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Penedo vai, Penedo vem

O Pão de Açúcar ou Penedo, na Baía de Vitória, altura da maré de 13 de setembro de 1867

Manhã. Oito ponteiradas. Espreguiça-se. Respira. Resolve relaxar mais um pouco enquanto uma onda indomável de pensamentos a invade. Quer queira, quer não, já não consegue mais centrar-se em si mesma. Tenta fechar os olhos. Seus sentidos todos alertas estão vislumbrando o instante da partida para uma aventura única: imigrar... Conhecer novos povos, novas terras... enfim, realizar um sonho. Conclui: Esta seria a fase da sua mais excitante felicidade. E no entanto... agora... já não mais pode pensar-se fluindo nessa romaria sem retorno. Isto porque... gera com ternura o seu primeiro OVO!

Sente, feliz, as modificações orgânicas. A expectativa da maternidade tolhe-a completamente em sua natural capacidade de programar-se. Não tem mais a serena reflexão sobre o cotidiano. Seu cérebro pequenino trabalha em campo de transcendente lida. São preocupações até então desconhecidas com calor a ser transferido ao pequenino corpo do seu rebento... enfim... a responsabilidade de fazer daquele ovo um ser vivo. A viagem migratória, diante dessa nova epopéia afetiva, mostra-se mais obstáculo do que ansiedade prazerosa.

E a nossa FIN, assim chamada em homenagem à terra natal, nos píncaros do Valais Suisse, na cidade de Fin-Haut, prepara-se para a partida. Vai sim. Porque precisa emprestar coragem aos seus. É um deles. Seu sentimento do todo nasce justamente da unidade consigo mesma. A decisão está tomada.

Grandes cataclismas tornam a terra em que nasceram inadequada a animais de grande porte. E há notícias de locais longínquos onde as rochas têm estruturas exatamente propícias para suportarem animais gigantes. E FIN fita os céus com seus olhinhos meio orientais, oblíquos, sonhadores...

Sabe que tem um destino a cumprir. E determina-se, fixando-se na história local como a primeira imigrante valesana em terras do Novo Mundo. Lacrimosa, despede-se do Mont Blanc. Jamais, em quaisquer primaveras tropicais, suas retinas deixarão de fixar aquelas neves eternas...

E a dinossaurinha inicia sua viagem. Passos lentos. Cuidadosa com o seu prosperante OVO, ela se despede das paisagens domésticas. Deixa suas preces aos pés dos que rolaram das protuberâncias naturais daquelas terras, em quedas letais. Acautela-se contra outros desmoronamentos que podem ocorrer, ou contra asteróides rasgando aquele entristecido céu. Resoluta, cabeça erguida, cauda ereta, não olha mais para trás. Segue em frente a fazer caminho.

Atravessam o vale do Valais, rompem as barreiras suíças, alcançam a França e seguem até o sul da Espanha. E daí, por, água, a exigir um preparo de nadador, pelo Gibraltar, alcançam o norte da África. A petite FIN, encorajada pela aventura ímpar, vence com galhardia todos os obstáculos.

A expedição prossegue agora pela costa atlântica da África, e a nossa heroína contempla as terras do Marrocos, encanta-se com o Saara, a Mauritânia, o Senegal, a Gâmbia, a Guiné-Bissau, a Serra Leoa. Nem acredita que aquelas paragens todas sonhadas em noites de insones pesares possam estar sendo trilhadas por seus pés. Pés? Humm... Digamos que... patas! Alcançam a Libéria. O cansaço domina a todos. FIN não descuida de suas anotações geográficas com as quais pensa instruir o seu futuro filhote.

Aporta às terras potiguares, após uma viagem marítima extenuante, com a alma inquieta, desassossegada com receio de que aquele tão esperado OVO possa vir à tona e afundar-se naquela imensidão azul do imensurável oceano Atlântico. Está em pânico. Nem se permite abraçar-se em total encantamento com a beleza daquelas águas de um verde-azul tão diferente do Mediterrâneo. Seu cuidado concentra-se no advento do seu primeiro OVO.

Os dinossauros banham-se felizes nas costas da terra ainda não pertencente à Santa Cruz, ou à Vera Cruz ou a Aracruz. Eles sabem por intuição, por instinto, que aquele oceano esmeraldino será definitivo em suas vidas.

Agarram-se felizes às esperanças do novo lar. Quantos conseguiram chegar? Dos que partiram... muitos ficaram pelo caminho, vítimas de moléstias adquiridas com as mudanças de clima, esforços sobredinossáuricos aos quais não estavam acostumados, especialmente nas travessias marítimas. Contudo, o Criador fora benevolente para com FIN e aqui estava ela muito prenhe daquele OVO. Sim, aqui chegara com o firme propósito de perpetuar a sua raça.

Alguns daquela extravagante caravana de imigrantes alcançaram as paradas nordestinas. À noite, reunidos, comunicaram que optariam por São Luís do Maranhão, pelas bacias hidrográficas do Parnaíba, ou pela planície do rio do Peixe. Alguns chegaram ao Parecis no Mato Grosso. Outros, dentre eles a nossa FIN, arrastaram-se até o São Francisco. Outros buscariam Peirópolis, nas Minas Gerais.

FIN era impulsionada por força estranha... uma necessidade de ir sempre em frente. Assim... ao adentrar a baía da ilha de Vitória... reconheceu-se em trabalho de postura. Seu coração fremia de prazer e medo. Dor e alegria. Instantes de hesitação e de plenitude nos meandros do contraste sentido. Doloroso e feliz. Arrasta-se à procura de um improvisado ninho.

O céu estremece. A natureza também vê-se em trabalho de parto. E o tremendo cataclisma sísmico abala a pacata terra da grande nação Tupi. Os olhos da montanha arregalam-se em órbitas desmesuradas a abortarem os próprios globos oculares que também explodem no contexto.

FIN dá, não à luz, mas às terríveis trevas que acobertam o pleno, o seu tão cobiçado OVO! Que, aliás, são OVOS! A expressão jubilosa da maternidade plasma-se em seu semblante. No justo instante em que a explosão lança sobre a panorâmica reinante lençóis de lavas vulcânicas... concretizando para sempre a paisagem na baía de Vitória.

— Ei-lal...

—  Onde?

— Quem tem olhos de ver que veja sempre o outro lado das coisas.

— Mas.. Onde? Não a vejo!

— Sim. Onde?

— Veja: a pedra do Penedo retrata a sua silhueta embelezando a baía em privilegiada cenografia. Ela fita a cidade, contempla o oceano na calmaria da enseada, atenta aos que a cercam. Você consegue distingui-la? Só o conseguem aqueles que, concentrados na arte do absortismo invulgar, divisam espectrais no natural elemento.

— E o bebê de FIN? Onde o localizaremos?

— Ainda está para eclodir. A pedra dos Ovos é alvo da eterna vigilância daquela mamãe dinossaura.

— Já fotografaram até a indelével pegada de FIN. Isto mesmo. E retrataram-na, inteira, de mil modos. Veja a foto de FIN colhida por um de nós, o Holland Rico!... O povo de Vitória sabe que, um dia, aqueles ovos, chocados pela dinossaura que é mais conhecida hoje como a pedra do Penedo, eclodirão. E deles sairão, muito capixabas, uns dinossaurozinhos.

— Será que os divisarão logo?

— Não sei... O formato dos OVOS é realmente desbitolado. Mas, também, pudera, com tantos atropelos e percalços daquela viagem sem precedentes... o que poderíamos querer mais?

— O importante é que o nosso Penedo não se revele muito matriarcal aos seus ovos de dinossaura. Porque correrá o risco de ver-se explodido, em sua rotunda parte pudenda, tão inocentemente exposta aos transeuntes, com nitroglicerina ou seus derivados, por mercadores sem escrúpulos para vendê-lo, como produto de exportação, a ambiciosos forasteiros... Pois é. Nosso Penedo que se cuide! E continue com a cauda submersa nas águas poluídas da nossa baía, sob pena de vê-la transpassada por um marco vermelho adornado por uma luzinha, o que, certamente, lhe emprestaria toda a característica de um imenso vagalume.

— Deus nos livre de tal ideia! FIN é cantada em prosa e verso. Todos a retratam. Poucos a discernem! Quantos anos tem FIN... Quem ousa perguntar-lhe? Traçam-lhe a árvore genealógica e até uma biografia. Mas quando esbarram no referencial da data do nascimento... não conseguem uma definição mais precisa.

Ela, segundo Bárbara, é eterna e não pode ser mensurada ou datada em limites de um tempo que não é o seu. Mas, com toda aquela massa de granito... deve ter perto de uns 550 milhões de anos. Em Vitória existiam muitas manchas graníticas de basalto. Fruto do período arqueozóico, da era pré-cambriana.

— Ora, mas naquele tempo ainda não existiam os sauros. Eles só apareceram, os primeiros, há cerca de 230 milhões de anos atrás, no período triássico e dominaram a Terra por mais de 160 milhões de anos. Eram os terríveis saurísquios. Outras espécies surgiram no período cretáceo, mais ou menos de 65 a 135 milhões de anos atrás, ou no pós-cretáceo, fase mesozóica. Quem sabe ao certo quando nasceu FIN?

— Tudo bem, mas falam de um abalo sísmico que petrificou de espanto a dinossaura que virou a pedra do Penedo, e que bem pode ter sido extemporâneo, ou... sei lá... ora, ora... E depois, quem foi que disse que a dinossaura é que se transformou em pedra? Será que não foi a pedra a metamorfosear-se em dinossauro para perpetuar a beleza da cena? Lembra-se do Frade e a Freira? A energia do amor, meu amigo, é fruto de nossa própria fuga da relação tempo-espaço. Amar é viver em desarmonia com o que é. Não com o que somos.

Bem, importa preservar sua memória e a dos seus parentes... não explodir a pedra do Elefante, a pedra do Camelo, seus amigos... não dividir o Mestre Álvaro como fatias de um bolo! E que FIN se sinta amada mesmo que não receba o título de cidadã espírito-santense. Importa que parem de fazer propaganda eleitoral nas suas nádegas, emporcalhando-a toda de tinta e cal. Uma vergonha. Um desrespeito!

— Que diz FIN a tudo isso? Por enquanto, feminina e discreta, prefere permanecer silente. Preocupada com o destino dos seus rebentos, a sua maior preocupação é com a intenção dos estranhos em almoçar suas crias. Imaginem que até chamam a um de seus ovos de Pedra da Cebola. O que a deixa muito desconfia... Silenciosa, FIN permanece em vigília. Muito calada, garantindo-se o papel de um dos mais importantes cartões de visita da paisagem da ilha de Vitória.

— Quem lhe contou essa história do nascimento da a do Penedo?

— Foi um antigo pescador chamado Pierre. Era catraieiro no porto de Vitória. Atravessava as pessoas até o cais de Paul, na sua baleeira, no tempo em que não havia a segunda nem a terceira pontes ligando a ilha ao continente. Não havia nem mesmo as cinco pontes. Remava cantando uma cantiga do folclore capixaba: "Penedo vai, Penedo vem, Penedo é terra de quem quer bem. Vem cá, Maria, vem cá, meu bem, se tu és de tua mãe, é minha também." Pedro, assim era chamado pelos amigos, foi levado pelo mar. Morreu agarrado ao Penedo.

— É... também, na sua simplicidade, o que entenderia Pedro, o pescador, de eras geológicas? Atemporal... em sua inocência poética, viu com os olhos de ver a dinossaura a quem tanto amou e com quem morreu abraçado.

 

ESCRITOS DE VITÓRIA — Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.

Prefeito Municipal: Paulo Hartung

Secretário Municipal de Cultura e Turismo: Jorge Alencar

Diretor do Departamento de Cultura: Rogerio Borges

Coordenadora do Projeto: Silvia Helena Selvátici

Conselho Editorial: Álvaro José Silva

José Valporto Tatagiba

Maria Helena Hees Alves

Renato Pacheco

Bibliotecárias

Lígia Maria Mello Nagato

Cybelle Maria Moreira Pinheiro

Elizete Terezinha Caser Rocha

Revisão: Reinaldo Santos Neves , Miguel Marvilla

Capa Pedra dos Olhos (Foto de Carlos Antolini)

Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer  

Impressão: Gráfica Ita

 

Fonte: Escritos de Vitória 12 – Paisagem - Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV
Autor do texto: Magda Lugon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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