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Viagem de Pedro II ao Espírito Santo - Por: Mário Freire

Desenho de Dom Pedro II, quando de sua viagem ao Espírito Santo, 1860

Para quem tiver de escrever a respeito do Espírito Santo, província, será de referência necessária o excelente trabalho de Levi Rocha, na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”, sobre a visita, em 1860, do Imperador, com a reprodução dos seus curiosos desenhos e observações.

Nomeado presidente em 1858 e mantido pelo Gabinete seguinte, o Dr. Pedro Leão Veloso devia saber da excursão, quando tomou posse, em 4 de fevereiro de 1859. Com 31 anos de idade pôde desenvolver a atividade que noticia de tamanha relevância impunha na pequena província, de receita anual pouco superior a cento e vinte mil cruzeiros. Foi preciso enviar logo para ela, do orçamento geral, um auxílio de dois mil cruzeiros, destinado a reparos, pintura e móveis, indispensáveis no chamado Palácio do Governo.

Não quis o autor analisar, ainda que resumidamente, os principais participantes dos fatos, como a figura do presidente. Deputado e conselheiro, a República surpreendeu-o senador vitalício desde 1878, pela Bahia, após haver presidido oito províncias. Entrevistado sobre a proclamação, repetiu palavras do chefe político Saraiva, também senador e conselheiro, cuja atitude nos últimos tempos em relação à monarquia causara estranheza, e para quem o novo regime era fato consumado, que todos deviam adotar e lealmente servir, enquanto a imprensa defenderia a ordem e a liberdade. Leão Veloso acrescentou: “Causaria grande mal à Nação, tudo quanto pudesse incutir, no espírito público, a idéia de restauração”.

O visitante foi cedo alertado, como diz e mostra o autor, quanto aos políticos da Província, especialmente do Itapemirim. Mesmo do operoso capitão de fragata Francisco Luiz da Gama Rosa, que viera instalar a Capitania do Porto, criada em 1856, e, com o pessoal e as verbas de que dispunha, construíra a respectiva sede e o cais, disseram-lhe que só tratava de completar o tempo para a reforma… “Bom provedor da Misericórdia”, anotou, porém o Imperador adiante dessa informação, de volta da visita ao hospital. E, após ter apreciado o trabalho dele na Capitania, deu-lhe melhor comissão, no Rio… Simples tenente, em 1839, no comando de uma canhoneira, combatera em Laguna; e, no ano seguinte, em lanchão, defendera S. José do Norte, contra “separatistas”, de Bento Gonçalves. O derradeiro presidente provincial da Paraíba tinha o mesmo nome.

Os capixabas, talvez por saberem o Imperador alertado, pareceram-lhe acanhados, sem entusiasmo, nem curiosidade.

A Câmara de Vitória recebeu-o com vistosos uniformes, sob a presidência de João Crisóstomo de Carvalho – “João do cais, por ter feito pequeno cais, português”. Comuns naquele tempo alcunhas como essa. Não foi anotado, infelizmente, onde funcionava a Assembléia em cujo salão houve o baile da Câmara.

Resistente, como fora no Rio, a prática dos enterramentos em igrejas e claustros, não deixaram de mostra-lhe onde o “Barrinhos” (o presidente José Maurício Fernandes de Barros, organizador, na Província, da Guarda Nacional) e o vice-presidente Itapemirim (o barão) haviam despendido quatorze contos, com um cemitério público, ainda inútil, mas que serviu depois, com outros de irmandades, até o começo deste século, tendo à frente dispendioso portão de pedra, inacabado, no alto de S. Francisco. Já funcionava lá o do Sacramento.

Qualquer velho capixaba subscreveria a nota relativa à tradicional Capelinha, da Ordem 3ª do Carmo: - “a mais bonita que visitei”. No pequeno cemitério ao fundo, hoje em parte sob os trilhos do bonde da Rua Coronel Monjardim (e não na Igreja do Carmo), fora sepultado o Dr. Olímpio Viriato Catão, o antecessor de Leão Veloso, lembrado na ponte de Santa Leopoldina; em estrada e na sede da Câmara de Itapemirim; a propósito de duas fontes, na Capital e em Santa Cruz; do chafariz de Viana; e até de uma enquete, entre fazendeiros, sobre a carestia da vida. Viera de Ouro Preto, por terra, com a incumbência de sugerir melhoramentos.

A data de 1696, atribuída à Igreja do Carmo, pode ser contestada com velha fotografia na Exposição final do Dr. Jerônimo Monteiro, na qual é legível: 1591.

Uma suposta capela do Amparo seria a mesma de S. Gonçalo, a princípio de N. S. da Assunção e do Amparo.  Guarda ainda o compromisso, de 1680, da irmandade de N. S. do Amparo, transferida da igreja dos jesuítas.

Por ser asmática, D. Tereza Cristina, teve de subir a Penha em custosa “cadeirinha”, que o guardião, frei João Nepomuceno Valadares lhe apresentou. “Frade esperto”, escreveu o Imperador, que, a 14 do mês seguinte, aniversário da Imperatriz, o agraciou. Haviam destruído lá, por não ter sido possível… dourá-lo, o primitivo nicho, de mármore rosa, do qual Pedro II remeteu alguns pedaços à Princesa Isabel.

Quando viu abandonado nas praias de Santa Cruz, o navio de ferro, do concessionário França Leite, recordou o desastroso fim da Transilvânia, assim como da projetada navegação do Rio Doce; e consignou a explicação do modesto popeiro que o levava: o tempo gasto em cada uma das três viagens do navio; e o custo do transporte das mercadorias, mais elevado do que em canoas.

Grande a paixão política afetava, parece, as próprias estatísticas da produção: o Espírito Santo via decrescer, anualmente, a do açúcar, enquanto a exportação do café caminhava para duzentas mil arrobas. Leão Veloso atribuía o encarecimento da vida à “febre de plantar café”.

Não estivesse o Imperador tão alertado, e a visita, que lamentavelmente faltou ao velho Barão de Itapemirim, figura respeitável da política, na Província, tê-lo-ia feito admirar melhor o trabalho no sul espírito-santense, e apreciar devidamente o que se dizia de uma e outra cultura. Agraciado pelo mesmo imperante, o barão fora, depois, objeto de uma carta particular de apressado presidente, que veiculara, contra ele, fatos incríveis, como traficante de africanos, fruto talvez do despeito pelo título, ainda raro, da Província. Em documento público de 1855, porém, outro presidente, Sebastião Machado Nunes, referiu impedido, graças ao barão, um contrabando deles, em busca da barra de Itapemirim.

Foi levado a visitar, de preferência, a colônia do Rio Novo, onde só teve que anotar o que, a propósito, lhe segredou o Dr. Cruz Jobim, senador pelo Espírito Santo desde 1851, trazido então para conhecer, tão somente, aquele trecho do sul. Era preciso alertar sempre o monarca, conforme o presidente ainda o fizera em Guarapari, quanto ao vigário de… S. Mateus.

Encerrado o decênio da política dita de conciliação, ia suceder a época, que Pedro Calmon acentua, dos Grandes Panfletos, como o de Landulpho Medrado “Os Cortesãos e a Viagem do Imperador”. Extremados novamente os dois partidos, e mudada a situação, a imprensa de Vitória divulgava, em 17 de julho de 1864, uma relação de objetos desaparecidos do palácio depois dessa memorável visita.

As críticas sobre a inutilidade dessa excursão, a Fala do Trono respondeu, em 3 de maio de 1861, sugerindo ao Parlamento melhorar o sistema administrativo das províncias; facilitar-lhes meios de comunicação; promover a vinda de braços úteis e fundar escolas práticas de agricultura.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 21, ano 1961
Autor: Mário Freire
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2013 

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