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Turismo e Educação - Por Marien Calixte

Capa da Revista de Cultura UFES, novembro – 1970

A história do Homem está vinculada à necessidade de saber cada vez mais. Pesquisador por auto-determinação, o Homem é um ser insatisfeito porque incompleto na sua constituição espiritual. Atormentado pela evolução do tempo, o homem ocupa o seu espaço, com a busca contínua de toda gama de informações. A partir daí ele estará formando cultura.

O Turismo é antes de ser uma indústria versátil uma complexa multiplicação de educação e cultura, que lhe estão na essência como essência é a pesquisa na formação do homem.

A visão do que é e representa Turismo, tendo, como exemplo o Brasil, está prejudicada pela ausência da correspondente base educacional e cultural. Se não os dois, principalmente, o primeiro fator. Quando coloco o Brasil como exemplo, estou lembrando a própria experiência pessoal. Eis que o nosso país experimenta ele mesmo as primeiras iniciativas sérias a respeito de Turismo baseado na criação de uma Empresa Brasileira de Turismo e, por força da presença desta e de suas implicações fiscais e oficiais, uma rede de órgão e afins. Assim, nasce o Turismo no Brasil, com quase dois anos de idade e um grande atraso.

Está se tratando de planejamento do turismo brasileiro. Certo. Certo até um determinado limite. É que este planejamento está esquecido da essência: a educação para o turismo.

Do planejamento que se anuncia constam variadas formas materiais. Por exemplo: a construção de hotéis, de motéis, de centros de diversão, de rodovias, de transportes, de formas de promoção de incentivos fiscais para o desenvolvimento do turismo.

Deste planejamento não consta ainda qualquer objetivo de ordem moral, cuja base mais forte é a Educação. Eis aí o erro e o perigo.

Voltando alguns anos na história da educação do brasileiro, lembraríamos que foi desprezada a educação moral e cívica. Cometeu-se um erro de largas e perigosas proporções. Mais que qualquer outra pessoa, o professor sabe que ao individuo há necessidade de um aprimoramento interior, de uma razão de dentro para fora, pois não bastaria vestir uma pessoa de conhecimentos sem que não houvesse sensibilidade para aquilatar os seus valores. Haja vista tantos que foram ao colégio e julgam haver perdido o seu tempo, ou dispensam a cultura por considerá-la “tempo perdido”, ou ainda os que menosprezam o Saber e os que sabem por estar atacado de um sentimento de inferioridade educacional, cujo caminho é a mediocridade.

Então, é preciso revestir o homem de conhecimentos, mas antes, durante e depois, dar-lhes um centro de compreensão das coisas. Sem isto, tudo o mais será aparente e irreverente.

Por isso, o turismo, sem educação de base é uma perigosa faca de dois gumes. Programado como solução material, seu fracasso advirá da falta de solidez. Quando falo de Educação para o Turismo, falo da necessidade de compreensão para o que seja Turismo, a partir da significação do seu próprio nome.

Turismo quer dizer “viajar – gosto por viagens, fazer novos conhecimentos através de viagens”. E quem viaja quer saber alguma coisa e, quando volta, tem o que contar, do que, nascerá o interesse de outras pessoas, que passarão a viajar, fazendo assim o círculo do turismo. E Turismo tem como uma de seus principais apoios as relações humanas e públicas. A comunicação de individuo a individuo, a grupos ou às massas. É o Turismo um fato antigo, mas muito apropriado na atualidade. Vejamos:

Foi Heródoto, quinhentos anos antes de Cristo, quem saiu de sua cidade com a finalidade de conhecer outras terras e pessoas. Voltando, escreveu sobre o que viu. Nascia o diário de viagem. A primeira excursão marítima foi resultado de uma imposição. Noé embarcou numa arca e navegou sem rumo. Entretanto, foi Marco Polo quem mais caminhou e suas viagens revelaram coisas extraordinárias.

A ONU consagrou o Turismo como primeira indústria do mundo, já que o seu volume ultrapassou os demais ramos industriais.

O turismo é um importante fator econômico. Há cinqüenta anos, não era concebido como indústria e sua existência se baseava num tripé promocional, formado por: paisagem, história e cultura. A Europa, certamente, foi que desenvolveu o turismo, partindo da propriedade desses três fatores, que lhe são abundantes. O ideal seria como narra o Gênesis: “E era toda a terra duma mesma fala”. Chamado de “Passaporte para Paz”, o Turismo desconhece gostos, hábitos e idiomas. Daí, a sua penetração e o seu crescimento vertiginoso.

Como forma industrial, o Turismo tornou-se uma verdade econômica, podendo ser implantada em qualquer nação. A experiência moderna ensina que um bom patrimônio, principalmente o histórico, contribui para diminuir o custo operacional do turismo. Mas não chega a ser o fator preponderante. De 125 países, 80 destinam hoje especial atenção ao turismo, executado com perfeição por quarenta por cento desses países.

O planejamento do turismo nasceu após a segunda Grande Guerra. Hoje o turismo é concebido e executado como uma indústria cuja prosperidade surpreende e impressiona. Mas até a década de 1940 o turismo foi, somente, comércio.

Turismo: indústria ou comércio? Eis a questão.

Turismo-comércio é aquele das primeiras décadas deste século, quando se fazia pura e simples propaganda de vitrine ainda mantido hoje, por ignorância, omissão ou incapacidade. O Brasil ainda está na fase do turismo-comércio. Ele anuncia o seu carnaval, o rio Amazonas, o barroco e o churrasco como negócio de vitrine.

O Turismo-indústria é aquele organizado e objetivo: ele tem infra-estrutura, faz o levantamento de sua potencialidade, localiza as áreas de turistas, define e executa a motivação a parte para o negócio. Aqui, lembramos: é preciso valorizar o que se possui e construir o que não tem. O Brasil possui um dos mais ricos e insinuantes patrimônios turísticos, seja histórico ou natural, e somente agora estamos cuidando dele.

O brasileiro não conhece o seu próprio país, como o capixaba descobre muita coisa do Espírito Santo. Tendo como principal problema social a Educação, básica para a formação de uma civilização, o nosso povo faz dos conhecimentos externos o adorno de sua cultura. Administrações oficias e a divulgação mal orientada tem ensejado a que o brasileiro seja um compendio de estrangeirismo. Estamos perdendo o nosso regionalismo sadio em favor das importações. É preciso não confundir provincianismo e nacionalismo com oieguismo. Assim, o brasileiro viaja em seu próprio país para ler cardápios escritos em francês ou inglês, e na maioria das vezes o garçom desconhece a tradução e o seu próprio idioma. O título de Hotel vai desde o hotel mesmo até o dormitório. O povo desconhece o que é Turismo.

Nossa experiência neste setor vem do Serviço de Turismo da Prefeitura de Vitória. Primeiro, nos ocupamos em dar condições a que o próprio setor burocrático funcionasse. Em seguida, passamos a comunicação de massas, utilizando um slogan e um símbolo. Foi com os três vês e o Viver é Ver Vitória que abrimos o diálogo: a crítica, a sugestão ou o elogio comprovam cada vez mais a participação do povo. Desde indústrias e casas de comércio, colégios e entidades culturais, já se utiliza, sem timidez, o símbolo slogan, para motivar um produto, uma venda ou uma campanha. Há o lado pitoresco: o cidadão que se dá o trabalho de pintar uma placa com slogan e colocar sobre um buraco, como forma de ironia ou protesto. Prova aí a sua participação na mentalização da filosofia que pregamos. Estamos furando o bloqueio do desconhecido, do difícil e do negativismo. Mas não ficamos no simbolismo: o turismo receptivo é a nossa preocupação.

Mas para a perfeita receptividade, criamos uma filosofia de turismo. Só a filosofia atinge profundamente as pessoas. Esta filosofia está representada no diálogo como o povo, através do simbolismo, de iniciativas que visem a beneficiar a população e a dar esta idéia de presença, organização e necessariamente a participação de cada individuo. Não se pode executar uma política de turismo – seja nacional, estadual ou municipal – sem prever a comunicação de massas. Não adiantará que se propale o turismo sem que o povo dele participe. O povo das ruas e todas as profissões. Especialmente aquelas que estão ligadas ou afins à Educação e à cultura em geral.

É o caso do professor.

O professor é um importante veículo para ajudar a implantação de uma filosofia de turismo, que é o caminho para a tradição turística de um povo. É necessário que cada brasileiro passe a ver, sentir e informar sobre o seu país, seu estado ou a sua cidade, e até mesmo a sua rua, com a finalidade espiritual. Daí o valor do nacionalismo. Que ao invés de se decretar a falência de tudo com a crítica negativista, ironia inútil ou o comodismo, que se revelem e incentivem imagens retiradas das qualidades. Assim, verificamos que o otimismo e a perseverança são tônicos estimulantes à vida do turismo, que é hoje uma representação do grau de civilização de um povo. As toalhas limpas de uma mesa de restaurante, os sanitários asseados de bares, residências e outros lugares, o aspecto da pessoa humana do garçom, do guarda de trânsito, do professor, de um funcionário público, e tantas outras representações humanas, formam base de raciocínio para se avaliar a civilização. Assim também a limpeza de uma cidade como das estradas. Os objetos atirados pelas janelas das casas e escritórios, o pixar paredes, jogar coisas diversas nas calçadas e ruas, como se estas fossem latas de lixo, são fatores negativos numa civilização. É preciso que o povo se ocupe em pensar que tem a obrigação de respeitar os lugares públicos, a flor que está num jardim, os assentos de um ônibus ou de um cinema, como aos alunos o respeito e carinho com o patrimônio de sua escola.

Necessário que cada indivíduo seja um pouco do Presidente da República, do Juiz, do Governador, do Prefeito, do Diretor de Turismo, do professor, do pai, para aquilatar o valor das coisas. É ao professor a quem cabe também essa missão, essa reformulação. O Turismo também se faz através da Educação.

 

Fonte: UFES Revista de Cultura, novembro – 1970
Autora: Marien Calixte
Compilação: Walter  de Aguiar Filho, julho/2015

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