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Ponte da Aliança - Por Ester Abreu Vieira de Oliveira

Ponte ligando o Forte de São João ao Penedo

Quantas pontes há por esses quatro cantos do mundo de Deus em sua função de unir países, estados, municípios, bairros, picos, abismos! Suas reais funções de separar, unir, atar, conectar, conjugar, ligar e enlaçar territórios facilitam o transporte do homem a pé ou sobre algum veículo ou animal. Elas dão entrada ou saída para algum lugar. Exóticas, graciosas, modernas e arcaicas, nelas podem acontecer momentos de prazer, de uma contemplação de uma paisagem noturna ou diurna, de um beijo trocado ou roubado, ou podem ser testemunhas de instantes em que alguém procura o trágico prazer de um encontro com a morte ou o prazer de realizar um perigoso esporte.

Na aliança, na ligação, na conexão, no nexo, na sinalefa, na ligadura, na articulação que faz a ponte de uma margem para outra, sobre arcos, pilastras, suportes aramados de ferro ou aço ou revestidos de cimento, sobre firmes rochas ou alicerçada por madeira, cimento, ferro ou aço, sobre águas do rio, do mar, de um lago ou sobre solo seco, ela serve, muitas vezes, como cartão-postal pela exótica beleza de linhas modernas ou antigas.

Firmes, em formas variadas, seja como uma ponte pênsil, levadiça, metálica ou rolante, cruzando águas, ligando ilhas a continentes, marcando fronteiras ou unindo picos e desfiladeiros, as pontes são hífens que unem o lado direito com o esquerdo.

Pontes há quantas! Sejam as que, ainda que divisoras de águas rompam fronteiras, ou as que, firmes sobre rochas, facilitam o traslado, e, ainda, as que unem os mais díspares corpos de mais diversas formas e variados meios de enlace tais como: pontes dentárias, pontes de safena, ponte pênsil, ponte aérea, ponte de ferro, ponte de aço, ponte de madeira, ponte de cimento, ponte rolante, ponte flutuante e/ou ponte metálica.

As pontes, como um oroboro, ao permitir um contínuo ir e vir se tornam arcabouço do transporte e, muitas delas, possuem sólidos e imponentes arcos. Mas não podemos deixar de esquecer seus irmãos: o perigoso pontilhão, a insegura pinguela, as esperadas, monótonas e irritantes pontes aéreas, os viadutos e o fechado túnel. Todas as suas formas oferecem ao homem a oportunidade de cruzar céu, água ou terra.

Os romanos estenderam o seu império e pelos seus caminhos (suas rotas) deixaram as pontes com os seus arcos pesados, sujeitando correntes impiedosas, e, até hoje, muitas delas podem ser admiradas e sobre elas se pode transitar. Os Incas, também, construíram pontes suspensas em seu processo de expansão territorial. Eles buscaram planaltos encravados entre as montanhas andinas e para interligar as cidades de seu Império construíram uma serie de estradas em pedra, com o mesmo objetivo dos romanos: facilitar o deslocamento e a comunicação entre as pessoas. Para esse fim, fabricavam os incas as pontes suspensas feitas de fibras vegetais de sisal, algodão, gramíneas, arbustos e materiais retirados de animais, como a lã que, entrelaçadas, eram resistentes e seguras. Elas mereceram a admiração dos espanhóis do século XVI quando estes chegaram ate as regiões andinas e viram a distância entre as extremidades das pontes.

Dos nomes que as pontes recebem e as lendas e histórias de amor e sofrimento que sobre elas se contam são notáveis: a Ponte do Suspiro, em Veneza e a Ponte de Brooklyn ou Brooklin Brige que desde 1883, em Manhattan, permite o acesso a New York. A Ponte de Warterloo, sobre o Tamisa, em Londres, ficou célebre pela aventura amorosa do filme com Vivien Leight e Robert Taylor. Durante a Primeira Guerra Mundial, nessa ponte, um coronel relembra o seu romance iniciado, durante um ataque aéreo, quando ajudou uma bela jovem a se proteger num abrigo e depois a morte trágica da amada naquela ponte. A Ponte Alexandre III, a mais elegante de Paris pela sua abundante decoração escultural de grande qualidade e do cenário privilegiado do qual participa e contribuem com perfeição, quantos segredos revela! Sua fama advém também da arte tecnológica que representa. Ela é constituída de um só arco que a recobre vigorosamente, porém submerso para não romper o encantamento da vista tanto a dos Champs-Elysées como a dos Invalides. Impõe em Lisboa a majestade da ponte que recebe a proteção de Cristo Rei e que possui um triplo nome. Seja ele indicado como nome oficial e em mudanças políticas, primeiro Ponte Salazar e depois Ponte 25 de abril, seja o de gosto popular, Ponte Sobre o Tejo. A grandiosa ponte pênsil Hercílio Luz, em Florianópolis, liga o continente à Ilha de Santa Catarina. A majestade da Ponte Presidente Costa e Silva, conhecida como Rio — Niterói cruza a baía de Guanabara. A Ponte do Guaíba, em Porto Alegre, pelo avanço tecnológico da época em que foi construída, é orgulho dos gaúchos. A Ponte de La Amistad, separando geograficamente o Brasil do Paraguai, facilita o trânsito de pessoas e dos famosos sacoleiros de lá para cá e de cá para lá. Há outras e outras pontes: Ponte do V Centenário, em Sevilha, a Ponte de Alianza, sobre o rio Siriji, na Venezuela, a ponte romana de Salamanca, mas muitos nomes de batismo delas, em qualquer território, local, nacional ou internacional, freqüentemente, são esquecidos e elas se tornam conhecidas por sua identificação logística: Ponte de Linhares e Ponte de Colatina (estas últimas) sobre o rio Doce e Ponte de Cachoeira de Itapemirim. E Vitória, cidade edificada em uma ilha, em que as pontes fazem o elo entre a ilha, onde vivo, e o continente que lhe serve de extensão política, não foge a essa regra de ter o nome de batismo da ponte substituído por outro mais representativo da função que exerce e que se tornou mais popular. Assim a conhecida Terceira Ponte (que não é terceira), que dá acesso mais direto ao Centro de Vila Velha, tem o nome de Deputado Darcy Castello de Mendonça. A Primeira Ponte, que liga a ilha de Vitória a Vila Velha, foi construída, em 1928. É conhecida como Cinco Pontes, por se tratar de cinco pontes ferroviárias pré-fabricadas e emendadas, mas o seu nome oficial é Florentino Ávido. Uma parte dela, que fica próximo à Vila Rubim, é designada Ponte Seca, pois o mar ali foi aterrado, mas quanta vez debaixo dela passou de barco no trajeto do mercado da Vila Rubens a Santo Antônio, na década de 60! A conhecida Segunda Ponte, responsável pelo terrível fluxo da parte sul da ilha, ligando a ilha ao continente, tem o nome de batismo Ponte do Príncipe. A Ponte de Camburi une a ilha à Praia desse nome. A Ponte da Passagem deixou lugar para a Nova Ponte da Passagem, cartão-postal de Vitória atual em direção à Carapina e à UFES, com seus pilares metálicos e pelas linhas harmoniosas de torres metálicas brilhantes de dia e de noite, recebeu, em agosto de 2009, o nome Carlos Lindenberg. Essas pontes fazem o fluxo rodoviário da cidade e cada uma traz o selo de uma variada técnica, mas não posso esquecer-me da singela e pitoresca pinguela do Parque Moscoso que recordações me trazem de namorada e de mãe.

O certo é que as pontes pelas quais cruzei por rodovias, ferrovias e aeroportos foram aumentando em número e são lembradas. Como não lembrar as pinguelas mais longínquas que facilitavam, a nós, crianças, cruzarmos os riachos encachoeirados, na fazenda da Cachoeirinha, em Muqui, equilibrando-nos na tora, horizontalmente colocada, por fortes mãos práticas para ajudar a superar o obstáculo de chegar ao destino desejado. Era a nossa proeza o afrontamento com o medo. Mas ao chegarmos à outra margem eram risos e palavras estimulantes para os que ainda não se encorajavam na travessia.

Também, é para serem lembrados os pontilhões da estrada de ferro. Os menores pontilhões, que serviam para escoamento da enxurrada, saltávamos sem problema, mas os maiores, que cruzavam corredeiras, exigiam mais habilidade: tínhamos que nos equilibrar corajosamente nos trilhos, vendo a água borbulhante passar, clara e cantante. Estremecia o coração a visão, mas, num riso que escondia o temor, passávamos. Porém o que nos atraía depois da proeza de provar o equilíbrio e mostrar a fortaleza, afrontando o perigo, era o que procurávamos, ali. Abaixo do pontilhão, quase encobertos pela vegetação, onde a água agitada se acalmava, naquele remanso, estavam os girinos, ágeis, flutuantes, com seus rabinhos pretos, movendo-se. Era inacreditável que aqueles falsos peixinhos seriam os cantores do brejo!...

As imagens do passado passam, como uma ponte, para o atual presente e, nesse ir e vir ressurgem outras imagens de pontes: a quase trágica, a angustiante-misteriosa e a alegre.

Comecemos pela quase trágica lembrança. Certo dia, em Muqui, depois de uma tormenta, vi com terror uma ponte flutuar em direção à nossa casa e, ajoelhada, rezei, pedindo a proteção Divina. Minha oração foi ouvida, pois, no mesmo instante, a ponta da ponte golpeou o poste e, em uma guinada, ajudada pela correnteza que transitava pela rua, a ponte foi para a direita e não atingiu a nossa casa. Isso aconteceu quando o rio Muqui cresceu resultante de uma tromba d'água, e subiu dos pomares pela rua, estendendo as suas águas até a estrada de ferro. Coisa nunca vista na cidade!

A ponte angustiante teve lugar no ocultamento do mistério da vida, quando, sendo eu a mais clara de meus irmãos, me diziam, para explicar-me o meu nascimento e para implicar comigo, tinhosa, chorona, geniosa, que eu havia sido encontrada debaixo de uma ponte ao pé de uma bananeira. Que choradeira fazia e que angústia sentia em me sentir ali jogada em vez de ter sido trazida em uma cesta pela cegonha como acontecera com meus irmãos. Naturalmente não conhecia o tal pássaro, mas me parecia que a chegada aérea era muito melhor que ser encontrada com frio, abandonada por alguém, perto da água. Mas não sabia qual ponte e pensava que fosse a velha ponte do Entre Morros que ia em direção à fazenda da Cachoeirinha.

A ponte que proporcionava alegria fazia parte das correrias noturnas em frente da casa. Era a Ponte da Aliança. Quando o nosso grupo cantava e imitava a ação que o verso pedia.

Lá na Ponte da Aliança

Todo mundo passa.

Passa, passa, passa um

Passa, passa, passam dois

Passa, passa, passam três,

Passa, passa, passam quatro,

Passa a boiada,

Mas também passa

A moreninha de cabelo cacheado.

Todo mundo passa.

As lavadeiras fazem assim, assim, assim

Lá na Ponte da Aliança

Todo mundo passa.

Os piolhentos fazem assim, assim.

Lá na Ponte da Aliança

Todo mundo passa.

Os cavaleiros fazem assim, assim.

Lá na Ponte da Aliança

Todo mundo passa.

Os vaidosos fazem assim, assim.

E na cantiga infantil vão os vários tipos humanos com as suas marcas passando. Passam cinco, passam seis, passam sete, passam oito, passam nove, passam dez... "Tararatatá..." Quem não passa na Ponte da Aliança? Ó Deus! Por ela todos podem passar, pois não há discriminação... Todos passam. E hoje, por ela, passam o meu presente e o meu passado e sei que não nasci debaixo de uma ponte, mas que sou eu mesma uma Ponte de Aliança entre o passado, vivido em Muqui, e o presente, que vivo em Vitória.

 

Autora: Ester Abreu Vieira de Oliveira
Fonte: Vitória - Poesia e História, 2013
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2014 

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