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Rio da Costa

O rio da Costa tinha ânsia de chegar ao mar. Desprezando os beirais dos lajedos do morro do Batalha, seguia em frente, no sentido leste, numa linha reta ligeiramente sinuosa, sem perder de vista seu eixo, até atingir o local conhecido como Flechal. A seguir, abruptamente, como se fora um joelho, dobrava a esquerda e seguia em sentido oeste, encontrando na sua margem direito uma pedreira. Na base desta, aqui e acolá, viam-se pedregulhos mergulhados a meia água e secos, enquanto as cheias das marés não os cobriam. Se fosse localizar, hoje, essa pedreira, estaria como está, no final da rua João Pereira de Mattos, completamente descaracterizada pela exploração que sofreu no correr dos anos para fornecimento de material de construção às obras.

Seguindo no seu percurso rumo oeste, novamente chegava às fraldas do morro do Batalha, agora pelo lado leste, onde ia de encontro a um conjunto de pedras e pedregulhos entre os quais avançava, enlaçando e submergindo muitos destes, conforme o regime das marés. Contido nas suas margens, em curva moderada, ainda beirando o sopé desse morro, tomava o sentido norte e alcançava a ponte Nova, na estrada para a praia da Costa, hoje avenida Champagnat. No meio desse trecho localizava-se um pequeno abrigo natural utilizado para atracar canoas. Quem dele se servia era um antigo morador dali, o seu Reparato, cujas embarcações ficavam amarradas por correntes com cadeados em galhos fortes do mangue que se debruçavam sobre o rio.

Qualquer descuido com a segurança de uma dessas embarcações oferecia oportunidade para diversão da meninada moradora das cercanias, que fazia grande algazarra. Mas nem sempre a sorte estava do lado da moçada, que não conseguia colocar no mesmo lugar e a tempo o objeto da sua diversão, e quando isso acontecia o jeito era amargar a cara feia do seu Reparato, que já esperava a embarcação com as mãos nas cadeiras, ameaçando fazer chegar ao conhecimento dos nossos pais a travessura. Mas não era isso que acontecia, pois tudo não passava da ameaça. Ele conhecia a todos nós e lá no seu íntimo perdoava a arte praticada, que não raras vezes era partilhada também por meninas – um avanço para a época.

Voltando ao rio da Costa, este caminhava em direção à sua foz sob a ponte Nova. Mais abaixo, pelo lado oeste, abeirava os fundos dos quintais fronteiriços à rua Luíza Grinalda até alcançar a área do Matadouro, localidade, e do matadouro propriamente dito, instalado sobre uma pedra que se estendia até o rio. Nessa delimitação o rio já tinha deixado um dos peraus logo abaixo da ponte - onde a meninada se divertia, mormente com a maré cheia, tomando banho e dando saltos acrobáticos de cima do seu parapeito -, e começava a apresentar pontos mais rasos.

Em seu leito nas proximidades do matadouro, que era mais arenoso do que lamacento, impressionava a quantidade de berbigões existentes, que afloravam à terra submersa. Eram tantos que, ao se pisar no fundo, tinha-se a impressão de se estar andando sobre pedrinhas arredondadas, acomodadas umas sobre as outras. Para apanhá-los não havia dificuldade: numa raspada de mão, um punhado deles era catado. Quando não apresentavam o tamanho desejado eram devolvidos à água por saber-se que logo mais abaixo, em menor quantidade, seriam encontrados outros bem mais graúdos.

Nesse mesmo ponto do rio, nas margens voltadas para Vila Velha, viam-se abrigos de canoas e caíques. Os mais frágeis – os caíques – prestavam-se para a pesca e para a coleta de crustáceos e moluscos em lugares inacessíveis a pé ou a vau, oferecendo também condições mais cômodas de trabalho. Quanto às canoas, também destinadas à pesca, eram mais apropriadas para tarrafar, suportando maior carga, além de transportarem as madeiras de mangue, que eram extraídas das margens lamacentas do rio e empregadas como esteios e caibros em casas rústicas, e como varas em cercas de quintais. Quando secas e volumosas, essas mesmas madeiras eram usadas como lenha, combustível de então em fogões residenciais e fornos de padaria.

Fonte: ECOS DE VILA VELHA
Autor: José Anchieta de Setúbal

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