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Capela São João Batista construída no Século XVI, na Serra, pelos Jesuítas

A Construtora Andrade Gutierrez recupera a capela de São João Batista, construída no sec. XVI, na Serra, pelos Jesuítas, mas recebe em troca autorização para obras de terraplenagem, contra parecer da câmara do Patrimônio Histórico e Cultural do Conselho Estadual de Cultura.

Entre perdas e ganhos, salvou-se a capela de São João Batista de Carapina.

Há muito tempo homens erguem cidades - espaços de convivência com o outro, de exercício da difícil arte de viver em comunidade, entre distintos interesses, valores e projetos.

Quando chegaram ao Brasil, em específico ao Espírito Santo, os padres jesuítas, encontraram um ambiente físico e social em que a ausência de uma pré-concepção determinava o confuso, o difuso, o aleatório como regra.

O desejo da razão e da fé sustenta a coragem necessária à construção do novo mundo. Sua expressão: a austeridade, a modéstia e a sobriedade com que os padres empreenderam sua ação, ao mesmo tempo civilizatória e missionária. Conquistar a terra e seus homens custava vidas, exigia a privação do conforto, correr risco, muita obstinação, que só o desejo pela utopia sustentava. Porque vencer a escuridão do desconhecido, ensinar as palavras sagradas, percorrer distâncias, atravessar rios, semear a terra e mentes exigia disciplina e ética. Conquistar, então, significava, também, perder.

"A idéia básica era a criação de uma sociedade perfeita, que moldasse o homem perfeito em um espaço igualmente perfeito". (BICCA, Paulo. Arquitetura cisterciense: utopias e modelos urbanos. s.d.). Aqui, esse espaço foram as igrejas, residências e colégios, lugares sagrados e, ao mesmo tempo, protetores, dos quais eram excluídos a surpresa, a dúvida, o capricho e a irregularidade. Onde o ascetismo e a perfeição moral deviam se tornar realidade.

Em tempos de passagem de século, o desejo de conquista é atual. Presentifica-se em diferentes situações, envolvendo, agora, múltiplos atores; tornando complexo, de forma distinta, o domínio da natureza, do artefato, do homem.

O Espírito Santo parece ter um destino traçado: o de ser objeto de conquista por um outro que vem de fora, de longe, desconhecido.

Fixemos nosso olhar sobre um território: o planalto de Carapina. Como um vigilante solitário, uma capela. Construção de pedra e cal, pequeno ponto branco a destacar-se do verde e do azul: território ordenado distinto de um outro, indeterminado. No primeiro, a regularidade e a disciplina da arquitetura; no segundo, a desordem e o caos da natureza. Frente ao desconhecido, o saber; diante da escuridão, a luz.

Documento de um tempo remoto, de idéias e fazeres, o pequeno tempo se fez Monumento: em 1984, através de tombamento pelo Conselho Estadual de Cultura, a capela de São João Batista foi declarada patrimônio histórico e cultural do Espírito Santo.

Mas esse mesmo homem, também deseja o novo. E de tanto desejar o novo, esqueceu... Abandonado, o que outrora foi objeto de desejo, torna-se imagem de atraso, lentidão, decadência.

Em nome da modernidade, o novo se torna arcaico e passa a justificar a perda. O que outrora foi símbolo de conquista (da razão, do conhecimento, da luz) torna-se símbolo de perda (da ética, da moral, da ordem, da regularidade).

Em fins de 1994/início de 1995, a capela é uma ruína: restaram da ação demolidora do homem, a torre, agora sustentada pela natureza, e segmentos das paredes da nave. São tempo de desrazão e descrença!

A comunidade organizada da Serra, legitimamente representada, recentemente reabriu as portas do seu patrimônio. Em ato presenciado por autoridades, técnicos, instituições públicas, a Construtora Andrade Gutierrez entregou a igreja restaurada, apta a ser, de novo, espaço de encontro, da conquista.

Negociante — Para executar a obra objeto da recente inauguração, a construtora obteve junto ao Conselho Estadual de Cultura, instância responsável pela produção e conservação do conjunto patrimonial do Espírito Santo, a autorização para realizar obras de terraplenagem necessárias à instalação do Terminal Industrial Multimodal da Serra, TIMS. Tal autorização contrariou, na época, parecer da Câmara do Patrimônio Histórico e Cultural daquele conselho, na qual éramos conselheira como membro representante da Universidade Federal do Espírito Santo. Defendia-se a integridade da paisagem, especialmente a encosta, limite sul do Sítio Histórico.

Ao obter a autorização para corte e desmonte da encosta, a construtora Andrade Gutierrez resolve um dos impedimentos à ocupação da área: o aterro de grande extensão de terreno alagado, situado junto à Rodovia do Contorno, com significativa economia.

Então, o que publicamente é divulgado como um "patrocínio" (MENDES FILHO, Alvarito. "Resgatando traços do século XVI" — jornal A Gazeta, 4 de maio de 1996), deve ser entendido como o preço pago pela comunidade da Serra e do Espírito Santo para ter recuperado, fisicamente, seu patrimônio. Da mesma forma, ao invés de "aliado valioso", a Construtora Andrade Gutierrez deve ser vista como negociante, cuja lógica primeira é a do mercado.

Contrária a essa, vemos a lógica da comunidade da Serra, representada pela Associação de Moradores da Serra: a da cultura. Ainda que costurada com interesses políticos claros.

Relação ambígua — Para Lourência Riani, vereadora do PT da Serra, a comunidade já fez a sua parte ao conseguir a reconstrução do edifício. Agora é a vez das "autoridades competentes", governos estadual e municipal: "é preciso que elas se encarreguem de sua guarda e manutenção" diz, esquecida do papel fundamental que o primeiro teve, através do Conselho Estadual de Cultura, na viabilização do empreendimento.

O que se configura em torno da capela de São João Batista reflete a complexa, ambígua relação do público com o privado, ou vice-versa, no Brasil, desde tempos imemoriais.

Voltemos então aos padres jesuítas do século XVI.

Não é novidade para nenhum de nós os nexos existentes entre os interesses da Coroa, dos portugueses colonizadores e da igreja, que levavam, na ânsia de realizar os distintos projetos, à conciliação, subversão, negociação, domínio. Por exemplo, terras foram ocupadas, indígenas dizimados, escravizados ou catequizados.

Para os padres jesuítas, homens nomeados pelo sagrado e imbuídos da virtude, combater as tentações do profano significava referência: normas, regras, princípios. Os estabelecimentos jesuíticos foram erguidos em nome da construção de uma sociedade balizada pela moral e pela fé.

Desse grande empreendimento são testemunhos no Espírito Santo poucos conjuntos arquitetônicos, por isso mais significativos para a nossa história e cultura. Tornaram-se fonte de aprendizagem e enriquecimento. O custo foi alto, mas rica a conquista, a herança. Voltemos ao presente. Capital privado e comunidade querem mais. O primeiro porque entende que já acertou a conta. A segunda, porque não compreende o tamanho do preço pago pela restauração da capela de São João Batista. Ou então porque ambos acham que o negócio deve ser ampliado. Quanto?

Parece-nos urgente mudar a história do Espírito Santo, avançar o entendimento de que muitos têm pago um preço alto pelo que alguns tomam barato.

 

Fonte: Revista Você, nº 42 – Setembro de 1996
Autora: Renata de Almeida
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2015

 

Igrejas

Construção de Igrejas pelos Jesuítas no ES

Construção de Igrejas pelos Jesuítas no ES

Foi na igreja da Misericórdia que foram inumados os restos mortais de Vasco Fernandes Coutinho. É o que se deduz da seguinte nota (Mário Freire, Capitania do Espírito Santo, p. 82)

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