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Revolução Cultural – Por Rubinho Gomes

A Escolinha

Paulo Torre e eu nos conhecemos no movimento cultural que começava a agitar a cidade em 1966. Isso aconteceu através do grupo Geração, de teatro de arena, que ensaiava no auditório do Colégio Brasileiro, então pertencente a meu pai.

Naquele ano, Paulo havia conseguido uma vaga de revisor nO DIÁRIO, passando três meses depois a trabalhar na redação. Eu tinha 15 anos, e fui ocupar a vaga deixada por ele na revisão, iniciando dessa forma meu curso de jornalismo feito nO DIÁRIO. A pós-graduação eu diria que foi um estágio que o Edgard dos Anjos me arrumou no Jornal do Brasil.

Nesse estágio eu consegui duas coisas importantes. Uma foi conhecer o Fernando Gabeira, que era editor de pauta antes de cair na clandestinidade e deixar temporariamente o jornalismo. A outra foi conseguir colocar uma chamada na primeira página do jornal. Era a história de uma mulher que diziam ter se curado de raiva. Mas eu consegui o depoimento de uma enfermeira e de um médico e, segundo eles, a mulher tinha sido internada com sintomas de raiva mas o que ela sentia mesmo era fome aguda. No dia seguinte, a redação inteira comentava: o foca colocou uma chamada na primeira página. Nada acariciava mais meu ego do que aquilo.

Minha jornada de estagiário começava a uma da tarde, mas eu chegava as sete da manhã e ficava até as onze da noite, fuçando tudo para aprender o que aparecesse pela frente.

Quando voltei, já havia se iniciado a escolinha dO DIÁRIO e eu assumi como secretário de redação. A grande vantagem dO DIÁRIO é que era um jornal onde havia liberdade, que era uma coisa muito escassa naquela época. E essa liberdade foi proporcionada pela ousadia de um empresário chamado Edgard dos Anjos.

NO DIÁRIO encontrei Rogério Medeiros, Marien Calixte... Edgard contratou também Plínio Marchini para ser copidesque e professor dessa escolinha. Na época, Plínio - que já trabalhara nO DIÁRIO - estava afastado do jornalismo, trabalhando na Secretaria Estadual da Fazenda.

A escolinha funcionava da seguinte maneira: eram publicados anúncios na primeira página do jornal ("Você quer ser jornalista?") e fazia-se uma seleção.

Característicos dessa época são os cadernos especiais, que Marien Calixte fazia muito bem. O primeiro com a característica de "caderno dois" de que eu tenho notícia foi nO DIÁRIO e saía aos domingos. Nas mãos de Edgard dos Anjos, O DIÁRIO passou a ter também o Caderno da Semana e o Caderno Imobiliário, que eu editei durante algum tempo.

Minha dupla atividade de jornalista e estudante provocou um episódio interessante. (Eu era líder secundarista, tendo sido presidente da União dos Estudantes-Secundaristas livre. Fizemos congressos clandestinos, participamos de congressos fora do Estado, e eu fui preso algumas vezes por causa da minha atividade estudantil, principalmente depois das passeatas). Numa dessas vezes, Edgard dos Anjos conseguiu que a Polícia Federal me levasse à oficina num sábado pela manhã para ficar algumas horas lá terminando um caderno especial que teria de sair no domingo. Eu já tinha iniciado o trabalho na quinta-feira e fui detido na sexta. Esse caderno representava um faturamento com que o Edgard contava muito. Desci na porta do jornal trazido por uma Kombi da Polícia Federal, fiz o trabalho e depois fui novamente embarcado, sob a escolta de dois agentes.

O Caderno Imobiliário abrigou coisas incríveis. Numa edição, eles venderam uma reportagem de casamento da filha do Manoel Ferreira, a Tânia Ferreira, com o Everaldo Pellissari. A matéria estava programada para sair na capa do Caderno da Semana, só que, por uma dificuldade técnica, somente poderia sair no Caderno Imobiliário. Eles colocaram na capa desse caderno a justificativa: "Quem casa quer casa".

Certa vez editamos o Caderno da Semana só com reportagens sobre a revolta da juventude. O título do caderno era "Juventude Hoje", e a primeira página tinha uma matéria sobre o Cohn-Bendit, líder da Revolução de Maio de 68 na França. O título da matéria era "Cohn-Bendit quer mudar tudo". Tinha também uma reportagem sobre a Tropicália, que estava no auge naquela época. Esse caderno foi apreendido por Cacau Monjardim, e até pouco tempo ele existia como parte de fundo do papel de parede da casa dele. A casa dele foi demolida para dar lugar a um prédio e com isso desapareceu o último vestígio daquela edição.

Tivemos edições que foram censuradas, recolhidas por causa de determinadas matérias e uma vez até mesmo por causa de algumas letras de música publicadas num caderno sobre um festival. No Jornaleco do Milson, a censura implicou com uma história em que ele dizia que "seu Justino (um personagem que ele criou) está triste porque não tem motivos pra estar alegre".

O Marien inovou o Caderno Dois. Começou a colocar matérias compostas em corpo 18 na primeira página, onde ficavam justamente a crônica de Carmélia, a de Ana Maria Tristão e a própria coluna dele. Ele inovou muito na utilização do espaço, e eu aprendi isso com ele. Passei a paginar como ele paginava o Caderno Dois e o Caderno da Semana, que durou uns dois anos e meio.

O DIÁRIO, A Tribuna e A Gazeta eram jornais de tiragem pequena com oito páginas e que no domingo saíam com mais dois cadernos de oito cada. A Gazeta era conservadora e O DIÁRIO, mais avançado, procurando dar a notícia e não escondê-la, como era muito comum na época.

Cláudio Bueno Rocha deu uma contribuição muito importante para a imprensa, principalmente no que se refere à melhoria do texto. Ele foi um dos meus mestres, com certeza, junto com outros que eu citei. Também aprendemos muito com Adam Emil e Marílio Cabral Perpétuo, que influenciaram todos os profissionais que estavam começando a carreira. Naquela época, quando não havia curso de comunicação, todos nós tivemos essa necessidade de aprender jornalismo na redação. E mesmo hoje, o pessoal que sai da faculdade precisa de pelo menos um ano de redação. A prática do jornalismo é que forma o verdadeiro profissional.

NO DIÁRIO eu comecei como revisor, e saí como secretário de redação para ser também secretário de redação dA Tribuna, com o Plínio Marchini. Foi quando o João Santos Filho comprou A Tribuna, demitiu o Djalma Juarez e a Maria Nilce e contratou o Plínio para ser o diretor. Vinícius Seixas já estava lá como chefe de redação. Posteriormente trabalhamos novamente nO DIÁRIO mas isso foi uma fase curta, pois logo me desliguei do jornalismo para fazer o Festival de Verão de Guarapari em fevereiro de 1971. Mesmo nessa época me mantive em contato com o pessoal do jornal, pois aquele festival foi muito ligado à imprensa local. Quando houve dificuldades financeiras, foram utilizadas Kombis dO DIÁRIO e dA Tribuna para transportar artistas do aeroporto para Guarapari, por exemplo.

Antes de voltar aO DIÁRIO, fui para o Rio, onde trabalhei na Última Hora, no Correio da Manhã e fui editor de um jornal chamado Presença, que reuniu Torquato Neto, Nelsinho Motta, Antônio Henrique Nietzsche, Euclides Marinho. Torquato Neto fazia a parte iluminada, e eu fazia a parte executiva nessa época. Presença durou dois números, fechando suas portas depois que a redação foi invadida por Nelson Digne - um detetive metido a durão famoso na época da ditadura, que freqüentava o programa do Flávio Cavalcanti e combatia a "subversão".

Em 72, voltei a Vitória. O Caderno Dois tinha sido arrendado por uma empresa chamada Promove, do César Nogueira, que mais tarde fundou o Jornal de Serviço e morreu há pouco tempo. O César Nogueira me contratou como editor, mas esta não foi minha última ligação com O DIÁRIO. A última veio já no final, em Jardim da Penha, com o Magica Calixte, que me convidou e eu escrevi uma coluna de comentários sobre fatos do cotidiano da cidade.

Fatos e tipos curiosos é o que não faltam na história dO DIÁRIO, como o Américo Rosa, contínuo. Era um negro desdentado que cantava pelas ruas coisas fabulosas como "Os Peixinhos do Mar", que Afonso Abreu cantou no show do Paulo Torre. Ele fazia o pior café mas todo mundo achava ótimo, pois ninguém reparava o gosto do café.

Tinha também o clicherista Júlio Huapaya Sosa, que - como se soube anos depois - era procurado pela Interpol por ter falsificado dinheiro peruano. Havia sempre dificuldade financeira no jornalismo, que era uma profissão de heroísmo. Se hoje ainda é, imagine naquela época. Eu me lembro que minha mãe reclamava muito por minhas camisas terem sempre uma marca de tinta preta na altura da barriga - de tanto me debruçar nas mesas de paginação para ver as páginas. Até hoje eu reviso os textos ao reverso, um hábito adquirido naquela época.

A coisa mais importante que O DIÁRIO promoveu na imprensa capixaba foi a liberdade para se criar, para se produzir. Tanto que mesmo os jovens jornalistas podiam ter suas próprias colunas, com crítica de cinema (o Paulo Torre), música popular (eu), e televisão (Tinoco dos Anjos).

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor:  Rubinho Gomes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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