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Varíola, cólera, fome em meados do Século XIX no ES

Entrada da Baía de Vitória - Fotógrafo: Victor Frond, 1860

A peste das bexigas vinha de priscas eras e mantinha-se invariavelmente presente nos obituários.(7) Prejuízo decorrente da resistência popular à vacina, por cuja disseminação o governo vinha se batendo desde o princípio do século.(8)

Mais pavoroso que a varíola foi o surto de cólera que fez sua aparição na província em novembro de 1854 e levou ao túmulo milhares de pessoas.(9)

Já em fevereiro de 1855, um ofício do barão de Itapemirim falava em mais de mil vítimas.(10)

A população foi tomada de justificado pavor e a província conheceu dias trágicos, inclusive porque a doença imobilizou inúmeros braços, acarretando a fome e a miséria.(11)

O governo geral, atendendo às solicitações dos presidentes da província, determinou a vinda de médicos e acadêmicos de medicina,(12) e o imperador mandou socorrer, com seus recursos particulares, as “pessoas e famílias indigentes que sofreram da epidemia”.(13)

Outras doenças – Numerosos documentos referentes à primeira década da segunda metade do século falam, insistentemente, de febres intermitentes, coqueluche, asma, epidemia de disenteria sangüínea, câmaras de sangue,(14) alguns ofícios consultando a Administração central se podiam ser encaminhados para os hospitais do Rio de Janeiro os morféticos existentes na província.

Cresciam os núcleos de população, mas o aparelhamento de saúde pública continuava como nos velhos tempos da colônia: praticamente inexistente.(15)

 

NOTAS

(7) - Em 1859, S. Mateus foi demoradamente castigada pela varíola, que ceifou muitas vidas. No ano seguinte, a moléstia alastrou-se a outras localidades fazendo numerosas vítimas (Pres ES, IX).

(8) - “O serviço da vacina, feito como é, nenhuma utilidade e proveito presta: a repugnância de uns e o nenhum cuidado de outros têm feito com que jamais nesta Província se obtivessem benéficos resultados desta grande descoberta” (Relatório com que o exmo. sr. Felipe José Pereira Leal, presidente da província do Espírito Santo, abriu a sessão ordinária da respectiva Assembléia Legislativa no dia vinte e três de maio do corrente ano, Vitória – 1851).

(9) - “Começou no Pará, onde aportaram coléricos, e num instante espalhou-se por todo o País a epidemia que durante dois anos (1855-56), ocasionou a morte de mais de duzentas mil pessoas, conforme cálculos do médico Barão do Lavradio. Todas as Províncias foram assoladas pelo mal” (SANTOS FILHO, Hist. Medicina, II, 113).

(10) - Ofício daquele titular, então à frente da Administração provincial, ao Ministro do Império, datado de quatro de fevereiro de 1855 (Pres ES, IX).

– O ofício de dez de maio de 1856, do presidente Pereira de Barros a Couto Ferraz, informa que, de setembro de 1855 a abril de 1856, faleceram, na Província, 1.541 pessoas vitimadas pela cólera; nova comunicação sobre mais mortes, no ofício de quinze de maio de 1856 (este e aquele no vol. IX da coleção de Mss intitulada Presidentes do Espírito Santo, pertencente ao AN).

– No Relatório de 1856, o presidente informava à Assembléia Legislativa Provincial que, no período decorrido entre setembro de 1855 e abril de 1856 morreram, de cólera, 1.572 pessoas, sendo 458 em Itapemirim, 375 em Vitória, 177 em Cariacica, 138 em Guarapari, 133 em Benevente, 62 em Piúma, 61 em Viana, 47 em Nova Almeida, 35 em Mangaraí, 29 em Carapina, 28 em Espírito Santo, 24 em Itabapoana, 4 em Santa Cruz, 2 em Queimado.

– Em 1863, o presidente Pereira Júnior referia-se a “uma epidemia que em 1855 vitimou nesta província perto de 2.000 indivíduos” (Pres ES, X, 46v).

(11) - Em 1856, atendendo a um pedido do Governo local, o imperial mandou cinqüenta arrobas de carne seca para atender aos necessitados de Itapemirim (Ofício do barão de Itapemirim a Couto Ferraz, de três de março de 1856, in Pres ES, IX).

(12) - Em nossas pesquisas encontramos referências aos seguintes médicos que estiveram no Espírito Santo assistindo os coléricos da província: Cândido Joaquim da Silva, Antônio do Nascimento Silva e o Dr. Etienne Bidault que, comissionado pelo Governo Imperial para vir à província tratar os seus coléricos, recebeu do Tesouro a importância de 942$000, conforme recibo constante do vol. IX da coleção Pres ES.

(13) - Relatório que o exmo. sr presidente da província do Espírito Santo, o doutor José Maurício Fernandes Pereira de Barros, apresentou na abertura da Assembléia Legislativa Provincial no dia vinte e três de maio de 1856. – Vitória – 1856.

(14) - Disenteria.

(15) - “A salubridade pública desta Província necessita muito de uma autoridade que dela cure imediatamente. Nada há de regular nesse ramo do serviço público, que pode-se dizer que se acha à toa, não se importando com eles as municipalidades, como lhes cumpria; é pois necessária a nomeação de inspetor de saúde...” (Ofício de vinte de abril de 1859, de Pedro Leão Veloso, ao conselheiro Sérgio Teixeira de Macedo, ministro do Império, in Pres ES, IX).

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, novembro/2017

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