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Sempre Sonhador, Sempre Feliz

Capa do Livro: Era uma Vez... Hermógenes Lima Fonseca Um Anjo bom que passou por aqui, 1997

Minha convivência com ele foi ótima. Tinha uma filosofia e experiência de vida muito boa. Era humano. Foi um espírito de luz em minha vida que, aliás, Deus colocou no meu caminho e tirou, mas estou feliz e conformada porque ele foi atender o chamado de Deus.

Foi um grande companheiro, o amigo de fé, entre nós não havia segredo, desconfiança ou hipocrisia. Amigo das horas certas e incertas, gostava de ler e escrever à noite. Dizia que, à noite, vinha tudo em sua mente. Às vezes ficava deitado, quietinho, imóvel, e eu perguntava: Crioulo, está sentindo alguma coisa? Ele respondia: Não estou dentro de mim.

Era quando eu sabia que estava querendo escrever, ele tinha muita sensibilidade, principalmente com suas poesias. Gostava muito de ler o livro Civilização e Cultura, do Luiz Câmara Cascudo. Lia e relia várias vezes.

Sua maior felicidade era quando seu sobrinho, "Dom Ivo" (assim ele o chamava), chegava aqui em casa. Ficava horas e horas conversando e tomando cafezinho com beijú, e dividindo o cigarrinho para fumar menos, porque o médico tinha proibido.

Outra felicidade maior ainda era quando Rogério Medeiros chegava aqui em casa. Do portão ele gritava: Príncipe vamos para Itaúnas! Ele ria e chorava ao mesmo tempo, cheio de alegria e felicidade. O carinho por ele era muito grande. Amigo, irmão e compadre. Adorava Apoena, Bete e os seus.

Hermógenes tinha uma filha adotiva, Laura Maria da Silva, por quem tinha muita ternura. Ela não gostava, ficava irritada quando alguém falava mal dele ou o usava.

Era um homem cheio de sonhos voltados para Conceição da Barra, da qual idealizava fazer um dia uma cidade-jardim, bonita e perfumada pelos jasmins. Um sonho.

Certo dia recebeu convite para trabalhar no Sindicato dos Ferroviários (Vitória), precisava ganhar dinheiro para nossa sobrevivência, porque em Conceição da Barra não estava bom, e mudamos para Vila Velha. Assim quis o destino, para ele foi um sofrimento, ficou triste e deprimido, o que ele queria mesmo era não ter saído da Barra. E trabalhou no Sindicato durante cinco anos. Um dia ele disse: Minha Nossa Senhora, eu não posso ficar aqui respirando este ar. Vou largar essa joça e voltar p'ra Conceição da Barra, onde meu povo precisa de mim. Quero sentir o cheiro das flores dos cajueiros, mangueiras, pitangueiras e cambucás. Disse ainda: Denize, minha querida, se eu lhe pedir uma coisa você faz? Eu não quero atrapalhar sua vida, sei que está trabalhando e fazendo curso no SESI. E com uma carinha de menino pidão, falou: Volta comigo p'ra Conceição da Barra? Respondi: Sim, crioulo, é claro que volto correndo, estarei sempre a seu lado, conte comigo sempre.

Voltou e chegou cheio de sonhos, em 1989, na gestão do prefeito Humberto Serra, para fazer a "Casa d Memória Barrense", estrada de ferro Barra-Itaúnas, levando turistas para um passeio ecológico. Queria também fazer uma chalana para passear com turistas no rio Cricaré, do Pontal do Sul até Barreiras e Meleiras. Nada, porém, se realizou. Começou aí sua tristeza, a de ver seu sonhos irem por água abaixo.

Grande defensor da ecologia, queria também criar a "Brigada Ecológica" com meninos do lugar, no objetivo de proteger a natureza de qualquer depredação, sentimento que defendia com todas as suas forças. Amante dos pássaros preocupava-se em colocar arroz cozido em cima do muro para eles comerem. Ficava horas e horas sentado em sua cadeira de balanço, na varanda, olhando do os pássaros na papouleira, na aroeira, e dizia: Isso aqui é um paraíso, é uma delícia, não tem dinheiro que pague essa gostosura. Apaixonado pela cultura popular, Pastorinhas, Alardo, Reis-de-Boi, Jongo, Ticumbi do Bongado, falava do Baile de Congo de São Benedito com seu orgulho maior. Falava com o mestre Tertolino Balbino, 'seo' Terto, homem de fibra que não vai deixar a brincadeira acabar.

Fazia Hermógenes um apelo, o de que o folclore, a cultura popular, o artesanato local, não se acabem, que fiquem vivos em Conceição da Barra e em todo o Espírito Santo, passando de geração a geração. Este é meu maior desejo, minha vontade — dizia.

Ele não tinha inimigos, só amigos. Tinha um coração de todo tamanho, adorava conversar com os crioulos de Sant'Ana. Sentia-se realizado quando sentava-se à porta de Sinhá Miúda e Tem Remédio para contar e ouvir estórias e "causos". Eu como sua companheira, posso dizer que ele se dava com todas as pessoas, velhos, jovens, crianças, tinha assunto para cada um. E o que restou de nossa convivência foram muito boas lembranças, recordações felizes e saudades, que guardo para o resto de minha vida.

 

Fonte: Era uma Vez... Hermógenes Lima Fonseca Um Anjo bom que passou por aqui, 1997
Autor: Adelice Machado Pereira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2014

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Francisco Aurélio Ribeiro

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Francisco Aurelio Ribeiro é capixaba de Ibitirama, pequena cidade na serra do Caparaó, onde nasceu em agosto de 1955

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