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Praça Oito - Por Eugênio Sette

Título e ilustração da coluna Praça Oito de Eugênio Sette, na revista Vida Capichaba

Alguém me perguntou que relação havia entre o título fixo (1) e as crônicas de assunto variado.

É que, certa vez, escrevi o que se passava na Praça Oito. A outra, a grande. Além disso, no jornal (2) onde trabalhava, eu tinha uma coluninha com a mesma denominação. E, para Você que talvez não saiba o que ali se passa, eu farei uma rápida exposição apenas para que Você tenha uma idéia mais nítida do que é aquilo que merece o nosso mais profundo respeito.

Me lembro — este me é um ultraje aos puristas — que era época de guerra. A praça, sempre a regurgitar era um campo de batalha formidável. Os estrategistas do Almeidinha (3) descreviam os mais variados choques terrestres, marítimos, aéreos e submarinos, como se neles houvessem tomado parte. Puxavam-se mapas dos bolsos, mapas em que estavam assinalados os últimos avanços aliados ou os dos germânicos. Houve, depois, a torcida russa. Brotavam estatísticas de navios afundados e de aviões derrubados. Aniquilavam-se exércitos à ponta de lápis. Bofetada e tiro, que eu me recorde, nunca saíram, porque a turma do "deixa disso" estava toda inteira, ali, para controlar os mais exaltados.

Mas, além da guerra, havia a Ilha. As coisas e as pessoas da Ilha. As grossas grandezas e misérias. As intriguinhas. O "eu soube". O "me disseram". O "eu ouvi dizer". E era dentro nessas fórmulas anônimas, irresponsáveis, acovardadas, tão do gosto de tanta gente, que se vivia, que se vive, que se viverá, para todo sempre nesta Ilha que é muito nossa.

Finda a guerra, restou a Ilha e a sua gente. Eu não sei o que seria de Vitória, se não fosse a Praça Oito, ilha dentro da Ilha. Para se dizer o que se diz na Praça Oito, a da Independência (4) não serve. É esta ainda muito moça, ingênua, cândida. A Praça Oito me parece uma mulher dama, muito vivida, muito experimentada, que não arrepia carreira, nem se encabula com uma piada mais grosseira. Já viu tudo. E, por isso, aguenta firme, consciente do seu papel.

A Praça Oito é do Povo como esta frase é de Castro Alves. E o povo não perdoa. Ninguém se aguenta, na Praça. Aquilo é um rolo compressor. Arrasa. Coventriza (5) reputações. Desmancha poses e cartazes. Aniquila. Às vezes, aos poucos, outras vezes sumariamente. Zurze o couro alheio com uma força digna de Hércules. E nenhuma reação é possível, porque todos sabem de tudo e, ao mesmo tempo, ninguém sabe de nada. É o mesmo que se esmurrar o vento. Não há resistência. Na vida dos ilhéus, a Praça não deve ser menosprezada. Porque ela é um monstro de precisão — registra tudo. É um aparelho mecanicamente ainda não inventado, tamanho é o seu poder de captação, retenção e distribuição. Tudo, nela, tem sua razão de ser.

O desavisado, ao primeiro contato que tem com ela, se espanta, arregala os olhos, abre a boca, dá a impressão de que vai engolir o mundo. Fica sem ar. Depois, passa o fenômeno. Aos poucos, se acostuma ao ambiente. E fica sabendo que é assim mesmo, que ninguém pode mudar coisa alguma. A Praça pode ser chamada de realidade, fantasia, opinião pública. O nome pouco importa. Ela é a Praça!

A minha Praça Oito, esta que está aqui, é bem mais modesta e sensaborona. Não ofende, não machuca, não esmaga. Em outros tempos, chegou a ser mordaz, algumas vezes braba, seca. Hoje, coitadinha, perdeu o élan. Definhou. —

É inócua. Até que não diz nada...

 

Notas do texto

(1) “Praça Oito” era o título da coluna de Eugênio Sette na revista Vida Capichaba. Nesta crônica ele indica as diferenças entre a coluna e a praça, “a outra, a grande”.

(2) A GAZETA, do qual Eugênio Sette foi colaborador na década de 40.

(3) Assim se chamava, popularmente, o Café Capitania, situado num canto da Praça Oito.

(4) Praça Costa Pereira, então chamada da Independência.

(5) Anglicismo empregado por Eugênio no sentido de arruinar. To send a person to Coventry, em inglês, significa recusar-se a falar com uma pessoa ou com ela relacionar-se

 

Fonte: Praça Oito, 2001
Autor: Eugênio Sette
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2014

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