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Um caso de Amor – Por Amylton de Almeida

Amylton de Almeida - Foto: ALES TV Assembléia

Na década de 60, principalmente nos últimos anos, o jornal O DIÁRIO a foi responsável por uma série de medidas que terminou por transformar a imprensa capixaba. Dirigido na época por Edgard dos Anjos - um homem que, além de respeitar a inteligência de seus contratados, a incentivava, inclusive financeiramente - o jornal conheceu um período de glória jornalística, como nunca antes na imprensa deste Estado.

O amplo alcance jornalístico do escândalo do Esquadrão da Morte possibilitou essa mudança, talvez porque então se acreditava nas potencialidades saneadoras e humanísticas da imprensa - o que hoje em dia encontra muito poucos teóricos e defensores. Com a mudança, chegou uma nova estrutura de apresentação gráfica, de forma e de conteúdo. Esta última passou a utilizar-se da regra de quem, quando, onde, como, por quê, lead e sub lead que, com o tempo, deu chance a uma posição de interpretação dos fatos, de crítica implícita pela simples exposição. Parte desse instante de glória deveu-se, naturalmente, ao talento de sua equipe de jovens, sempre irreverente, cáustica, ansiosa e, eventualmente, muito corajosa, como o próprio jornal, num certo período. Tudo isso sustentado pelo dinamismo de Edgard dos Anjos, o primeiro homem de imprensa a não permitir que os jornalistas tentassem sobreviver em outras profissões. O primeiro homem a tentar fornecer um aspecto de dignidade a esta profissão.

Eu entrei nO DIÁRIO como redator de Polícia - uma tarefa aparentemente antagônica com minhas preferências pessoais. Meu contato com gíria era pouco, eu quase não a falava e desconhecia praticamente quem era quem no submundo. A tarefa diária proporcionou-me uma maior compreensão do tema.

E a tomada de uma posição frente à sociedade. Aprendi a diferenciar as coisas com maior naturalidade, a ficar mais descontraído frente à violência diária, frente à prepotência, arrogância e ódio. E aprendi, principalmente, a não me distanciar da realidade, num jornal que mudou, inclusive, o tratamento com as pessoas, com autoridades.

Aprendi a avaliar o peso e a importância de uma matéria. Aprendi a escolher e a ser consciencioso onde antes eu seria indiferente. E aprendi, também, a fazer um jornalismo vivo e dinâmico, como exigia a cidade.

NO DIÁRIO tive um maior contato com a natureza íntima de nosso povo - com sua irreverência, com sua tendência liberal, com seu humanismo. O jornal era uma extensão de minha própria casa, de minha personalidade - um local onde eu podia ser livre, e sem pedir conselhos a quem quer que fosse. NO DIÁRIO aprendi a ter confiança nos operários - homens sérios e dignos, que haverão sempre de receber o meu respeito. Com eles, editando um suplemento dominical, eu aprendi a ter paciência. E profissionalmente, tudo o que se poderia esperar de um jornal - letras, tipos, tintas, impressão.

NO DIÁRIO aprendi a testar na prática, estilo e concepção filosófica, através de reportagens - no início, eu me sentia maravilhado com o quase milagre que se constituía e edição de um jornal. Eu vivia, observava, via a concepção e a dificuldade de impressão de uma matéria. No dia seguinte, ao lê-la, eu compreendia que a minha tendência só poderia ser uma: a responsabilidade em face aos problemas de meu meio ambiente.

Uma proposta grandiosa, naturalmente - mas que eu, dentro das limitações, nunca me recusarei a fazer.

Paradoxalmente, O DIÁRIO forneceu-me a crença no poder da imprensa - o que, atualmente, como se sabe, é limitado. Mas esta crença não é possível de ser definida em palavras. Ela é minha e jamais será retirada, simplesmente porque ela faz parte de mim.

A experiência de quase dois anos nO DIÁRIO é a melhor parte de minha vida pessoal - porque, entre outras coisas, eu aprendi a não diferenciar classes, no convívio diário com os operários. Eu aprendi o significado das grandes e importantes palavras que atualmente são indizíveis ou se tornaram eufemismos controlados, que beneficiam apenas aos que dela podem tirar um maior proveito demagógico.(...)

Com O DIÁRIO, portanto, eu tive o que se chamaria de um caso de amor. Aquele tipo de paixão que não se esquece - porque, como todo ser humano, eu tenho memória.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: Amylton de Almeida
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2018

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