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Riacho – Por Monsenhor Eurípedes Pedrinha, em 1891

Foto antiga da Vila de Santa Cruz - Fonte: PMA

Da Regência Augusta ou Barra do Rio Doce estende-se para o sul uma praia de 7 a 8 léguas até á confluência dos rios Piraquemirim e Piraqueacu que, reunindo suas águas, banham à direita a pitoresca cidade de Santa Cruz.

É praia encantadora e poética. Majestosa e expansiva com a imensidade do oceano, que a corteja, bordando-a de nevoentas espumas, e beijando-a submisso, qual potentado ante a nobreza de discreta humildade; delicadíssima na alvura de suas praias semeadas de várias e numerosas conchinhas e espirais búzios; deliciosa em suas frescas manhãs — toda rubicunda, acenando caprichosa ao rei dos astros, erguendo-se pomposo do fresco leito netunino, também misteriosamente saudosa em noites de luar: a lua a pratear o imenso lago sereno e transformando as areias em pérolas e brilhantes, o céu bizarro, os arbustos ramalhando ao sopro da brisa noturna, o mar banzeiro a gemer lúgubre e compassado — dão ao coração tais apertões místicos e trazem à mente uma salsada de pensamentos, que provocam as lágrimas!

Em duas partes iguais é dividida essa formosa praia de um rio, que, por pequeno em largura e profundidade, tem o humilde nome de Riacho.

Nasce o Riacho na frondosa margem direita do Rio Doce, de onde se afasta umas boas léguas e como mimoso regato, vem formar com o nome de rio do Quartel 5 ou 6 léguas abaixo de sua nascente, a grande lagoa dos índios, conhecida também por Quartel do Aguiar, por ter havido no passado um destacamento que mantinha a disciplina entre os índios, e do qual foi comandante um certo Aguiar.

Tem a lagoa duas léguas de comprido e em sua maior amplitude 400 metros de largura; é muito funda. Suas margens frondentes e alterosas povoam-se de lavradores pobres e apáticos, descendentes dos índios Tupis.

A lagoa, qual pequenino mar no meio do deserto, é tristonha e temerosa: nela habitaram musas, musas porém lacrimosas, que mal inspirarão nênias sentidas.

Produzindo o regato tão portentoso parto, prossegue já como riacho por um leito de três léguas de comprido e forma a lagoa de Baixo, havendo já formado cerca de uma légua acima, uma outra que, pela posição entre ambos é conhecida por lagoa do Meio, graciosa, porém desabitada.

A lagoa de Baixo é menor que a primeira e duplamente maior que a segunda. São suas margens povoadas por pequenos lavradores, laboriosos e inteligentes e oferece aspecto pitoresco e clima sadio.

Deixando aí o Riacho a humildade de riacho e continuando como modesto e interessante rio, banha, cerca de 5 léguas abaixo, a vila do Riacho e, mais rico de água, corre ainda 2 léguas, recebe o seu confluente Comboio, e entra no oceano, com certa majestade de rio que tem algum renome e algumas glórias.

Da lagoa de Baixo até a sua foz oferece o Riacho variegadas paisagens. Na extensão de uma légua vêm-se à margem direita matas virentes em solo arenoso; à esquerda, areais, brejos e charnecas semeadas de árvores rasteiras, juncos e palmeiras; à beira, porém, do rio levanta-se mais a vegetação, cujas grimpas se abraçam de tal jeito que, formando graciosa alameda, impedem os raios solares de penetrarem as águas, e deixam pendentes ao rio interessantes parasitas e agrestes floritas várias e delicadas. Quando a vista já se vai cansando de se apascentar esse jardim suspenso, onde a luz penetra trêmula e medrosa, depara-se-lhe um vasto campo de amplíssimo horizonte!

É um verdadeiro regalo para o viajante mal acompanhado em sua apertada canoa: a formosíssima campina bem estendida e verdejante oferece-lhe aqui um juncal, ali um charco, lá um lago, lá um brejo, parecendo antes um plácido mar, onde estão flutuando uns navios ou se balançando preguiçosos cetáceos; o céu parece sorrir com mais encantos e os brandos zéfiros, guardas tutelares das campinas, afagam-no vessos e lisonjeiros.

Uma légua antes da vila já se topam a pascer muitos luzidios e animais e umas ilhas e ilhotas areentas entretêm lavradores pobres no cultivo da mandioca, milho e frutas. O campo então menos dilatado apresenta à direita e à esquerda umas matas virgens, cujo solo arenoso se presta quase que exclusivamente ao cultivo da mandioca, legumes e excelente para o saboroso abacaxi.

Banhando o Riacho a vila de seu nome, ergue algum tanto suas margens já apauladas, já saibrosas, povoadas de lavradores, que se ocupam, principalmente no fabrico da cachaça, açúcar, farinha e mandioca, que é ali fabricada com muito esmero; e pouco antes de se perder no oceano banha um terreno de formosíssimo aspecto denominado Barra do Riacho.

Voltemos agora especialmente à Vila do Riacho, que por canto títulos me é cara.

Deve ela sua origem ao índios: porque, além de sabermos a origem em geral de nossas aldeias e vilas, assim explicar-se-á melhor razão ou sem razão de se achar situada em tal sítio, à beira do rio cercada de pântanos afastada uma légua do mar e duas da Barra do Riacho, que além de tudo é uma alterosa planície de magnífico aspecto ao longo do imenso oceano.

O certo é que em 1864 não era já tão pequenino o número de habitantes, pois foi elevada à freguesia filial de Santa Cruz, e presumo que logo depois foi constituída freguesia eclesiástica.

No ano passado foi elevada à vila e tende a progredir; e, sem embargo de se assentar assim em lugar apaúlado, oferece um sítio desabafado e clima salutífero.

O terreno da freguesia é regularmente plano, apresentando, porém, ao poente alguns montes e serras. Sua lavoura relativamente ao número de habitantes é importante, concorrendo muito para isto o solo, que vantajosamente se presta para a lavoura de mandioca, cana, cereais, e nos sertões do interior, para o café. Entretém ativo comércio com a capital, para onde exporta em lanchas e batéis a produção mais importante. O povo é pobre, morigerado e trabalhador; os descendentes dos índios são em geral indolentes e desinteressados.

A vila, situada embora em sítio alagadiço, apresenta, todavia vário e agradável aspecto. A estas frondosas matas vestem terreno arenoso, regado pelo Comboio, e estendendo-se até o oceano, onde coroam com a verdura de suas folhas a alvíssima praia, cujo tapete é o azulado Atlântico; ao meio-dia, encontram-se areais, campos e campinas; ao setentrião, imensas campinas povoadas de logos e charcos; ao oeste, na extensão de meia légua, um branco e graciosa areal, enfeitado de delicados arbustos, de onde se estende para o interior um vasto terreno maçapê, de grande uberdade.

A vila em tempo de seca assemelha-se a uma fazenda de dilatado campo, onde se vê infinito gado grosso e miúdo tranqüilamente pascendo, e em tempo de cheia — interessante ilhota nadando em larga torrente.

Aí está o Riacho pequenino, pobre, humilde, e com pobreza de engenho descrito ou, melhor, lembrado neste papel. A província parece não o conhece: não quer compreender o governo provincial que proteger e levantar esses lugarejos é proteger e levantar a si próprio, enobrecer e exaltar toda a província e enriquecer o Brasil.

O Riacho, na moralidade edificante das famílias, na inocência e simplicidade de seu povo, no sossego e tranqüilidade de sua vida, é a realidade do que sonham os poetas, cantando e decantando as doçuras sorridentes da vida campestre. É um verdadeiro templo de inocências e alegrias, tendo por dócil o límpido céu azulado, por ornato as mais luxuriantes e várias galas da natureza, por tapete as singelas flores dos campos, frescamente aljofradas, por coro o cicio das auras beijando as flores e o acorde suavíssimo de canoros pássaros, por Deus um ente cujo coração é todo bondade, suavidade e doçura, recebendo benigno as preces e orações de seus filhos, orações e preces que são em verdade a singeleza, generosidade e pureza de corações, que ao menos poucos amam a terra, porque pouco a ambicionam.

Caríssimo Riacho! quantas suaves recordações de ti, mas quantas vezes essas minhas saudades me têm contraído o peito. Que dor e que prazer me gera na alma este "gosto amargo de infelizes!..." A saudade é satisfação, mas também é dor; sim! que ela é filha do amor e da ausência...

O coração do homem, se alguma vez sorri, olhando para o passado, muitas vezes pranteia olhando para o presente, e, olhando para o futuro, se suspende...

Caríssimo Riacho! Em ti tenho meu berço, folguei em minha meninice, recreei-me em minha adolescência; aí recebi dos lábios maternais os primeiros e gratíssimos ensinamentos. Mãe! Riso celeste que afaga, perene consolação de toda a vida!...

Que doces, que eloqüentes, que eficazes são sempre os risos de uma mãe, seus afetos e afagos; tão doces que deliciam, tão eloqüentes que transportam, tão eficazes que hão de atuar no filho por todo o sempre — que se lhe gravam no coração e na alma.

O coração de mãe é o símbolo perfeito do coração de Deus: vive de amar e para amar, com o amor se sustenta e sustenta e, se deliciando, delicia!

Assim como melhor se avaliam as delícias da prosperidade, quando o vendaval do infortúnio as destrói; assim conhece melhor o filho a suavidade e grandeza do amor de sua mãe, quando o escabroso monte da ausência se ergue entre ele e ela.

 

Pati do Alferes, setembro de 1891. (Publicado no Brasil)

Nota: O Monsenhor Pedrinha (1864-1919), autor do texto acima publicado, foi poeta, ensaísta, orador sacro e parlamentar por mais de uma legislatura. De família tradicional de desbravadores, nascido às margens do Rio Doce, foi um dos maiores intelectuais de sua época. Patrono da cadeira 18 da AEL.)

(Rio de Janeiro: Tip. de O Apóstolo, 1896. CAPÍTULO XIII.)

 

Fonte: Revista da Academia Espírito-Santense de Letras – Comemorativo ao 86º aniversário da AEL, ano 2007
Autor: Monsenhor Eurípedes Pedrinha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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