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Retaguarda Comercial – Por George Bomfim

O Diário - Rua Sete, Vitória

Fui trabalhar nO DIÁRIO em 1970, para organizar o departamento comercial, criando e comercializando anúncios. Na área de publicidade, o que existia em Vitória até então era principalmente venda de espaço para matéria paga. Até porque fazer anúncio com arte, com fotografia, era uma áfrica. Dependia de fotolito, clichê... Idade da pedra mesmo.

Pra mim não foi tão difícil porque eu estava vindo da Manchete, onde o sistema era o mesmo. Apesar de estarem chegando técnicas novas de impressão, policromia, a experiência de linotipagem na Manchete tinha me dado uma base muito boa.

A gente tinha um espírito comercial muito forte, e queria fazer um grande jornal de classificados dentro dO DIÁRIO. Criamos um classificado com um nome curioso, O Jacarão, que deu um bom resultado. O símbolo era um imenso jacaré.

Começamos a inovar na comercialização porque o comum, até então, era o cliente fazer com o jornal um anúncio só, apenas uma publicação. E eu criei na época o formato diferente, que comprometia o cliente com o jornal, quer dizer, um contrato. E o cliente passava a anunciar por três meses, seis meses.

Isso, de certa forma, inovou a comercialização de anúncios no Espírito Santo, pois nem A Gazeta nem A Tribuna tinham essa formatação. Foi dessa forma que a gente conseguiu engordar a carteira comercial do jornal, embora fosse uma dificuldade receber do cliente.

Se tivesse levado mais a sério sua comercialização e sua responsabilidade junto aos clientes, aquele jornal ainda estaria por aí até hoje, disputando, se não o primeiro, pelo menos o segundo lugar no Estado. O DIÁRIO tinha muito mais garra do que proposta, muito mais vontade de ser jornal do que propriamente era. Deixava muitas dúvidas se era um jornal de esquerda, um jornal de centro... Era uma coisa indefinida. Ele tinha urna linha editorial meio em cima do muro. Acho que passou pela ditadura sem muitos problemas exatamente por isso. Mas era um jornal que se mantinha, enquanto à volta dele outros tantos sucumbiam.

Ao mesmo tempo em que a gente tinha vontade de mandar tudo pra aquele lugar, dava vontade de continuar, pela empolgação que havia. Eu ainda guardo a carteirinha funcional dO DIÁRIO, uma carteirinha de plástico... Acho que dei uma contribuição na vida do jornal. Posso não ter sido a melhor peça, mas tenho certeza de que fui uma das bases de sustentação.

Certas situações a gente guarda pra sempre na memória. A primeira vez em que vi uma fila de cobradores pra receber títulos vencidos dO DIÁRIO, fiquei apavorado. Cheguei a ver gente braba, disposta a matar ou morrer pra receber. Mas Fernando Jakes, o Jakaré, era uma pessoa extremamente hábil. A pessoa entrava na sala dele brava e saía de lá abraçada com ele, feliz da vida. Quer dizer: não recebia, e ainda saía feliz na esperança de um dia receber. Achei aquilo interessante, cheguei mesmo até a fazer umas charges, uns desenhos, reproduzindo aquela situação, que até hoje é uma incógnita pra mim...

Isso também ocorria comigo. Eu queria receber do Edgard dos Anjos o do Jakaré, e tinha sempre uma conversa... Mas, na verdade, a gente não guardava raiva deles. Passou a ficar uma coisa engraçada. Quando eu via gente no corredor dizendo que ia receber, eu não sabia se ria ou ficava com pena, coitado mais um que vai ser enrolado pelo Jakaré...

Eu fiquei nO DIÁRIO uns dois ou três anos, e, depois que saí, passava bem longe pra não me trair e ficar tentado a voltar. Aí resolvi encarar minha vida e voltar para a criação, que é o meu negócio, onde acabei ocupando o meu espaço.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: George Bonfim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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