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Prefácio do livro de Seu Dedê - Por Maria Alayde Alcântara Salim

Edward Athayde DAlcântara

Pois um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que um acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para o que veio antes e depois.

Walter Benjamin

 

O lançamento deste livro torna público aquilo que os familiares e os amigos já sabem há muito tempo: a incansável dedicação de Edward Athayde D'Alcântara na pesquisa e na divulgação da História de Vila Velha. Esforços que foram em parte reconhecidos com o Título de Cidadão Vilavelhense, conferido pela Câmara Municipal em maio do ano de 1997. A importância histórica e cultural de Vila Velha contrasta com a incipiente produção historiográfica sobre a cidade. Sendo assim, podemos mensurar a grande contribuição do autor para a História local com a publicação desta obra.

Filho de família pobre, apenas ele e a irmã mais nova, minha mãe, conseguiram avançar além do ensino primário, graças aos esforços dos irmãos mais velhos. Vale lembrar que naquela época o ensino secundário no Brasil era privilégio de poucos, e esse fato representou uma grande conquista para a família. Finalizado o curso secundário, ingressou em um curso de formação de agrimensor organizado pelo estado no ano de 1949. O propósito do curso era formar mão de obra qualificada para atender à política de Ocupação das terras ao norte do Rio Doce, as Selvas do Rio Doce descritas na obra de Ceciliano Abel de Almeida.

No exercício de seu ofício de agrimensor percorreu todo o Espírito Santo, participando de importantes projetos que transformaram a ocupação do território estadual a partir da segunda metade do século XX. Fez medições e cadastrou terrenos do sul ao norte do Estado, foi encarregado das medições do Centro e Arrabaldes da Capital, demarcou lotes na Esplanada Capixaba e no Bairro Bento Ferreira. Mas a maior parte dessa trajetória profissional foi vivida na região norte do Espírito Santo, resultando numa rica experiência que agora compartilha conosco, mas que é tão vasta e profunda que certamente em um futuro breve poderá dar origem a um novo trabalho histórico.

Foi funcionário do Estado, da Prefeitura Municipal de Vila Velha e no ano de 1967 ingressou na Aracruz Celulose. Inicialmente contratado como agrimensor, passou para Chefe do Departamento de Topografia e Cartografia e por fim chegou a Assessor da Diretoria Florestal. No ano de 1992 se aposentou pela empresa e a partir de então pôde se dedicar com mais tempo ao trabalho de historiador, sua grande vocação natural.

Durante os anos de atividade profissional nas diversas regiões do Estado nunca ficou restrito apenas à dimensão técnica do seu trabalho. Ao contrário, sempre foi um observador sensível e detalhista de tudo que estava à sua volta: a natureza, a degradação ambiental, os costumes das diferentes populações, as especificidade de cada cultura, os saberes tradicionais dos caboclos, índios e quilombolas, a pobreza dessa gente... Essa característica confere a essa obra sua grande força.

Nesse momento recorro ao grande filósofo alemão Walter Benjamin, segundo o qual a sociedade moderna é marcada pela degradação da experiência coletiva: a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. Quando se pede, num grupo, que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências. Diante desse cenário o texto narrativo ganha força, pois o narrador retira da própria experiência ou da experiência relatada pelos outros, o que ele conta. E incorpora esses relatos à experiência de seus leitores e ouvintes. É esse movimento que a leitura do texto de Edward nos propicia.

Esse relato pessoal articula-se com um movimento mais amplo da história do Brasil e do nosso Estado. A crise econômica do mundo ocidental de 1929, que no Brasil provocou a falência de muitos pequenos produtores e comerciantes de café, como o meu avô, Arlindo Alcântara, obrigados a abandonar suas terras em busca de novas oportunidades em locais próximos dos centros urbanos em formação. Aqui observamos como esse momento foi percebido, sentido e marcado na memória de uma criança. Isso nos mostra que a História não pode ser reduzida aos fatos políticos e econômicos, mas que a História é vida, ou como escreveu o grande historiador francês Marc Bloch, a História é a ciência dos homens no tempo.

Percebemos também o impacto da industrialização e da urbanização no Espírito Santo a partir das décadas de 1950 e 1960, em especial na cidade de Vila Velha. Podemos reconstruir na nossa imaginação uma cidade que já não existe. Uma cidade cortada por rios e canais de águas limpas, lugares para as brincadeiras e pescarias das crianças, a Prainha, que, hoje poucos sabem, mas já foi uma praia linda e ótima para o banho, como relembra o autor: o filho maior podia frequentar com os colegas o banho no cais da Prainha e das Pedrinhas. Praia da Costa, só nas férias e aos domingos. Na volta resolvia pular da ponte do Rio da Costa para tirar o sal. As denominações antigas dos recantos da cidade: “Toca, Matadouro, Cruz do Campo, Cercadinho, Sítio Batalha, Maxambomba...“

Descreve com riqueza de detalhes as brincadeiras das crianças que com a ausência de recursos, criavam seus próprios brinquedos com muita imaginação. As festas e as manifestações culturais, como o Congo, no terreiro da casa de Chico do Matadouro, praticado por trabalhadores negros e os mulatos, entre eles o Seu Pedrosa (irmão do Chico), o Becário, o Nicácio, Venceslau (Cachimbinho), o Agapito, o Caboclo, o José Dum Dum, o tal Cobra D'Água, o Bate-Enxuga. Personagens retirados do esquecimento imposto pelo tempo.

Por fim, devo dizer da minha alegria em escrever o prefácio do livro de Edward D'Alcantara, pelo laço familiar e pelo laço de afeto meu tio será sempre um exemplo, uma referência na minha vida. Mas, além disso, exerceu um papel fundamental na minha formação como professora e historiadora. Quando ingressei no curso de Mestrado, estava indecisa sobre qual o caminho seguir, e ele logo me mostrou a importância de desenvolver uma pesquisa relacionada à História do Espírito Santo. Quase todo o material bibliográfico e iconográfico utilizado na elaboração da minha dissertação foi retirado do acervo particular do meu tio. Ao longo desses anos soube, com perspicácia e faro de historiador, recolher e conservar uma série variada de documentos que hoje integram seu acervo e que podem subsidiar inúmeras pesquisas sobre a História do Espírito Santo. Sua biblioteca possui livros raros e valiosos garimpados nos principais sebos do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife. No Doutorado, mais uma vez recorri aos seus livros: As Cartas Jesuíticas organizadas por Serafim Leite, Poesias de José de Anchieta, transcritas e traduzidas por Maria de Lurdes de Paula Martins, entre outros livros raros.

Mas a alegria com o lançamento desse livro não é só minha, escrevo aqui em nome de toda a família Alcântara. A leitura da narrativa das memórias de Edward subverte a lógica linear do tempo, rompe com as fronteiras que delimitam o passado e o presente; no instante da leitura do texto, no espaço da memória que vive, todos nos encontramos, reencontramos: nós, Arlindo, Maricota, Walter, Lila, Alaor, Helena...

 

Por: Maria Alayde Alcantara Salim

Professora da Universidade Federal do Espírito Santo

Ufes/Ceunes/Dech

 

Fonte: Memória do Menino... E de sua Vila Velha – Casa da Memória Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha-ES, 2014.
Autor: Edward Athayde D’ Alcântara
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2020

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