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Raul Farol - Por Sérgio Figueira Sarkis

Porto de Vitória da época do Raul Farol.

Como toda cidade que se preza, Vitória possuía figuras marcantes, para não dizer folclóricas. Elas faziam deliciar os assuntos diários, trocados na Praça Oito pelos nativos da Capital.

Um deles era bonachão, boa conversa, sempre otimista: Raul — conhecido como Raul Farol, exatamente por gostar de contar vantagens, como um faroleiro. Vivia de bicos, expedientes, alguns até podendo ser considerados fora da Lei.

Ora, era intermediário de agiotas, os famosos "juristas", agenciando empréstimos às pessoas necessitadas; ora, fornecedor de navios aqui aportados, já que, à época, não existiam os ship suppliers, hoje devidamente regularizados; ora...

Entretanto, dentre todas as inúmeras atividades exercidas pelo Raul, a que mais desenvolvia era a de negociante de pedras preciosas, como águas-marinhas, turmalinas, ametistas etc. Elas vinham da rica região de Teófilo Otoni, localizada no Nordeste do Estado de Minas Gerais.

De posse dos lotes devidamente embalados em algodão, armazenados em sacos de veludo azul, visitava os navios aqui aportados para negociar com a tripulação sua mercadoria. Certa feita, ao fazer contato com um capitão de origem estrangeira, ouviu do mesmo o desejo de adquirir brilhantes.

Safo como só ele, Farol disse-lhe não ter aquela mercadoria naquele momento, pois tratava-se de material de alto valor. Porém, propôs-se voltar à bordo com o solicitado. Pediu ao capitão informações sobre a data e hora da saída do navio, justificando necessitar de algum tempo para conseguir o material.

O capitão informou que zarparia dentro de 24 horas, impreterivelmente. Ou seja: 10 horas da manhã do dia seguinte. Imediatamente, saiu e foi direto à sua casa, de onde retirou os pés de cristal branco que serviam de base para o piano.

Procurou um lapidador conhecido, pedindo-lhe para dividir e transformar aqueles vidros em pedras pequenas, com tamanho de aproximadamente meio quilate, alertando-o que o serviço teria que ser feito até às seis da manhã do dia seguinte.

Embora relutante pela responsabilidade do encargo, o profissional aceitou. Quinze minutos antes da hora combinada, lá estava Raul para receber a encomenda. O lapidador, desculpando-se por não ter conseguido obter muitas pedras, pois é comum em serviços de lapidação o material quebrar em pedaços muito pequenos, inaproveitáveis, entregou uma dúzia de tamanhos variados.

Acertado o pagamento, Farol voltou para casa e colocou as "joias" no congelador. Esperou dar 9:30 horas, quando as retirou, colocando-as dentro de um recipiente de metal cheio de gelo. E correu para o porto. Quando faltavam 10 minutos para a hora da saída da embarcação, transferiu os "diamantes" para um saco de veludo e ingressou no navio, à procura do comandante.

O capitão já estava impaciente, pois iria partir sem levar os brilhantes encomendados. Avistando o Raul no passadiço, correu para ele, querendo saber da encomenda. Prontamente, ali mesmo, Farol abriu o saco e mostrou-as ao capitão. Marinheiro de profissão, pouco entendedor de pedras preciosas, só tinha em mente uma coisa: para ser brilhante, tinha que ser frio, gelado.

Colocou as pedras, uma por uma, em contato com a própria face, constatando que, embora a temperatura ambiente fosse alta, todas estavam frias, quase geladas. Exultante, acertou o pagamento com Farol.

E pediu para ele se retirar imediatamente, pois já estava atrasado para iniciar as manobras de desatracação. Raul, é claro, célere, pulou fora dali, mas acompanhou as operações do cais. Tudo encerrado, acenou em despedida para o capitão.

Dias depois, em alto-mar, com destino ao porto final na Europa, o comandante, em reunião com sua tripulação, retira do cofre do navio o saco com as pedras compradas e as despeja na mesa, fazendo apologia de sua esperteza na aquisição. Um dos membros questiona o capitão sobre a autenticidade das pedras.

Este, dando uma de expert, diz que brilhante se conhece pela temperatura, e pega uma das pedras, colocando-a na face. Apesar dela não estar quente, parece ter deixado uma queimadura de todo o tamanho na sua cara. Como nunca mais aquele capitão voltou a Vitória, conta-se que, após esse episódio, amargurado, ele largou tudo e foi morar na China, curtindo sua desilusão.

E que, certa noite, já bastante embriagado, sentado a uma mesa de um mísero bar num dos cantões mais longínquos daquele país asiático, é interpelado por um ancião. Este, ouvindo suas estórias de viagem pelo Brasil, pergunta:

— Capiton! Conhece Vitólia?

— Vitória? Sim.

— Conhece Lalul?

— Raul? Que Raul?

— Lalul Falol. Ele me enlolou!

 

 

Fonte: No tempo do Hidrolitol – 2014
Autor: Sérgio Figueira Sarkis
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

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