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Saíram assim - Por Fernando Achiamé

UFES, 1970 - Foto: Antônio Carlos Sessa Netto

Leitor, conheço-o muito pouco para saber se você move com segura indiferença pelo interior de uma universidade ou se traumas antigos ou escolhas ponderadas fazem que o universo de discentes e docente surja como um pesadelo em seu espírito sensível e sensato. Ítalo Calvino

 

Nem se vivesse mil anos, ou muito mais, daria conta de expressar o que sinto em relação à Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Não no que se refere à instituição propriamente dita, mas às pessoas que nela existiram ou ainda se fazem presentes no seu cotidiano - funcionários, alunos, professores. Que sentimentos são esses, e de tão grande dimensão, que mal cabem no meu acanhado peito? Sei lá. O certo é que sou mais velho do que a Ufes. Nasci em 1950 e ela quatro anos depois, ainda estadual. Mas para que utilizar o tempo como uma das medidas do amor se, no fundo, ele prescinde de todas? Então, o negócio é amar e deixar de lado o que não contribui para o exercido da arte amorosa.

Sei o que muitos sabem e vão escrever - a Ufes foi fundada graças à clarividência de Jones dos Santos Neves, que iniciou os poucos cursos superiores existente, em Vitoria e criou outros. A Universidade do Espírito Santo – UES nasceu do imenso esforços de pessoas interessadas em modernizar o estado capixaba. Quase nada conheço sobre a história da UFES, mas não devo omitir um fato que talvez seja também referido por outros – o último ato assinado pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, e a instâncias do deputado federal Dirceu Cardoso, foi sancionar a lei que federalizou a entidade, em janeiro de 1961. E veio a primeira reitoria instalada na garagem da casa do professor Jair Etienne Dessaune à Rua do Rosário; gabinete depois transferido para uma dependência do auditório do colégio do Carmo. Conheci a reitoria ainda no Edíficio Castelo Branco, ao lado da Receita Federal, na Avenida Beira-Mar. E me recordo do local onde mais tarde foi implantado o Campus de Goiabeiras – um pasto precariamente cercado, com algum gado e montículos de estrume, que contemplava ao passar pela estrada em frente para ir ao aeroporto, a Manguinhos ou a Nova Almeida. E sei que o campus original seria em Maruípe – abrangeria uma área que ia do Hospital das Clínicas até a antiga Escola de Engenharia, atual Casa do Cidadão da PMV, passando pelo Horto Municipal. E tenho notícia também que ocupações desordenadas de partes do vasto terreno impediram que esse projeto se concretizasse.

Lembranças se constituem nas verdadeiras companhias dos velhos. Estudando em casa, prestei vestibular para o curso de História ainda no prédio da Fafi, centro de Vitória. E tirei o primeiro lugar. Para surpresa de muitos futuros colegas que, nas aulas do cursinho que seguiam, acompanhavam a erudição e os conhecimentos do Constantino Andrikopoulos, comerciante na cidade, e tinham como certo que a colocação seria dele. Devido às ironias e tramoias da vida, no entanto, fui o último a me formar daquele grupo de estudantes, como isso se deu?

Eram jovens quase todos os integrantes da turma que cursaria História de março de 1971 a dezembro de 1973. Seria a derradeira a ter as matérias no regime seriado, substituído pelo de créditos semestrais nas turmas subsequentes. Fomos os primeiros universitários de História no Campus de Goiabeiras. Em um Cemuni (sigla para Centro Modular Universitário, projeto do arquiteto Marcelo Vivacqua) que hoje integra o Centro de Artes nos acomodaram. Sem exagero, vi caranguejos tentando subir os degraus externos para entrarem na sala de aula. Coitados dos crustáceos, que perdiam parte de seu habitat. A revista “ES Agora”, que teve início naquela época, publicou na capa do seu primeiro número uma foto de universitários no pátio interno do pavilhão, em que aparecem os colegas Constantino Andrikopoulos, Maria Inês Ribeiro Pupa, Eloísa Helena Chiabai e eu.

No meio do curso nos transferiram para o andar superior do recém-construído IC-3 (abreviatura de Ilha do Cercado, terreno incorporado ao campus). Os alunos me elegeram representante do corpo discente no Departamento de História. Num dos cômodos, hoje ocupado por sala de professor, reorganizamos os livros e documentos do Centro Acadêmico de História que existia na Fafi. A chapa eleita era por mim presidida, tendo Gabriel Bittencourt na vice-presidência, Walter Araújo Pereira na secretaria e Miriam Leitão na tesouraria. Algum tempo depois, ela foi presa e torturada; solta, não prosseguiu no curso de História e se formou em jornalismo.

(Parênteses. Cursei os dois primeiros anos do ensino médio em Brasília e terminei o clássico de letras no Rio de Janeiro. No início de 1968, fiz vestibular para o curso de Ciências Sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais - IFCS da UFRJ, então sediado à Rua Marquês de Olinda, em Botafogo, num prédio não mais existente. Em meados de 1969, soube que estava excluído do curso por ter sido enquadrado no decreto-lei 477, que expulsou ou aposentou das universidades públicas muitos funcionários, alunos e professores considerados subversivos ou inconvenientes ao regime militar. Somente participara de algumas reuniões e assembleias de estudantes do IFCS e, quando retiraram a porta do diretório estudantil, ajudei a transportá-la para outro local. Com 19 anos, e sem pertencer a qualquer partido político ou integrar organização extremista, devia ser perigoso subversivo aos olhos de algum dedo-duro... No final daquele ano, voltei para Vitória.)

Em 1973, recebi um comunicado que estava suspenso do curso de História e que devia me dirigir à Assessoria Especial de Segurança e Informações - AESI da Ufes, instalada no prédio que abrigara a Fafi. Lá fui recebido por Alberto Monteiro, titular da AESI, que me informou o seguinte: por ter sido expulso da UFRJ em 1969 e, como previa o famigerado decreto-lei 477, não cumprira o interstício de 3 anos para fazer novo vestibular em uma universidade federal, também estava impedido de prosseguir os estudos na Ufes. E ainda me pediu um relatório sobre o que acontecera comigo na UFRJ. Claro que não fiz relatório algum.

Chocado com a situação, constituí um advogado, Aroldo Limonge. Orientado por ele, estive na reitoria da UFRJ no Fundão e obtive uma declaração de que não fora comunicado pessoalmente da expulsão daquela universidade em 1969. Marcamos uma audiência em Brasília com o senador Eurico Rezende, conhecido da minha família e líder da Arena no Senado, além de possuir fácil trânsito no MEC por já ser dono de faculdade no Distrito Federal. O advogado preparou um requerimento ao ministro da Educação Jarbas Passarinho e um contraparente meu coronel amigo do ministro, interferiu a meu favor. Passado algum tempo, a reitoria da Ufes recebeu um documento do ministro determinando minha reintegração à universidade; soube depois que o papel veio sem a devida assinatura e teve que ser devolvido por malote para cumprir essa formalidade. Após esse contraparente me comunicar por telefonema interurbano que estava de volta à universidade, chorei de soluçar. Um desabafo pelas injustiças sofridas em duas ocasiões. E, em 1974, pude colar grau como licenciado de História pela Ufes, numa cerimônia simples no Teatro Carlos Gomes, quando ganhei do professor Nelson Abel de Almeida, com dedicatória, uma separata de artigo dele, que guardo com carinho.

Isso não é um currículo resumido; serve somente para demonstrar a perversidade das ditaduras. Fiz questão de registrar essa passagem para que as pessoas lutem sempre pela democracia e impeçam que um regime ditatorial volte a existir em nosso país. Ditaduras se fundamentam no medo - do vizinho, do parente, do amigo, do guarda da esquina. Viram como "é inevitavelmente monótono" falar de si mesmo? Rubem Braga tem razão.

Na Ufes passei por bons e maus pedaços, como todo mundo que por lá andou. Mas as situações de angústia se esvaneceram com o tempo e as boas experiências predominaram e se fixaram no meu espírito. Do curso de História, lembro-me saudoso de todos os professores, até mesmo daqueles que não eram muito bons. E também dos colegas. E dos servidores. Embarco na velha desculpa - deixo de citar nomes para não correr o risco de omitir alguém e cometer injustiças. Recordo quase tudo o que vivi na Ufes. Das minhas idas e vindas na universidade, cito apenas algumas passagens.

Ainda estudante do curso de História, fui contratado (se não me engano, em 1971) para estagiar no Arquivo Público Estadual, em fase de reorganização e subordinado à recém-criada Secretaria de Estado da Administração e dos Recursos Humanos - Sear. Esse estágio determinou minha vida profissional - me encantei para sempre com a arquivologia e soube que iria haver um concurso público para fiscal de rendas do estado. Estudei as matérias do programa, passei nas provas, fui nomeado em fevereiro de 1973, e trabalhei no período de estágio probatório em Colatina, onde nasci duas vezes - física e profissionalmente. A legislação à época permitia, e passei a ocupar cargos de confiança no Arquivo Público (1975-1983) e no Conselho Estadual de Cultura (1983-1987), então subordinado à Secretaria de Estado da Educação e Cultura - Sedu. Não posso deixar de registrar os contatos com a Fundação Ceciliano Abel de Almeida e com sua gráfica, ao coordenar a publicação de obras de diversos autores que interessavam ao Arquivo, ao Conselho e à Sedu. Retornei para a Secretaria da Fazenda em 1987, aposentei-me em outubro de 2009 como auditor fiscal de tributos estaduais. Isso serve somente para demonstrar que tudo foi devido àquele estágio como estudante da universidade...

Em 1978, fui contratado por um ano como professor substituto pelo Departamento de História para lecionar a disciplina Introdução aos Estudos Históricos nos cursos de História e Biblioteconomia. Naquele ano, junto com uma boa equipe de colegas professores e estudantes, organizamos o IV Simpósio de História, que marcou positivamente a existência do departamento. Meu contrato de professor substituto não foi renovado, ao contrário do que aconteceu com o de outro docente na mesma situação. Essa "cassação branca" me doeu por certo tempo. Mas tudo passa na vida...

A Ufes, em 1982, abriu concurso público para professor em diversas disciplinas. Fiz as provas para o Departamento de História, mas não consegui classificação para ser nomeado. E, na mesma época, fiz também os exames para o Centro de Artes, onde passei em primeiro lugar, disputando a única vaga na área de história da arte com uma arquiteta de Brasilia. Fui contratado por 20 horas, já que ocupava no estado o cargo de fiscal cumprindo 40 horas semanais. Por quinze anos lecionei no Departamento de Arquitetura disciplinas como Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo, História da Arquitetura no Brasil, Estética do Projeto Arquitetônico e Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. Novamente deixo de mencionar os nomes dos professores, dos servidores e dos alunos com quem compartilhei os mesmos espaços e os mesmos sonhos porque a saudade é imensa. Em 1997, percebi que estava cansado, repetindo aulas, ganhando pouco e solicitei exoneração. Por um lado foi bom, pois passei a escrever ensaios e poemas com maior frequência. E, de 2003 a 2005, tive tempo e disposição para fazer parte da primeira turma de mestrado em História Social das Relações Políticas na Ufes. Foram tempos de excelente aprendizado, e de boa convivência com professores, servidores e companheiros de estudos.

Não entendi, não entendo e jamais entenderei declarações de ex-servidores, ex-alunos e ex-professores da Ufes, ao afirmarem que não gostam dela, ou a detestam; alguns mesmo a odeiam. Devem ter suas razões. Eu me sinto sempre à vontade quando vou à Ufes — ao teatro, ao cinema, à Galeria de Arte e Pesquisa, à Biblioteca Central, à livraria, aos auditórios ou salas de aula para assistir ou apresentar algum trabalho, aos lançamentos de livro... No Campus de Goiabeiras estou em casa —seus prédios são um pouco minha morada; seus jardins, meu quintal. Acredito que, no sentimento, permaneço por lá — nunca saí da Ufes. Acompanho com interesse algumas lutas que lá se travam para alargar as fronteiras do conhecimento. Vibro com suas vitórias e me angustio com seus retrocessos, mas sempre torcendo pelas melhorias da entidade, orgulho dos capixabas, verdadeira matriz dos cursos superiores no estado.

E chegamos ao final deste escrito. Que não deve terminar sem que faça declaração veemente para tornar claras as entrelinhas presentes em tudo o que nele se contém: — Ufes, eu te amo. Nem se vivesse mil anos, ou muito mais, daria conta de expressar o que sinto em relação às pessoas com quem convivi nessa universidade. E não quero entender estas palavras canhestras. Saíram assim.

 

Fonte: UFES: 65 anos – Escritos de Vitória, 33 – Secretaria de Cultura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), 2019
Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Francisco Aurélio Ribeiro, Elizete Terezinha Caser Rocha, Getúlio Marcos Pereira Neves
Organização e Revisão: Francisco Aurélio Ribeiro
Capa e Editoração: Douglas Ramalho
Impressão: Gráfica e Editora Formar
Foto Capa: David Protti
Foto contracapa: Acervo UFES
Imagens: Arquivos pessoais
Autor: Fernando Achiamé. Poeta e historiador, ocupante da cadeira 17 da AEL.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2020

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