto à imprensa, com o oferecimento de fotos para as colunas sociais, a teia de sua forra, eliminando, sistematicamente, as pessoas das quais não gostava. Isto era feito sem comentário, sem qualquer recomendação explícita. Pela omissão ele punia a ingratidão.

Orgulhava muito de ser chamado o “Fotógrafo das Misses”. Era um apaixonado dos concursos de beleza e sua capacidade profissional era reconhecida fora do Estado.  Credenciado, como convidado especial dos Diários Associados, documentou todos os concursos de misses enquanto viveu. Nunca, é verdade, ficou só na fotografia. Escolhia a sua candidata e buscava, malandramente, colocá-la nos melhores ângulos, com os melhores destaques de grupo e insinuava citações nas reportagens sobre a sua preferida. E, tudo isso, sem macular a dignidade profissional.

Esbanjou orgulho quando foi convidado pelo Cerimonial da Presidência para documentar a inauguração de Brasília. Suas fotos ocuparam milhares de centímetro-coluna nos principais jornais e revistas do país. De quebra fotografou também, o nascente e o poente maravilhoso do Planalto. O preto e o branco que Pedro colocou abraçando os arrojados palácios e prédios de Brasília e as cores que emprestou, com sutileza e arte às suas fotos, davam para compor uma sinfonia de criatividade. As primeiras árvores, os primeiros jardins e as primeiras crianças daquele cenário além do século, representavam para Pedro Fonseca um inesquecível encontro. Era, por tudo que viu e documentou, um juscelinista juramentado.

Guardava, com carinhoso enlevo, o diploma de fotógrafo oficial das festividades comemorativas do IV Centenário, que lhe foi conferido, com a respectiva medalha de ouro, pelo saudoso Jones dos Santos Neves.

Gostava de recordar passagens de suas reportagens, coberturas e andanças. Misto de repórter e fotógrafo, pois buscava o fato e a notícia com a mesma preocupação e responsabilidade, descrevia minuciosamente os grandes acontecimentos que abalaram o Estado: desastre ferroviário de Engano, queda do avião da Cruzeiro do Sul, caça e perseguição ao contrabando, visita de Getúlio Vargas, os grandes comícios de encerramento de campanhas, a visita de Carlos Lacerda e muitos outros.

Um dos trabalhos que realizou, pioneiramente, foi a reprodução do relatório de Jerônimo Monteiro, reeditando, fotograficamente, uma Vitória antiga, cuja importância agora está ganhando maior expressão por representar a crônica viva de um tempo imensamente gratificante para o nosso Estado.

Particularmente, gosto muito de lembrar-me do Pedro companheiro de alguns dos melhores momentos sociais já experimentados pela nossa cidade. O Pedro que fotografava a Festa dos 10 Brotos, das 10 mais elegantes, dos Desfiles Bangu e outras importantes promoções sociais que eu tive a ventura de criar ou coordenar. Era neste ambiente de juventude ou elegância maior que ele melhor se sentia. Adorado pela sociedade, o seu jeitão mineiro, descontraído e a perspicácia profissional mesclavam-se na simbiose de um sorriso matreiro e no desequilíbrio de sua postura, criando as imagens que o tempo, ainda hoje, não conseguiu apagar.

Lembro-me, apenas uma vez, de vê-lo triste. Revoltado mesmo. Contou-me que havia passado a noite em claro, procurando no laboratório o seu alfinete de brilhante, peça da qual não se separava nunca, e a medalha de ouro do IV Centenário, na ilusão de encontrá-los. Ele tinha quase certeza que haviam sido roubados. E, o mais triste: sabia quem os havia roubado. Misteriosamente, consolando-se, comentou: se foi levado por amor eu ainda desculpo.

Em abril de 1971, com 60 anos, 32 do quais vividos em Vitória, Pedro vinha a falecer, vítima de enfarte, no Hospital Santa Rita.

Do laboratório até o hospital, na madrugada anterior, sem pedir ajuda a qualquer amigo, ao sentir-se mal, pegou o seu Vemag branco e, vacilante, conseguiu chegar à porta do hospital.

Dentro do carro, mal estacionado, havia apenas, a máquina fotográfica, sua permanente e inseparável companheira.

Pedro morreu como chegara. Inteiramente só.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, nº 31/33. Ano 1980/1982
Autor: José Carlos Monjardim Cavalcanti (Cacau Monjardim) - Vitória, agosto de 1980
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2011



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