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Tributo a Jacaraípe

Agachado e fumando charuto o ex-prefeito da Serra, Rômulo Leão Castello

Os colonos portugueses que se instalaram inicialmente em Vila Velha e, posteriormente, em Vitória, se deslocaram para o norte e fundaram a então aldeia de Nossa Senhora da Conceição da Serra, povoando as fraldas do Mestre Álvaro. Suas atividades econômicas eram principalmente o cultivo da cana e mandioca, transformadas, respectivamente, em açúcar e farinha e, ainda, alguns cereais, algodão e mamona, culturas agrícolas de subsistência.

Com o passar dos anos, a produção foi aumentada permitindo que o excedente da colheita beneficiada fosse exportada para outras províncias ou até mesmo para a Europa, junto com a madeira de lei abundante na região. No início do século XIX, registrou Francisco Alberto Rubim, governador da capitania do Espírito Santo em 1817, que a Serra possuía 23 engenhos de cana e 14 engenhocas; a produção de açúcar se destacava entre as demais.

O início deste século, além da cana e outros produtos agrícolas em pequena escala, surge o café. A povoação de Jacaraípe, parte do território serrano, produzia cereais, também em pequena escala, além de madeira e pesca.

No quarto dia da primavera do ano de 1565, em 18 de setembro, Jacaraípe abriu-se para escrever sua história, quando foi cedida uma sesmaria, antes do rio Jacaraípe, a um português de nome João Luiz, que deu início a colonização do lugar.

A primeira igreja local, de São Pedro, ninguém sabia nada da sua construção, um desencontro total de informação. Jacaraípe nasce, portanto, de uma sesmaria e um português, que ali cultivou a terra. Com o tempo surge então, um povoado composto de pescadores e pequenos agricultores. Mais para o oeste, entre a Serra-sede e o litoral, havia grandes propriedade que produziam cana e mais tarde, café, cujo trabalho era desenvolvido por mão-de-obra escrava.

Até a metade da década de 50 do século passado, a situação de pequeno povoado persistia, época em que, prefeito da Serra (1947/ 1951), Rômulo Leão Castello plantou as bases do desenvolvimento do município. Com a chegada de Abido Saadi em 1961, nova fase foi experimentada, permitindo que o povoado subisse ao estágio em que se compara a uma cidade.

No começo dos anos 1900, no povoado de pescadores e aprazível balneário, de praias extensas, cobertas de areias radioativas, com rio (rio Jacaraípe), córregos (Irema, Taboado, Jacunem, Cacu, Laranjeiras e Capuba) e lagoas majestosas e piscosas (Jacunem e o Largo do Juá), a família de João Dalmácio Castello desfrutava, em Jacaraípe, os momentos de lazer. Cenário que inspira o lirismo, local onde anos antes, em 1847, testemunhou, com as estrelas que tudo vêem e silenciosas nada dizem, os dias vividos por seu avô materno exercendo seu direito do voto, comprovado em cópia de documento da época, assim como as idas e vindas a Jacaraípe de sua fazenda e fábrica de açúcar que possuía no lugar denominado Porto de Canoas, hoje parte do atual loteamento Capivari e do bairro Serra Dourada.

Jacaraípe é formado por uma região plana, com uma elevação em planalto, de vinte e cinco metros de altitude, aproximadamente, às vezes perto da praia, a cem metros, outras, mais distantes, a mil metros. Perto do rio Jacaraípe encontra-se a frondosa amendoeira, abrigo para turistas, plantada naquele local como que saudando os pescadores à chegada do mar; verdadeiro cartão postal!

João Dalmácio sempre nas férias se ausentava da Serra, após um ano de trabalho em sua casa comercial. Seguia então, com a mulher, d. Sinhazinha e os filhos, treze ao todo, para a praia no verão, onde, em 1908, havia um povoado, com quatro quitandas que vendiam “molhados” e eram de propriedade dos negociantes João Rodrigues de Alencar, Ladisláo Benevenuto de Aguiar, Francisco da Silva Vasconcellos Segundo e José João Ferreira.

Logo na saída da Serra, tomavam o “Caminho Jacaraípe”, e, em certo ponto, chegavam à margem do rio de mesmo nome, Largo, que também era chamado de Juá. No porto de Juá embarcavam em canoas, navegando até perto da praia. A família reunida, brincando, divertindo-se, e às vezes preocupando d. Sinhazinha. Algum filho pequeno, travesso, maquinando alguma arte, como aquela que a fértil imaginação do caçula produziu: o filho mais novo intrigado com a passagem de vaga-lumes, voando à sua frente, acendendo e apagando uma luz com o abrir e fechar de suas asas, então, verificou que aquela luz era produzida por matéria fosforescente do inseto. Pegou-os e prendeu em um vidro. Quando já havia bastante, tirou a camisa e esfregou-os no corpo, aparecendo em seguida na sala em penumbra, causando grande susto à minha avó ao ver o filho rebrilhado. Assim ela contava.

A casa de praia de João Dalmácio em Jacaraípe, era modesta e iluminada a lampião, perto do rio e da praia. Acompanhava-o o irmão Cassiano, seu amigo, que aproveitava para descansar. Gostava de sair mar adentro com os pescadores de profissão, moradores locais e velhos camaradas, que ainda hoje contam com saudade, como eram as pescarias naquele tempo. Às vezes, pouco antes do almoço, ele e seus companheiros rumavam para o rio. No local chamado Curva, ou Fundão da Capuba, distante da foz uns duzentos metros, arremessavam suas linhas e logo após, já havia peixe fisgado para a moqueca. Que robalos bonitos!

Na praia, os pescadores ficavam espreitando o mar e, com os olhos aguçados, viam ao longe um cardume, passando a gritar que estava “carujando” (saltar de peixes), atraindo assim, os companheiros para irem com suas canoas a seu encalço e capturá-los. Todos a postos, lançavam a rede de arrasto que, pesada com o resultado obtido, duas filas de pessoas a puxavam. Uma corda, depois outra, em ritmo, como se fosse um bailado, arrastando, assim, milhares de peixes-galo, pescadas, pescadinhas e manjubas, enormes quantidades, estas últimas eram salgadas e colocadas em cima dos quitungos nas palhas da cobertura.

Os pescadores moravam à margem do rio Jacaraípe, que a montante passava a ser denominado rio Juá, em casas de estuque cobertas de palha, perto de um extenso coqueiral, especial vegetação de nossa região tropical.

Sobre o rio não havia ponte, que era atravessado por uma pinguela mal conservada. Vendo aquela dificuldade, em 1928, João Dalmácio e seu filho Rômulo providenciaram a reforma da travessia.

EM 1931, Rômulo construiu uma ponte com a estrutura de seus pilares de pedras assentadas a mão e concreto, e a pista de rolamento com pranchões de madeira, servindo até bem pouco tempo a todo o tráfego que tinha como destino o norte do Estado.

Do outro lado do rio, muitas pitangueiras, coqueiros de praia, alguns coqueiros da Bahia, uma casa aqui, outra acolá, mesmo tipo das construídas antes. Era o que existia.

Em 08 de janeiro de 1939, o jovem advogado Rui Leão Castello, também filho de João Dalmácio, estava com a família e amigos reunidos perto da praia e da amendoeira, existente próxima à foz do rio Jacaraípe, quando resolveu tomar água de coco. Subiu no coqueiro com habilidade e, ao chegar no alto, apoiou-se numa palha que cedeu, caiu e perfurou o peito numa estaca, vindo a falecer logo em seguida, aos vinte e nove anos. Com esse triste episódio, a família deixou de freqüentar o lugar por alguns anos. Muito tempo se passou até que Rômulo voltou a Jacaraípe, atraindo toda a família para seguir com a tradição nas férias, como fazia seu pai. Num desses dias de sol quente e céu azul, ocorreu um fato que não pode deixar de ser mencionado.

Como já exposto anteriormente, Jacaraípe tinha um mar muito piscoso. Numa daquelas manhãs próprias de verão, iluminadas e de mar clamo, o irmão de Rômulo, Romeu, que estava doente mas tinha muita disposição e nadava bem, resolveu cair n’água.

Distanciou-se da praia para retornar a mil, em braçadas velozes, chegando logo à areia. Espavorido, avisou que logo ali tinha um peixe que quase esbarrou nele. Os pescadores, curiosos, partiram em suas canoas, levando redes de tresmalho e localizaram o peixe, cercando-o e capturando-o. Na verdade era um espadarte, que foi transportado para Vitória na carroceria de um caminhão, com a cauda de fora.

Rômulo, em trabalho incessante em todo o município da Serra, foi dando início ao progresso. Construiu em Jacaraípe, casas de alvenaria cobertas de telhas, doadas aos pescadores e, ao mesmo tempo em que fazia as mudanças, retirou da beira do rio as palhoças nas quais residiam. Um traçado ordenado surgia. Reservou uma faixa de terra de vinte metros de largura no sentido Manguinhos-Jacaraípe, deixada para a futura estrada de rodagem, onde hoje encontra-se a atual estrada (ES-010) que foi asfaltada em 1972.

No ano de 1953, Rômulo ergueu a casa onde ainda hoje, a família, agora diminuta, passa as férias. Construiu-a em uma área onde a volta foram plantadas várias árvores frutíferas. No local já havia algumas, como um pé de fruta-pão, um de abricó, plantadas por seu pai. A partir daí foi iniciado o processo de urbanização de Jacaraípe antes do rio.

Além de um açude, construiu uma caixa d’água, na verdade um grande reservatório para a época e um tanque onde tratava a água com cloro. A rede de distribuição de água foi implantada em toda a área do loteamento Castelândia, com tubos de ferro galvanizado. Instalou um moto-gerador a diesel e toda a rede de distribuição de energia elétrica nas ruas do povoado, Para os mineiros funcionários da Vale conhecerem o mar e iniciar um processo de turismo, Rômulo doou três quadras de seu loteamento para construção de casas, formando a colônia de férias dos ferroviários. A companhia, agradecida, forneceu trilhos que serviram de posteamento para a distribuição de energia elétrica que funcionava das 18hs as 22h. Tudo isso no final da década de 50 do século XX.

Falece Rômulo em 10 de dezembro de 1960, aos sessenta anos, três dias depois de sofrer um derrame cerebral em Jacaraípe, na sua casa. Grande perda para o município e toda a família. Houve um grande vazio. Perdemos nós e o município também, Um grande vazio envolve toda a gente da Serra. A ausência de benfeitores enluta o povo.

O vilarejo de pescadores está apenas na minha memória, foi substituído em cidade. O meu cenário do teatro universal, que encena a vida, perdeu o rosto; ganhou novos personagens e uma estrutura urbana. O jeito simples rural sucumbe, aos poucos, o povoado fraterno de pescadores, para se quedar à realidade demográfica contemporânea, ocupando os rincões de tantas lembranças. A mudança é real, aconteceu. Não é sequer vila, pois o distrito, após a ponte sobre o rio Jacaraípe é Nova Almeida e sua sede está localizada ao norte, na divisa com o município de Fundão; antes da ponte, é distrito de Carapina e sua sede, vila, está localizada mais ao sul. O comércio é razoável, com mercearias, supermercados, padarias, farmácias, armarinhos, papelarias, bares, restaurantes, hotéis, bancos, escolas, faculdades, gráficas, clubes, campings, kartódromo, indústrias, colônias de férias. Conta com ótimo atendimento de fornecimento de água tratada, rede coletora de esgotos e estação de tratamento, fornecimento de energia a contento, boa iluminação pública, serviço de telefonia, com duas centrais telefônicas. Enfim, uma infra-estrutura razoável para atender a sua população e aos turistas.

Execução de projetos que o progresso exige desfiguraram paisagens e mutilaram saudade. As três ladeiras moram na minha lembrança, embora não mais existam. Em seu leito, hoje aterrado para dar lugar à rodovia Talma Rodrigues Ribeiro, asfaltada em 1986 e, outra vez em nome do progresso, duplicada quase dez anos depois. A sensação de resfriamento do estômago está viva e sinto, algumas vezes, ao trafegar ali. Sentimentos intransferíveis, só meus.

Vários membros da família de João Dalmácio e amigos se foram; que saudade! As férias longas já não existem... a praia se enche no verão e hoje, não ouvimos mais o silêncio... Os peixes rarearam...

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, nº 61 - 2007
João Luiz Castello - Associado efetivo IHGES
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2011

 

 

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