Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Pontes e desafios – Por Ana Maria Quirino

Ponte do Camelo em Jardim América, 1956

Quando, do interior de Minas, os meus vieram buscar vida mais ampla no Espírito Santo, encontraram seu primeiro cantinho nos arredores de Vitória e logo um desafio se apresentou a mim e as minhas pequenas pernas de criança recém e tardiamente iniciada na arte de andar: uma precária pinguela se interpunha entre o quintal de nossa casa e a rua.

Em princípio, meus passinhos cambaleantes de criança visitada pela poliomielite não davam conta de cruzar aquele rústico pedaço de madeira sofrivelmente equilibrado entre as duas margens de uma pequena vala povoada de barrigudinhos e outros peixinhos coloridos que meus irmãos mais velhos chamavam de "libitis", nome que jamais descobri se, de fato, existe.

Na idade de ir para a escola, outro jeito não houve senão encarar o desafio diário de atravessar aquele meu primeiro ensaio de ponte. Registrem-se alguns poucos e humilhantes episódios de ter que voltar para casa com meu uniforme de blusa branca e saia pregueada vermelha totalmente enlameado, cadernos salvos pela providencial sacola de arroz.

Os anos foram passando e meu território se ampliou em direção à ilha de Vitória. Para passear no Parque Moscoso, era preciso atravessar a "Ponte do Camelo", sobre um rio Marinho ainda limpo, e a gigantesca "Cinco Pontes", toda gradeada, para o ônibus não cair no mar. Na ida e na volta, era obrigatório que eu e meus irmãos contássemos as cinco pontes que, afinal, formavam uma só.

Horizontes se abrindo, mais uma ponte no meu itinerário até a universidade, agora com o significativo nome de "Ponte da Passagem". Passei, passamos, passaram-se os anos. Vitória difícil de alcançar. Percurso longo, travessia complexa. Necessárias outras pontes: uma segunda, uma terceira que, para mim, poderiam ser chamadas de quinta, de sexta, de sétima...

Hoje... ah, hoje sou da ilha, trabalho na ilha, vivo na ilha. Já conquistei Vitória. E se hoje ultrapasso seus limites através de suas iluminadas pontes, e depois retorno para meu lar na ilha, meus olhos ainda brilham, já não de surpresa e susto, mas de puro deleite.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 27 - Pontes, 2010
Autora: Ana Maria Quirino. Mineira, de Mantena, radicada no Espírito Santo desde os dois anos de idade. É graduada em Letras-Português e Mestre em Letras, pela Universidade Federal do Espírito Santo. Atualmente trabalha no Instituto Federal do Espírito Santo e mora na ilha de Vitória desde 2006.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2020

Literatura e Crônicas

Praça Oito

Praça Oito

Registros da vida na Praça Oito, com as normalistas, a loja Flor de Maio, o Magazin Lojas Unidas e outras recordações maravilhosas... Por José Valporto Tatagiba

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Praia Tênis Clube - Por Sérgio Figueira Sarkis

Lembro de alguns com a presença de Affonso Queiroz do Valle, Evanildo Silva, Luiz Paulo Dessaune, Reynaldo Broto e Vânia Sarlo

Ver Artigo
Vitória Cidade Presépio – Por Ester Abreu

Logo, nele pode existir povo, cidade e tudo o que haja mister para a realização do sonho do artista

Ver Artigo
A visão do negro na literatura do Espírito Santo – Por Francisco Aurélio Ribeiro

O negro vem a ser, por isso, apesar de todas as vicissitudes que enfrenta, o componente mais criativo da cultura brasileira e aquele que, junto com os índios, mais singulariza o nosso povo. *

Ver Artigo
Os pobres na literatura do Espírito Santo - Por Francisco Aurélio Ribeiro

A Literatura Capixaba, excetuando-se a poesia, sempre foi feita pela burguesia - beletrista por excelência

Ver Artigo
Bloco Unidos do Quintal

Quem já brincou o carnaval de rua de Vila Velha, com certeza tem na memória os registros do Bloco Unidos do Quintal, da década de 70

Ver Artigo