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Rio Doce - Os índios

Índio Botocudo - Foto: Walter Garbe, 1909

Quando a riqueza ultrapassa os limites do imaginável, não há razão que contenha a ambição humana, moral que refreie o instinto, ética que controle o comportamento, lei que ordene o caos.

Foi assim que, no começo do século XVIII, o ouro começou a ditar suas próprias regras no sertão bravio das Minas Gerais. Não só de outras capitanias vinha a horda destemperada e sôfrega que procurava o caminho das minas com pás e picaretas, bateias, alforjes e, por via das dúvidas, um mosquete a tiracolo. Também do Reino despencavam aventureiros e comerciantes, desocupados e religiosos atendendo ao chamado irresistível da cobiça e do enriquecimento fácil.

Para a Coroa portuguesa, dois problemas imediatos precisavam ser resolvidos: afastar a cobiça dos estrangeiros e controlar o transporte do ouro, evitando o contrabando. A Capitania do Espírito Santo era a mais próxima das minas auríferas, rota ideal para o contrabando e a sonegação de impostos. Por outro lado, era também a costa menos povoada ou fortificada do litoral atlântico, sujeita ao eventual ataque de piratas ou forças estrangeiras. Sem demora, a Metrópole tratou de ampliar e aparelhar as fortificações da costa capixaba para repelir as naus inimigas, ao mesmo tempo em que transformava em dogma administrativo a recomendação do Conselho Ultramarinho: "Quanto mais caminhos houver, mais descaminhos haverá." Por isso, tomou medidas drásticas para garantir uma extensa região vazia e inacessível, formando um escudo geográfico protetor entre as minas e a costa.

Já em 1709 e 1711, decretos reais proibiam o embarque de portugueses para as capitanias do Brasil. Inutilmente. De muitas maneiras as ordens da Coroa eram burladas. Em 1720, depois de longas considerações, nova lei passou a determinar que "nenhuma pessoa de qualquer qualidade ou estado que seja possa passar às referidas capitanias, se não as que forem despachadas com governo, postos, cargos ou ofícios de justiça e fazenda, as quais não levarão mais criados".

Mesmo assim, em 1732, Antônio Rodrigues da Costa, um dos mais ilustres membros do Conselho Ultramarinho, advertia que, caso não fosse detida, a deserção despovoaria o Reino. No Brasil proibiu-se que os capixabas subissem o Rio Doce à procura de novas minas de ouro e também que os mineiros circulassem na região ou descessem até o mar pelo rio ou qualquer outro caminho. Xavier da Veiga, em sua Efemérides, relaciona nada menos que seis decretos régios entre 1725 e 1785 proibindo a abertura de caminhos em Minas Gerais. Tais resoluções culminaram com a ordem expedida pelo Real Erário do Governo de Minas, em 1773, proibindo que qualquer pessoa, sob pretexto algum, passasse pelo Rio Doce. Os "sertões do leste" passaram a ser mencionados nos documentos oficiais pela denominação de "áreas proibidas".

A estratégia portuguesa de isolar toda a região oeste do Espírito Santo, transformando-a num vazio impenetrável, limitou definitivamente o espaço territorial da Província do Espírito Santo. Confinada à faixa litorânea como simples "barreira protetora", a região ficou afastada do desenho de distribuição de terras das capitanias hereditárias, o que abriu espaço para a Província de Minas Gerais. A "área proibida" tornou-se um refúgio seguro para as últimas tribos bravias do leste brasileiro, particularmente os botocudos, criando-se ali um surpreendente quisto selvagem bem próximo à capital da colônia.

A presença dos aguerridos, ferozes e, naquela época, numerosos remanescentes indígenas acabou por reforçar o escudo geográfico estabelecido pela Coroa. Sem saber, as tribos anedias que se fixaram no médio Rio Doce e em seus afluentes desempenharam o papel de guardiãs do fisco português contra o contrabando do ouro, já que ocupavam a rota mais curta e mais lógica entre as minas e o mar. A região do médio e baixo Rio Doce pagou um preço alto por isso: 150 anos de abandono, alheia a qualquer desenvolvimento ou progresso.

Muitas tribos de índios habitaram a bacia do Rio Doce. No litoral viviam os índios derivados da grande família tupi, abundantes na costa do Espírito Santo, à exceção da foz do Rio Doce, onde rara-mente se fixavam. Esses índios foram colonizados pelos jesuítas que, a duras penas e longo prazo, conseguiram aliviar a constante luta travada contra os portugueses no início da capitania. Foram em grande parte catequizados, mas a situação degradou-se muito com a expulsão daqueles padres do País.

Os índios do interior da bacia descendiam principalmente dos cuietés ou aimorés, originários da família dos tapuias, e se desdobravam em um grande número de tribos. No alto Rio Doce viviam os coroados, puris, coropós, goitacases, manachós, malalises, caposes, panarnés e outros. No médio Rio Doce, os pancas, inkut-crac, crenac, nac-na-nuc. O norte e noroeste da bacia eram habitados pelos pupuris, macuanis, camarachós, malalis, tocoiós. Os aimorés botocudos eram nômades e circulavam por diversas regiões da bacia.

O embate entre reinóis e indígenas marcou a colonização e, na verdade, só terminou com a sujeição ou o extermínio dos silvícolas. O apresamento de índios para o trabalho escravo ocorreu em todas as capitanias e só arrefeceu com os diversos decretos da Coroa proibindo a escravização indígena, que nem sempre foram respeitados. A Igreja desempenhou um papel importante no aldeamento dos nativos, mas nas regiões próximas às minerações, como não era permitida a instalação de ordens religiosas, os militares foram incumbidos da tarefa. E foram bem menos eficientes que os padres, preocupando-se mais com a disciplina, o amedrontamento e o próprio extermínio do que com a pacificação. Seja como for, os militares — sediados nos poucos quartéis e presídios que em geral ficavam entre as áreas de mineração e a selva — conseguiram com razoável eficácia manter os selvagens pacificados ou afastados, sem grandes prejuízos para as lavras.

Isso não impediu, entretanto, que os botocudos, guerreiros por natureza e instinto, errantes e pouco afeitos à agricultura e à fixação em aldeias, dominassem o médio Rio Doce e o nordeste da bacia, mantendo-se em permanente luta contra os brancos. Por quase três séculos eles foram o flagelo dos fazendeiros, desencadeando uma guerra de emboscadas e pilhagem até contra os quartéis, como ocorreu diversas vezes no Espírito Santo.

Usando um ornato incrustado nas orelhas e nos lábios — o batoque ou botoque, donde o nome botocudo —, esses índios eram altos e robustos, hábeis com o arco e, ao contrário de outras nações, rejeitavam os cocares sofisticados e outros atavios. De pele moreno-avermelhada, andavam nus e arrancavam do corpo os pêlos, inclusive cílios e sobrancelhas. Segundo Ferdinand Denis, eles "eram considerados bárbaros pelos próprios bárbaros". Apanhados vivos, "deixam-se morrer; sem querer comer". Com tal ousadia e ferocidade, e principalmente porque eram antropófagos, os aimorés botocudos sofreram uma odiosa guerra de extermínio por parte dos colonizadores. Todos os meios eram válidos para destruí-los, inclusive as armas bacteriológicas. Conta Denis que, sabendo da fraqueza da raça americana para com a varíola, os portugueses presenteavam os botocudos com roupas e quinquilharias impregnadas do vírus da doença mortal.

Quando as minas de ouro já estavam exauridas e já não havia mais sentido em conservar área tão extensa sem ocupação, a presença dos botocudos nas bacias do médio e baixo Rio Doce tornou-se incômoda e nefasta. Na Carta Régia de 13 de maio de 1808, os portugueses mostraram que podiam ser tão selvagens quanto o mais selvagem dos aimorés: "Deveis considerar principiada contra os índios antropóphagos uma guerra offensiva que continuareis sempre em todos os annos nas estações seccas e que não terá fim." A Carta Régia reabria a escravização do silvícola, ordenava a formação de um corpo de soldados pedestres "para serem empregados no serviço contra os bárbaros" e premiava os comandantes pela matança. Apesar do clamor que se levantou no Brasil, e fora dele, contra essa declaração de guerra aos botocudos, em dezembro do mesmo ano expediu-se outro decreto que escravizava por 12 anos os índios que se apresentassem livremente para aldeamento. Pode-se imaginar os resultados perversos obtidos com tais medidas.

Para contrabalançar essa violência, houve também esforços para se obter meios mais civilizados de aldeamento, como os praticados pelo francês Tomás Guido Malière, estabelecido nas margens do Rio Doce desde 1824 e a quem os índios chamavam carinhosamente de "o Grande Capitão".

A sinistra Carta Régia de 1808 só foi revogada em 1831, quando a maioria dos índios estava dominada ou exterminada. Ainda assim, vez ou outra, grupos rebeldes surgiam das profundezas das matas e promoviam ataques como o de 1882, quando um grupo de 76 botocudos atacou o aldeamento de Mutum travando combate com índios aldeados, do qual resultaram cinco mortos.

Esses funestos acontecimentos retardaram a fixação do colonizador na região do Rio Doce, tanto que Linhares, o primeiro município a se implantar na calha do rio, só foi elevado a essa categoria em 1833. No médio Rio Doce, no século XIX, não havia sede municipal a menos de 100 km do rio. Com tais dificuldades para se fazer levantamentos topográficos, não é surpreendente que os mapas do Rio Doce ainda apresentassem traçados curiosos e equivocados, registro gráfico dessa época de turbulências e vicissitudes.

 

Fonte: O Vale do Rio Doce, CVRD, 2002

Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2016

Concepção, pesquisa e coordenação/Conaption, research and coorelination

Romeu do Nascimento Teixeira

Texto/text

Jota. Dangelo

Pesquisa bibliográfica e iconográfica./ Bibliographical and iconographic research

Henrique Lobo

Edgar. N. Teixeira

Miriam Prado T. de Oliveira

Elias Botelho Coelho Dos Santos

Produção, projeto gráfico e diagramação/Proarzection, graphic desegn and layout

Ampersand Comunicação Gráfica

Reproduções forográficas/ Photogrertphic reproductions

Zela Guimarães

Aquarelas/Watercolors

Nona Salmen

Copydesk/Copydesk

Marilia Pessoa

Revisão/Revised by

Tereza da Rocha

Versão em Inglês/transiated to English by

Patrick James David Gardner Finn

Anne Marie Zemgulis

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