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Sagrado e profano nas festas do Brasil Colonial

Rugendas documentou a festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos - Tela do artista

Festas cívicas e populares: duas temáticas que passaram a fazer parte de um interesse maior dos historiadores: quer voltados para as encenações do Poder, quer para ser manifestações coletivas da massa anônima.

O escritor Michel Vovelle definiu a festa como um maravilhoso campo de observação para o historiador: "Momento de verdade em que um grupo ou uma coletividade projeta simbolicamente sua representação de mundo, e até filtra metaforicamente todas as suas tensões".

Como grandiosa festividade, o carnaval vem sendo objeto de estudo nas suas várias manifestações. Autores buscam raízes na mitologia egípcia, nos períodos de colheita e plantio, quando os mortais se reuniam em nome de Isis, protetora da natureza, para festejar a vida. Encontram semelhanças no ritual carnavalesco com as antigas festas e as celebrações de Isis e Osíris. Chamam a atenção para aspectos similares: o culto ao corpo, a exaltação dos sentidos, os apelos sensuais, a celebração do prazer.

O entrudo português é também lembrado pelos pesquisadores e Câmara Cascudo se refere a essa festividade dizendo que "todas as lembranças clássicas de saturnálias, februárias, festas orgiásticas assírias, medo-persas, babilônicas, reviviam o carnaval"... No entanto, o carnaval, em si mesmo, não constitui o real objeto de nosso interesse, cujo sentido está voltado para festas que não mantinham com ele nenhuma relação.

Durante todo o século XVIII se observou no Brasil a junção do sagrado e do profano não só nas celebrações de caráter religioso, mas também nas festas públicas organizadas pelas autoridade civis.

A descoberta do ouro e dos diamantes, durante todo o ciclo do ouro, ensejou nas Minas Gerais festividades cuja riqueza e opulência constam dos anais de arquivos e bibliotecas. Como é o caso do livro, na Biblioteca Nacional de Lisboa, Triunfo Eucarístico, de Simão Ferreira Machado. As descrições de festividades religiosas e profanas são, de fato, de muito interesse. Ele fala de festas realizadas por ocasião da trasladação do Santíssimo Sacramento da igreja de Nossa Senhora do Rosário para a de Nossa Senhora do Pilar, em Vila Rica, no ano de 1734. O anúncio da festa foi feito por um "bando". Muitas danças e máscaras se apresentavam durante o dia, enquanto à noite se ouvia música sacra.

Esses espetáculos sucessivos duraram semanas até 24 de maio, dia em que efetivamente se fez a trasladação do Santíssimo. O lado profano da festa foi ainda enriquecido com figuras a cavalo representando os quatro ventos. Os negros mascarados faziam soar as charamelas. A figura alegórica do bairro de Ouro Preto, onde estava situada a nova igreja, aparecia em grande painel. Tudo isso precedia o desfile religioso comandado pelas várias irmandades.

No Brasil colonial o calendário religioso oferecia inúmeras oportunidades para festejos públicos e, além desses dias santos, cada irmandade festejava o seu patrono com festas mais ou menos suntuosas, de acordo com a situação dos seus cofres. Por exemplo, o patrono do Rio de Janeiro era São Sebastião (ainda é) e a três noites da festa já a cidade era toda iluminada com grande júbilo da população.

O número de festejos anuais variava sobretudo com as festas cívicas que não obedeciam a um calendário regular. Tudo ficava na dependência dos batismos e casamentos dos membros da família real, dos eventos políticos e demais comemorações da nobreza.

Em seis de abril de 1727, o soberano português escrevia ao vice-rei do Brasil: ..."haverem-se ajustado os preliminares dos recíprocos casamentos do Príncipe meu sobre todos muito amado e prezado Filho com a Sereníssima Infante de Espanha D. Maria Anna Victoria e o do Príncipe das Asturias com a Infante D. Maria, minha muito amada e prezada filha... Me pareceo dizer-vos que sendo preciso fazerem-se grandes despesas nas ocasiões desses matrimonios... será necessario que os Povos desse Estado concorrão com um considerável Donativo e assim sou servido, que logo que receberes esta carta manifesteis aos moradores desse Governo e Calmaras delle, a obrigação que lhes ocorre para se esforçarem a contribuir com hum bom donativo para elle se supprir a maior parte das ditas despesas e dote, igualando este donativo o bom animo, que sempre mostrarão e a vontade e o amor que lhes tenho..."

A Câmara da Cidade do Salvador "se obrigou por si e pelas mais Villas e Capitanias à satisfação de três milhões de cruzados) pagos em vinte annos, assim: àquela cidade coube a quantia de 2.200.000 cruzados: à cidade de Sergipe D'Elrei com as villas da sua jurisdição 96.000$000, pagos por 4:800$ ao anno. A Villa da Cachoeira 64:000$000, pagos por 3:200$ rs. A Villa de Maragogipe 28 contos pagos por 1:400$ rs. A Vila de Iagoarippe 12.000$000, pagos por 600$ rs. A Villa de S. Francisco de Sergipe do Conde, 24.000$000 pagos por 1.200$ rs...."

E assim vai, enumerando-se as vilas e suas respectivas doações até que se assinala:

"A Capitania do Espírito Santo contribuiu com 4.000$000 pagos por 200$ rs.... (Almeida, Inventário).

A cota de cada unidade política dá idéia da força de suas possibilidades materiais.

O sagrado e o profano ainda hoje perduram em nossos festejos populares.

A documentação fornece-nos o retrato de uma sociedade que rompia a rotina do trabalho preferencialmente para reverenciar o símbolos da Igreja Católica. O Espírito Santo reverenciava seus santos com belas procissões que encantavam todos pelo brilho dos trajes e variedade dos componentes. Esta situação, em todo o século XVIII, não diferia das outras cidades brasileiras da Colônia.

O Poder Público ia, pouco a pouco, instituindo momentos rituais cujo objetivo não era mais do religioso, mas do político. Mas mesmo nas festas políticas, a igreja continuava a ocupar posição de destaque.

As festividades políticas tinham o objetivo maior de reforçar valores, ao mesmo tempo que atendiam o gosto da população por espetáculos que quebrassem a rotina.

Havia a parte séria da festa: eram explicadas as razões da comemoração. O poder político tentava firmar-se, buscando adesão espontânea dos súditos.

Já a parte lúdica, que mais atraía a população, era composta de espetáculos públicos, queima de fogos de artifício, mascarados, bailados populares.

Dessa maneira, o poder político não rompia tradições, apenas as direcionava em seu favor.

Aniversários, casamentos e nascimentos reais, o restabelecimento da saúde do soberano, as entradas régias, eram sempre motivo de manifestações de regozijo popular e cortesão.

Na Capitania do Espírito Santo, no século XVIII, os seus moradores participavam de festividades religiosas: festas dos compromissos de irmandades religiosas e confrarias. Estas festividades ensejavam ritos profanos, como congadas, leilões, fandangos, batuques e cantorias. As procissões de São Benedito, de ambas as irmandades, caramurus e peroás, eram famosas. As negras vestiam-se com pompa e brilho, belas na pele cor de ébano.

Meninos seguravam-lhes as caudas do manto, enquanto ao lado vinham os dignitários em trajes oficiais.

"Meu São Benedito

É um santo dos pretos

Que fala na boca

E responde nos peitos

 

Que santo é aquele

Que vem no andor

É São Benedito

É nosso Senhor". (1)

 

NOTAS

(1) Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - Poel, Francisco Van Der. O Rosário dos Homens Pretos.

 

Fonte: Jornal A Gazeta, A Saga do Espírito Santo – Das Caravelas ao século XXI – 19/08/1999
Autora deste texto: Neida Lúcia Moraes
Pesquisa e texto: Neida Lúcia Moraes
Edição e revisão: José Irmo Goring
Projeto Gráfico: Edson Maltez Heringer
Diagramação: Sebastião Vargas
Supervisão de arte: Ivan Alves
Ilustrações: Genildo Ronchi
Digitação: Joana D’Arc Cruz    
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2016

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