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Praia do Suá - Malhação do Judas

Malhação do Judas - Praia do Suá

A origem da Malhação do Judas nas ruas do Suá data do início do século passado, e se cristalizou como um forte evento no bairro. Não se sabe quem iniciou tal tradição, mas acredita-se que veio do além-mar com os pescadores lusitanos. Realizada no Sábado de Aleluia, durante a Semana Santa, a zombaria atrai hoje Sábado de Aleluia e porrete! pessoas de vários bairros de Vitória, inclusive a imprensa, para assistir as pauladas no boneco de pano e para descobrir.quem foi o escolhido para o papel de "Judas do ano".

Contam os mais idosos que, antigamente, o evento tinha uma conotação mais inocente. Fazia-se o boneco com sobras de pano, que em seguida era pendurado (ou enforcado) num poste. Quem tivesse alguma crítica a fazer contra algum morador do arrabalde, colocava um bilhete preso ao Judas. E assim apareciam as mais diversas, e engraçadas, gozações: sabia-se, então, que determinada mulher traía o marido; que alguém tinha surrupiado algum objeto; fazia-se escárnio contra os beberrões; etc. Enfim, era uma oportunidade de lavar a roupa suja, com ironia, sem que se soubesse quem denunciou ou zombou.

Depois de ficar dependurado durante quase todo o dia, o Judas era então carregado pelo bairro para que fosse visto. Em seguida, arrastado pelas ruas com a corda que o enforcou, com as crianças batendo nele com paus e varas, e gritando em coro: "Pau no Judas, que mereceu!" Essa tradição permaneceu assim até o final dos anos 70, quando deixou de ter um caráter apenas de lembrança cristã para adquirir aspecto de crítica social ou política.

Relata Zezito Maio que essa nova conotação surgiu durante a administração do prefeito Carlito Von Schilgen. "Foi quando começamos a ligar o Judas com quem traía o povo", sublinha. E o primeiro Judas-político, segundo o vereador, foi o então secretário de Serviços Urbanos, Isaac de Menezes. "A Praia do Suá, naquela ocasião, estava muito suja. Vimos o Dr. Isaac bebendo num bar do bairro, e gritei: 'Olha lá o Judas!'. E a coisa pegou", lembra.

De lá pra cá, entretanto, o evento ganhou um cunho mais midiático, onde toda a imprensa aparece para saber quem foi o "Judas do ano". Os cartazes deste ano, por exemplo, traziam a dengue (social) e o governador José Ignácio Ferreira (político). Tudo agora é feito muito rápido: esperam-se os jornalistas chegarem, e, quando estes aparecem, joga-se o boneco no chão, encharca-o com óleo diesel e depois puxa-o pelo arame, com as crianças seguindo o ritual de sempre, sob as lentes de filmadoras e câmaras fotográficas. No dia seguinte, as manchetes dos principais jornais da capital falam do(s) escolhido(s).

Conta Zezito que o que mais chama a sua atenção são os dias que antecedem o festejo. Seu celular não pára de tocar, com os políticos pedindo para não serem os escolhidos. "Nós fazemos uma votação, um dia antes do evento, entre três nomes. E no dia sai o selecionado ou até mesmo na véspera", completa. A encarregada de fazer os bonecos de pano é a costureira Elza Santos Reis, 74 anos, esposa de Moacyr Reis, e que há mais de 40 anos providencia o "corpo" do apóstolo traidor de Cristo. "Deixei a costura, mas não deixei de fazer o Judas. Fecho, costuro, emendo a roupa, mas o nome do Judas já não é comigo", desliza Elza, sem querer se comprometer.

 

Fonte: Praia do Suá – Coleção Elmo Elton nº 9 – Projeto Adelpho Poli Monjardim, 2002 – Secretaria Municipal de Vitória, ES

Prefeito Municipal: Luiz Paulo Vellozo Lucas

Secretária de Cultura: Luciana Vellozo Santos

Subsecretária de Cultura: Joca Simonetti

Administradora da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim: Lígia Mª Mello Nagato

Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Condebaldes de Menezes Borges, Joca Simonetti, Elizete Terezinha Caser Rocha, Lígia Mª Mello Nagato e Lourdes Badke Ferreira

Editor: Adilson Vilaça

Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Cristina Xavier

Revisão: Djalma Vazzoler

Impressão: Gráfica Sodré

Texto: José Carlos Mattedi

Fotos: Raquel Lucena

Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2020

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