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Quando fui Prefeito - Por Adelpho Poli Monjardim

Av. Paulino Muller em Jucutuquara, ainda com o valão central

Em 22 de janeiro de 1937, ingressei na Prefeitura Municipal de Vitória como Tesoureiro, cargo de confiança e provimento efetivo, e quando Prefeito o Dr. Ceciliano Abel de Almeida, tive a oportunidade de ocupar várias Diretorias, exceto Engenharia e Procuradoria.

Em uma tarde de dezembro de 1955, fui procurado, na Tesouraria, pelos Vereadores Beraldo Madeira da Silva e Setembrino Pelissari que me levaram ao campo do Rio Branco F. C. onde se encontrava o Governador Dr. Francisco Lacerda de Aguiar, que, sem me ouvir, nomeara-me Prefeito de Vitória, cargo que eu recusara aceitar quando Governador Jones dos Santos Neves.

A Prefeitura de então era paupérrima, situação que me acompanhou até janeiro de 1963, término do meu mandato. A minha verba para obras era de vinte e cinco milhões, quantia que eu não consegui gastá-la toda em minhas obras, pois quando quebrava qualquer uma das outras verbas corriam para a minha, o que não sucede hoje.

Animava-me o desejo de servir à minha cidade sem intenção de dedicar-me à política, o sonho de muitos. Logo no meu primeiro dia de exercício surpreendeu-me um dilúvio na Jerônimo Monteiro quanto tive a oportunidade de observar uma das razões das enchentes da Capital: o lixo que jogavam nas ruas. Lá vinha um jornal, uma caixa de sapatos e outras coisas que entupiam os bueiros, facilitando a enchente.

O meu primeiro cuidado foi ordenar a limpeza de todos os bueiros, totalmente entupidos, Esta prática tornou-se rotina. Desde então as enchentes só sucediam com as chuvas torrenciais e as marés grandes, pois como é sabido Vitória está a apenas dois metros acima do mar. Mais poderoso, o mar invade a tubulação e impõe sua vontade.

Cuidei dotar Vitória de bons drenos e assim procedi todos os recantos da Cidade. Em Santa Lúcia, nas grandes chuvas as águas invadiam as casas, inundando-as avassaladoramente. Ordenei a construção de alta e espaçosa galeria, feita de pedra e cimento, que foi até a beira-mar e largo trecho da Av. Nossa Senhora da Penha, de extensão quilométrica. Todos os bairros mereceram a minha atenção. A galeria de águas pluviais do Morro da Piedade, a mais antiga, também mereceu os meus cuidados, Ela ia até a Rua Barão de Itapemirim onde esbarrava com a Av. Capixaba, quando se represavam as águas tornando-a inútil.

O crescimento de Vitória assim a condenava. Naquele tempo não existia a Av. Capixaba e muito menos a Esplanada. O mar era o limite da Barão de Itapemirim. Ordenei o prolongamento da galeria até o mar. Hoje que Vitória é rica as novas galerias devem ser feitas com pedras e cimento. Os tubulões de cimento, com o tempo e o trânsito pesado, se deslocam, com o que se inutilizam.

Quanto as escadarias, ordenei a construção de muitas, mas só falarei das principais: bela e suntuosa escadaria liga a Ladeira São Bento à Rua Alziro Viana, a Acir Guimarães, na Rua Graciano Neves a Ilmade Deus, na Rua Barão de Monjardim, a Aristóteles Santos, na Rua Afonso Braz, ligando-a Rua Santa Clara, a escadaria de acesso à Praça da Catedral. Na Fonte Grande foram feitas três escadarias em forma de leque. Para atender aos moradores da Cota 45, foi instalada possante bomba para levar a água até lá.

O Suá, até então, era bairro esquecido. Há mais de meio século nada ali fora feito. Durante a minha administração todas as ruas foram calçadas. A Avenida César Hilal, construída no meu tempo, fora a sua redenção. Hoje Suá é bairro nobre e progressista, um dos melhores da Capital.

Várias avenidas foram abertas em Vitória, tais como: a César Hilal, Princesa Isabel, Alexandre Buaiz, na Ilha do Príncipe. A Avenida Maruípe, então descalça, foi calçada a paralelepípedos até o Quartel da Polícia, quando terminou o meu mandato. O valão da Av. Paulino Muller foi todo capeado, grande benefício para o bairro. Era propósito meu levá-lo a Fradinhos. A iluminação moderna, o asfalto, o calçamento a cimento armado são melhoramentos do meu tempo. O arranha-céu é também coisa minha, e eu explico: se há no mundo lugar onde o arranha-céu é imposição do meio esse lugar é Vitória, imprensada entre o mar e a montanha. Se Vitória tem a população de hoje, deve ao arranha-céu, sinal de importância e riqueza. Que seria Copacabana sem os arranha-céus?

A Praia Comprida calcei-a com solo-cimento, que infelizmente não recebeu os cuidados que merecia, o mesmo sucedendo com o jardim da Praça Costa Pereira, a mais iluminada do Brasil. Fui Prefeito do povo há trinta anos passados mas sinto que não fui esquecido.

Dotei Vitória de muitas e importantes obras. Perdi a conta das ruas que calcei e de algumas que abri, porém, de todas as obras a que julgo mais importante foi ter equiparado os vencimentos dos aposentados aos dos funcionários, ativos, no mesmo cargo. Isto foi em 1956. A Prefeitura de Vitória foi a pioneira no Brasil nesta iniciativa.

De há muito afastado da vida pública, é justo ter esquecido alguns dos trabalhos que executei. Quando Prefeito nomeado fui estreitamente assediado pelos que desejavam o meu lugar. De bom grado o cederia, infenso que era à política, jamais engoli sapo seco, no dizer do vulgo. Por duas vezes fui ao Palácio entregar o cargo ao Governador. Finalmente eu mesmo me exonerei, dando motivo a uma manifestação pública na Praça Oito.

Por capricho e por demonstrar que eu, a criatura, voltara-se contra o criador, no caso o Governador. Jamais vi eleição tão movimentada. Um dos candidatos, éramos cinco, inscreveu-se com todos os títulos, temendo qualquer engano: o nome com todas as letras, assim como o apelido. Aproveitei-me para ironizar:

 

Quincas com K ou com que,

Gritam aqui gritam acolá,

E é só o que se vê,

Candidata-se com K,

Para eleger-se com Q?

 

E foi o que se viu. Gastei apenas sete mil cruzeiros para os meus títulos. E coisa inédita, não perdi em nenhuma urna.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Nº 44, Ano 1994
Autor: Adhelpo Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2012 

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