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Trabalhando por amizade – Por Manoel Lobato

Sob as ordens de Chiquinho

Cada jornalista é, para o COMUM do povo, ao mesmo tempo UM mestre de primeiras letras e um catedrático de democracia em ação, um advogado e um censor; um familiar e um magistrado. Rui Barbosa

 

I

Pego minha carteira profissional, a primeira e única que tenho, e releio na página 7: "Contrato de Trabalho - Nome do estabelecimento, empresa ou instituição: Folha Carioca Ltda. Cidade: Rio de Janeiro. Estado: Distrito Federal. Endereço: Rua da Constituição, 38. Espécie de Estabelecimento: Jornal. Remuneração: novecentos cruzeiros mensais. Data da Admissão: 1° de fevereiro de 1947".

Faz quase meio século. O salário mínimo da época deu para minhas despesas. Fiz todo o curso de farmácia, como jornalista. Não havia curso de comunicação. Uns dez anos mais tarde eu me tornaria sócio de uma farmácia em Vitória, na Avenida Jerônimo Monteiro, 123, a Farmácia Valli.

Órfão aos sete anos, fui internado com 13 no Colégio Evangélico de Alto Jequitibá, de onde saí aos 21 anos, quando fui para o Rio, então a capital da República. No internato fui contemporâneo de Joaquim Beato, meu colega de sala de aula. Temos idade aproximada. Nasci em dezembro de 1925. Eu ficava horas e horas observando o moço, pouco mais que um menino, em seu trabalho braçal no recreio, rachando lenha ou serrando toros de madeira para os fogões da cozinha, ao lado do refeitório.

Há muitas anotações em minha carteira profissional, mas vou citar mais uma só, na página 10: "Nome do estabelecimento: Tablóide Social (Suplemento de O DIÁRIO). Cidade: Vitória. Estado: Espírito Santo. Endereço: Rua Sete de Setembro, 475. Espécie do Estabelecimento: Jornal. Natureza do Cargo: Assistente da Direção (redator). Data da Admissão: 11 de dezembro de 1961. Remuneração: vinte mil cruzeiros por mês. Data da Saída: 31 de maio de 1964." Estas anotações, feitas por Marien Calixte, não correspondem à realidade. O DIÁRIO nunca me pagou nada. Fui tão-somente colaborador do jornal, sem receber gratificação alguma, apenas por amizade ao Calixte. Acredito que até hoje ainda haja muitas pessoas que colaboram de graça, mandando textos para os jornais. Bem verdade que há certos cronistas que deveriam pagar para publicar; escrevem muita bobagem, em estilo rançoso, com tiradas ditirâmbicas, atropelando a gramática normativa, sem contar as impropriedades lingüísticas, frases feitas, jargões, cacografias.

II

Revejo na imaginação o Marien Calixte nas oficinas de O DIÁRIO, paginando, corrigindo, secretariando o jornal, cujo diretor era o jornalista Plínio Marchini.

Em 1961 O DIÁRIO passa a fazer oposição a Jânio Quadros que, depois de eleito, começa a hostilizar a União Democrática Nacional, UDN, que lhe dera apoio. Quando Jânio renuncia à Presidência da República, em agosto daquele ano, merece manchete no jornal nanico que se agiganta: "Estamos vingados".

Depois veio o golpe de 1964.

III

Marien Calixte me deu a idéia de entrevistar Joaquim Beato. Fui ao apartamento do antigo colega. Ele fez umas declarações corajosas, em defesa dos oprimidos, enaltecendo a liberdade, em linguagem culta, técnica, erudita. Pensei que o jornal não tivesse a ousadia de publicar a entrevista. O DIÁRIO publicou tudo, com foto do entrevistado, com meu nome e chamada na primeira página.

Quase nos meteram na cadeia. Fui procurar Joaquim Beato em sua residência; ele apareceu com uma pilha de livros nas mãos. Pensei cá comigo: se fosse uma metralhadora, em vez de livros, nossa defesa ficaria menos difícil.

Meses depois, Joaquim Beato foi para a Inglaterra. Eu vim para Belo Horizonte, onde estou até hoje. No fim da vida volto à minha primeira profissão. Sou hoje redator do Minas Gerais, o diário oficial do Estado. Acabo de ser transferido para a Secretaria de Cultura.

IV

Entendo que só pela publicação da entrevista que fiz com Joaquim Beato, O DIÁRIO merece ser relembrado. Há outros motivos, por certo.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.

Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel

Autora: Fernando Jakes Teubner

Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2018

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