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Toca – Por Seu Dedê

Vista do antigo bairro Toca, nas imediações do Shopping Vila Velha

Famílias humildes ali residem. Seu nome se deve a família do Desembargador Ferreira Coelho que ali possuiu um sítio. Frondosas mangueiras, jaqueiras, cajueiros, ingazeiras, sapotizeiros e um pasto com umas dez cabeças de vaca leiteira era o seu todo.

Com o falecimento do desembargador, o sítio foi alugado a várias famílias, como a dos senhores Domingos Rios; Gil Bernardes; a irmã de meu pai, a tia Senhora, casada com Benedito Correa; Joaquim Pimenta e Seu Licínio (verdureiro). Mais tarde o sítio veio a ser administrado pelo senhor Francisco Ferreira Coelho, filho do desembargador.

Antes de se mudar para a casa, Chico Coelho (como era chamado) residia em uma casa de sua propriedade na esquina da Rua Antônio Athayde com a atual Champagnat; nesta casa veio a falecer uma menina moça criada pela família Coelho; a menina contraiu uma doença rara e a casa foi totalmente coberta de lençóis e defumada. Esta talvez fosse uma das razões para a mudança da família. Seu Chico fez uma ampla e moderna reforma (para a época), permanecendo em pé até pouco tempo atrás algumas paredes.

Ultimamente, uma mega reforma foi feita para adaptação da agência revendedora de carros Toyota e não sei se retiraram as últimas paredes da casa. Hoje pertence ao Grupo Bonzan.

A Rua da Toca, antiga estrada para a Barra do Jucu, era pequena e ia da Rua Luciano das Neves, a partir da Rua Sete de Setembro, até o início da Rua Professora Francelina Setúbal.

Nota: A Estrada da Barra seguia daí para frente (pela Rua Francelina Setúbal) até encontrar a atual Rodovia do Sol e por ela até a Barra do Jucu.

Morava na entrada da Toca um sírio-libanês vendedor de loterias de nome Jacob, casado com Dona Clarinda.

Mais adiante a casa do Seu Nilo, marido de Dona Mariquinha e a seguir o sítio do mesmo Jacob até a margem do Regato do Celamim, oriundo dos quintais do entorno da Praça Duque de Caxias e dos alagados do Celamim. No seu pequeno sítio, o Libânes era dono de algumas vacas, que lhe rendiam alguns litros de leite para a venda.

Na margem direita do regato ficava a entrada da rua carroçável que dava acesso ao Morro do Celamim e aos terrenos do Goiabal, atual região de Santa Inês, Aribiri, Ibes, Athayde etc.

Atravessando o Beco do Celamim, conhecido também como Rua dos Canecos, havia a casa de Seu Chico do Matadouro, nome este originado no matadouro de Seu Rodolpho Valderato, onde ele trabalhava.

Muitos foram os empregados ou beneficiários de Seu Rodolpho.

Trabalharam no abate de bois os proprietários rurais, irmãos, Adolfino e Ormandinho (Mano). O outro irmão, Argeo Gomes, era proprietário da Fazenda Boa Vista e fornecia gado para o abate.

O gado, tangido pelas ruas arenosas de Vila Velha, era conduzido por Aroldo, Augustinho, Santo e Seu Mano até o final da Rua D. Jorge de Menezes, no sopé do Morro do Penha (curral do matadouro). O abate se dava no cimo de uma laje à margem do Rio da Costa.

Abatido, o boi era destrinçado pelos magarefes, Chico e Agostinho, auxiliados pelos mesmos condutores dos bois ao matadouro. Em seguida a carne era distribuída em caminhão (semelhante ao Baú) para os açougues de Vila Velha.

Havia somente dois açougues no centro de Vila Velha, o do Seu Arlindo Paiva, na esquina da Rua Antônio Athayde com Vinte e Três de Maio, e o do Seu Alonso na esquina da Rua Cabo Ailson Simões com Henrique Moscoso.

Essa turma do matadouro era muito animada, senão vejamos:

Nos finais de semana, havia no terreiro da casa do Chico do Matadouro, a dança do congo; seus amigos cantavam e dançavam ao som de tambores e reco-recos. Não faltava ali o Seu Pedrosa (irmão do Chico), o Becário, o Nicácio, o Venceslau (Cachimbinho), o Agapito, o Caboclo, o Jose Dum Dum, o tal Cobra D’Água, o Bate Enxuga e muitos outros. Fazia gosto ver a alegria daqueles trabalhadores descendentes afro-brasileiros que mantinham suas tradições culturais, varando a manhã, dançando, cantando e rodopiando felizes.

No Carnaval preparavam o boi e a mulinha para percorrerem as ruas da cidade. Era a inocente diversão do homem simples do povo. Os personagens eram os mesmos que trabalhavam ou frequentavam o matadouro e viam a oportunidade de representar a peça “brincar com o boi”. Era assim: um ou mais boiadeiro montado na mulinha conduzia pelas ruas da cidade o boi que a todo o momento investia contra as pessoas, provocando tropeços e correrias. O boi avança contra a mulinha e ela se esquiva, enquanto um cavaleiro segura o rabo do boi. O boi ataca o povo e a mulinha vai a socorro. Assim a cena vai se repetindo e os diálogos vão fluindo conforme o improviso dos participantes. Mais adiante entra em cena o guia, que consegue acalmar e controlar o animal. Neste momento o congo dá o ritmo à festa e todos dançam.

O boi era feito com uma armação de varas amarradas em forma de touro, e servia como pele um tecido branco com bolinhas (ou semelhante), encimado por uma caveira de boi com os chifres (revestidos). A pessoa ficava dentro da armação e conduzia o boi.

A mulinha era pequena e leve, com uma abertura no centro para o boiadeiro entrar; duas tiras de pano em forma de suspensório pregadas à mulinha, servia para o cavaleiro passá-la nos ombros e conduzi-la.

Voltando aos moradores da Toca:

Antes de chegar à nossa casa, morava o chofer Arthur Barreto e família, o senhor Ormindo pai de Rubens e Daniel, o pedreiro Júlio, marido de Dona Santinha, o Becário, casado com a costureira Maria Romana, e, por fim, Gener Setúbal (Geninho), filho do senhor Astrogildo Setúbal. Gente simples como nós e alegre que, ao mudar de casa, continuaram a nos visitar com muita frequência.

Hoje muitas casas são habitadas por moradores periódicos e desconhecidos. A seguir a nossa casa: meus pais, Arlindo e Maricota. Depois da nossa casa, a do Benedito Rangel, filho de Firmo Rangel, Belo Rangel e Dona Mariquinha e os irmãos Antônio, Alzira e Aguiberto. A seguir um conjunto de casinhas de estuque de Ernesto Gogi David. Seu Ernesto, o "italiano", era carroceiro profissional, seus irmãos, Carlinhos e Salvador, hábeis pescadores da praia de Itapoã e Henrique trabalhador braçal.

Depois de Ernesto Goggi David vinha o terreno e residência de Gil Bernardes da Silveira. Gil Bernardes era empreiteiro de estradas e chegou a Vila Velha a convite do Interventor do Estado, Doutor Jones dos Santos Neves, para construir a estrada de rodagem ligando Barra do Jucu a Vila Velha. Além desta estrada construiu outras no norte do Estado, como a da Vila do Riacho a Santa Cruz. Foi pai de Américo, Antônio, Ademario, Luiz Carlos, José, Amarildes, Quita e Anna.

Do outro lado da Rua da Toca havia poucas casas. Tinha o terreno vago de Seu Carlinhos Gogi (pescador) e a casa da minha tia-avó, a tia Serafina, mãe de Floriano Guerra, Eudóxio, Rosália, Hipólito, Aninha, Florisbela e Pedro; a casa do Seu Miguel Valadares casado com Dona Santinha, pais de Djalma, Ilma (esposa de Salvador), Dirceu, Neneu e Jolimar. Depois, vem o sítio da Toca e atravessando um pequeno córrego no meio de uma chácara de mangueiras, sapotis e jaqueiras, divisávamos uma casinha tosca ao lado de um ingazeiro onde morava o zelador do sítio, um senhor idoso casado com Dona Mariquinhas. Mais adiante a casa sede do sítio e mais árvores frutíferas da família Coelho.

A seguir, a casa do bombeiro Laudelino, do pescador Salvador, a casa e venda do Washington e finalmente a casa de Tiago e Dona Maria, pais do açougueiro Anatólio (Santo), João Torrado, Luiz, Mario, Roberto, Isabel e Tuíca e a do Seu Miguelzinho marido de Dona Izabel pais de Alemão e Morena.

 

Nota: O autor era carinhosamente conhecido por Seu Dedê

 

Fonte: Memória do Menino... e de sua Vila Velha – Casa da Memória Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha-ES, 2014.
Autor: Edward Athayde D’ Alcântara
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2020

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