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Uma transformação difícil – Por Arlon José de Oliveira

Plínio Marchini

Recordo do O DIÁRIO, suas coisas e suas gentes, na fase que se poderia qualificar de romântica do jornalismo capixaba. Terminava a década de 50 e se iniciava a de 60, quando Darly Santos assumiu a direção do jornal. Na secretaria, atuava o gaúcho Hermógenes Tessis e o capitão Berling gerenciava a empresa, que tinha uma conduta política mais ou menos branca para a ocasião.

Tessis e Darly escreviam alternadamente uma crônica sob o título permanente de Um Caderno de Notas. Bem diagramada, encimando a terceira página, a coluna era bastante lida pela juventude nostálgica daquele tempo. Darly Santos, que eu conheço desde a minha remota meninice, ou seja, há uns quarenta anos, me convidou para integrar a equipe de redatores.

Em breve eu passaria a integrar o pessoal de De Um Caderno de Notas - uma narrativa simples, direta e objetiva de episódios particulares ou da vida da cidade. Logo depois, porém, passei a ter minha própria coluna, além de uma reportagem semanal. Eu estava impregnado de um jornalismo panfletário, de modo que senti bastante uma adaptação a um jornalismo postulante. Frequentemente, o Tessis censurava os meus artigos mas o Darly, espírito mais liberal, deixou que eu aprendesse por mim mesmo, errando mais que acertando, no caminho de um autodidatismo que daria à formação de minha personalidade as marcas da indisciplina e da rebeldia. Eu já havia passado pela escola de Rozendo Serapião, que posteriormente também dirigiria O DIÁRIO.

Doutor Rozendo foi o responsável pela formação jornalística de dezenas de profissionais, alguns dos quais hoje no cenário nacional. Basta dizer que Marien Calixte, Plínio Martins Marchini, o saudoso Antônio Germano da Silva, Setembrino Pelissari e tantos outros foram seus discípulos. Foi nessa quadra que dei com os costados em O DIÁRIO, o primeiro jornal capixaba a possuir uma rotativa.

Aquele período foi marcante para o nosso jornalismo. Se iniciava uma espécie de liberalismo porque o jornal, apesar de seguir uma linha político- partidária do extinto Partido Trabalhista Brasileiro, criado por Getúlio Vargas, possuía certa mobilidade e alguma independência noticiosa, características até então inéditas entre nós. Lembro de um acontecimento importante, só para fixar esse tempo, do qual os veteranos da imprensa capixaba se recordam com nitidez.

Por uma dessas reviravoltas freqüentes numa organização jornalística, José Alexandre Buaiz comprava a empresa. Um dia recebíamos na redação a notícia de que o Zé Buaiz havia atropelado um menino em Santo Antônio. Foi um alarme. Nós estávamos diante de um impasse. Não sabíamos se divulgávamos ou não a informação, "deprimente para um político".

Logo depois, o próprio José Buaiz discava para o jornal, pedindo que a notícia do atropelamento saísse em destaque na primeira página. Após o acidente, ele socorria a vítima, que não sofreu ferimentos de graves conseqüências. Na realidade, se ocultássemos o fato, os jornais concorrentes, A Gazeta e A Tribuna, poderiam explorar o fato com sensacionalismo.

No dia seguinte, esses dois órgãos davam a notícia em páginas internas, enquanto nós a estampávamos no rodapé da página frontal. Não me adaptando bem ao setor noticiarista, acabei mantendo uma crônica diária, sob o título de Contraponto. Agora O DIÁRIO era dirigido por Plínio Marchini - um caráter independente e humano, em busca de uma independência e de um humanismo destituído da pieguice de então.

Ai já entrava o Nabor Antunes Vidigal, meu compatriota, como Arivaldo Atílio Favalessa e o Luiz Fernando Tatagiba, do bairro de Santo Antônio. Nabor viveu comigo a infância pobre do menino suburbano e sempre se destacou como excelente repórter e bom narrador. Assinou para O DIÁRIO ótimos trabalhos, que alcançaram a devida repercussão.

José Américo Vidigal, seu primo hoje atuando no jornalismo norte-americano, repontava com uma coluna Colcha de Retalhos, editada pela A Gazeta. Zé Américo era muito gordo e jamais era visto sem revistas ou jornais sob os braços. Em fins de 1970, encontrei-o ocasionalmente no "Amarelinho", ponto de reunião de jornalistas no Rio de Janeiro, quando levamos uma tarde inteira recordando o "jornalismo de casa". Ele havia regressado a negócios ao Brasil e o encontro foi emocionante.

Ainda desse tempo, eu poderia citar José Carlos Oliveira, o Carlinhos Oliveira do Jornal do Brasil. Embora Carlinhos Oliveira nunca tenha se referido ao episódio, aqui vai ele, narrado como se passou. Carlinhos, conhecido como "Precoce" em nosso meio, resolveu tentar a imprensa carioca. José Buaiz lhe. presenteou com um terno branco. Tempos depois, encontrou o Carlinhos no Rio, com o terno por lavar.

 

Quando José Buaiz lastimou o fim que Carlinhos dera à sua dádiva, este respondeu: "Você me deu o dinheiro do terno mais não me deu o dinheiro para lavar". Corajoso, embarcou tempos depois para a França, onde passou seis anos. De regresso tornou-se um cronista, figurando ao lado de Rubem Braga e outros. Três palavras marcariam o nosso reencontro, quando em 1967 retornou à imprensa carioca, depois de uma breve passagem pela de Brasília: "Um pouco tarde".

A lealdade sempre marcou um pessoal que nunca apareceu com seu nome no jornal. Era o pessoal da oficina, os gráficos. Já naquela época se tinha o espírito do jornalismo como profissão liberal. É que os gráficos trabalham sempre nos três jornais concorrentes: O DIÁRIO, A Gazeta e A Tribuna. Jamais, em termos de sigilo profissional, se soube que um desses operários o havia violado, para favorecer ao órgão oponente.

Darly Santos, como diretor do jornal, tentou aglutinar a classe. Para isso, entrou em entendimentos com o proprietário de um bar, logo à entrada da Praça Costa Pereira, na Rua Graciano Neves. Era ali que a gente se encontrava, não por causa do congraçamento, mas em vista do abatimento de que desfrutávamos nas despesas feitas.

Foi um tempo de esperança, apesar das inquietações políticas. Parece que o homem de jornal, refratário às depressões da história, por viver no túmulo da própria história, é um dos poucos capazes de manter a serenidade, em meio ao tumulto. O DIÁRIO se incorpora à história capixaba como órgão que marcou época, para poder chegar onde está.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2018

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