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Rio Doce - A descoberta

Rio Doce, visto do espaço - O Vale do Rio Doce, CVRD, 2002

Denso mistério cobre o Rio Doce nos albores da nossa colonização. Quanto à nascente, nenhuma surpresa, afinal, foram necessários dois séculos até que os bandeirantes paulistas rasgassem os sertões dos Goitacases e vissem o ouro refulgir no fundo de suas bateias. Mas e sua foz? Como não perceber o desembocar no Atlântico de um rio de tal volume e dimensão? Na avaliação do príncipe Neuwied, o rio devia ter "pouco antes de se reunir ao mar, na estação das chuvas, o dobro da largura do Reno, nos locais em que ele mais se estende".

Então, como acreditar que não o tenham visto os navegadores que, a mando de D. Manoel, partiram de Portugal em maio de 1501 com três caravelas, para reconhecer o valor e tensão das novas terras? De agosto a janeiro, eles percorreram a costa atlântica do Rio Grande do Norte até São Paulo e, ainda que não se saiba ao certo quem comandava aquela esquadra - Gonçalo Coelho, André Gonçalves, Nuno Manoel ou Gaspar Lemos -, não há dúvida que o florentino Américo Vespúcio estava na tripulação.

Em suas anotações de viagem, o experiente navegador italiano registrou a descoberta de inúmeros acidentes geográficos da costa, sempre batizados com o nome do santo do dia: Cabo Santo Agostinho, em 28 de agosto; Rio de São Miguel, no dia 29 de setembro; Rio de São Jerônimo, 30 de setembro; Rio de São Francisco, em 4 de outubro; Rio das Virgens, 21 de outubro; Baía de Todos os Santos, dia 1° de novembro; Rio Santa Luzia, 13 de dezembro. Sobre o Rio Doce... nenhum registro. E assim continuaria ignorado pelas frotas que se seguiram e das quais muito pouco se sabe.

Entretanto, mesmo sem documentação escrita que ajude a esclarecer o mistério do Rio Doce, a pesquisa de mapas antigos permite algumas conclusões. Os primeiros registros do nome Rio Doce aparecem no mapa de Jorge Reinel, desenhado em 1540, e em um mapa anônimo feito por volta de 1549. Já a partir de 1550, porém, a maioria das cartas da costa brasileira faz referência ao Rio Doce. Dos 32 mapas examinados, desenhados entre 1550 e 1600, somente em quatro não se pode identificar o nome Doce.

Outra hipótese curiosa é levantada pelo historiador Varnhagen. Possivelmente baseado na relação das latitudes para o Rio Santa Luzia - 19 graus e 20 minutos - indicadas no livro Esmeraldo de Situ orbis, do grande navegador Duarte Pacheco Pereira (1506), Varnhagem cogita a possibilidade de esse ser o aio Doce, cuja latitude real é de 19 graus e 37 minutos. Nesse caso, ele teria sido avistado pela expedição de 1501 no dia 13 de dezembro e, em homenagem à santa do dia, chamado de Santa Luzia. O mais estranho é que o nome Santa Luzia figurou em quase todos os primeiros mapas da costa brasileira próximo aos Abrolhos. Como rio, até 1510, ou como baía, até 1530. A. partir de meados do século XVI, entretanto, o Rio Santa Luzia desaparece das cartografias. E a hipótese de Varnhagen poderia ser admissível, não fosse o fato de que, na própria obra por ele tomada corno referência, todos os acidentes abaixo da São Francisco apresentam uma latitude com um afastamento de aproximadamente dois graus em relação à medida real. Esse erro sistemático nos obriga a considerar que o Santa Luzia seria um rio localizado mais ao norte, como por exemplo, o Rio Caravelas, como admitem o professor português Duarte Leite, o almirante Max Guedes, a professora Isa Adonias e outros estudiosos.

Especulação por especulação, o Rio - ou Baía - Santa Luzia poderia ser também a Baía de Vitória, outra que chegou a ser designada como rio e que ainda guarda em sua entrada um morro chamado de Santa Luzia. (Farol de Santa Luzia).

Se a Rio Doce levou 40 anos para começar a aparecer nos mapas com esse nome e permaneceu no resto do século XVI como uma simples referência na costa, sem que alguém arriscasse um mínimo traçado seu, também nos primeiros documentos ele se manteve no anonimato, ausente até mesmo nas cartas dos jesuítas que viveram tão perto dele. Embora os índios do interior, os aimorés, o chamassem de Vatu, os do litoral sequer lhe deram um nome tupi, como fizeram com outros rios da costa capixaba como o Cricaré, Piraquê-açu, Jucu e outros.

Pero de Magalhães Gandavo, em seu Tratado da Terra do Brasil (1568), ao falar da Capitania do Spirito Santo, descreve “hum rio mui grande onde os navios entrão, no qual se achão mais peixes bois que noutro nenhum outro rio da costa.” Mas Gandavo certamente referia-se à Baía de Vitória, por muito tempo chamada de Rio do Spiritu Santo. Sobre o Rio Doce, ele silencia.

Para alguns Historiadores, a origem do nome Rio Doce pode ser atribuída ao fato de se encontrar água doce a seis milhas da costa. É possível. Segundo alguns registros, um extenso cordão de areia cobre a boca do rio dando-lhe um sentido norte-sul, “que impede o embate frontal das águas do rio com o mar e a maré não se faz sentir próximo a foz”. Essa é também a razão pela qual, à distância, não é fácil reconhecer a desembocadura do rio. Em 1883, Luiz D’ Arlincourt dizia: “... não obstante o fluxo do mar elle corre sempre para fora, conservando-se a água doce até nos esganadouros, mesmo nas marés grandes”.

Embora a presença de água doce por uma grande extensão mar adentro não seja privilégio do Rio Doce, esta é uma justificativa plausível para seu nome.

Outra explicação para o desconhecimento do Rio Doce é o fato de sua foz ser traiçoeira, com canais mutáveis pelo assoreamento, o que impede a navegação até mesmo de barcos de pequeno calado. Nas proximidades do mar, as margens baixas estão sujeitas a inundações e a umidade é muito grande. Nem mesmo os índios quiseram fixar-se ali, muito menos os portugueses. Mas, tirando os inconvenientes de sua foz, o Rio Doce é largo e profundo e irriga uma das regiões mais férteis do litoral brasileiro. E, apesar de todo o mistério, nos séculos seguintes à colonização, o rio desempenharia um papel ao mesmo tempo trágico e alvissareiro.

Já em 1573, uma das primeiras referências ao rio foi exatamente o naufrágio de uma embarcação com cinco padres e dois irmãos da Companhia de Jesus, em 28 de abril, quando viajavam para o norte. Tendo perdido tudo, os náufragos retornaram à Vila de Vitória e, segundo o relato de um deles, Inácio Tolosa, foi durante essa longa permanência que os jesuítas deram início à construção de sua imponente igreja "de mais de cem palmos de comprido, fora a capela, e quarenta e cinco de largo", como informa em carta citada por Serafim Leite (HCIB, I, 222). No século XVI, depois de 1550, nos mapas mais antigos, o que ficou do Rio Doce foi um pequeno risco, de poucos milímetros, se tanto. Pouco, muito pouco, para um rio de quase 900 km de extensão, chamado o "Nilo Brasiliense".

 

Fonte: O Vale do Rio Doce, CVRD, 2002

Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2016

Concepção, pesquisa e coordenação/Conaption, research and coorelination

Romeu do Nascimento Teixeira

Texto/text

Jota. Dangelo

Pesquisa bibliográfica e iconográfica./ Bibliographical and iconographic research

Henrique Lobo

Edgar. N. Teixeira

Miriam Prado T. de Oliveira

Elias Botelho Coelho Dos Santos

Produção, projeto gráfico e diagramação/Proarzection, graphic desegn and layout

Ampersand Comunicação Gráfica

Reproduções forográficas/ Photogrertphic reproductions

Zela Guimarães

Aquarelas/Watercolors

Nona Salmen

Copydesk/Copydesk

Marilia Pessoa

Revisão/Revised by

Tereza da Rocha

Versão em Inglês/transiated to English by

Patrick James David Gardner Finn

Anne Marie Zemgulis

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