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Viagem em torno de mim mesmo - Por Eugênio Sette

Praça Oito - Título da coluna de Eugênio Sette na revista Vida Capichaba e depois em A GAZETA

A noite anda pelas 21 horas. Dormem as crianças, costura a mulher. Estou eu aqui, agora, a pensar em mim mesmo, na minha vida ainda lírica, no que tenho sido, no que sou, no que não pretendo ser. No que tenho, no que não tenho e no que nunca terei. Nas coisas que gostaria de ter escrito, de ter pensado, de ter dito.

Acontece que essa viagem em torno de mim mesmo não me leva a canto algum. Até que é capaz de me desesperar, a mim, um quase satisfeito. Penso em Calvero (58) exaltando o maior mistério de todos os tempos, o da criação, a exaltação do ser humano. E Lautrec, (59) bêbado e cínico, triste e formidável. Mas houve Silvana, cantando nos arrozais italianos.(60) E há o vento noturno que faz farfalhar a palmeira da casa do vizinho.

Neste instante exato eu sou apenas uma porção de gente cercada de livros por todos os lados, livros que, pelo menos agora, não conseguem resolver o que desejava ficasse resolvido. Há, por exemplo, o mistério da máquina de escrever, que não anda porque eu não a toco. Não a toco, porque da minha cabeça cansada não sai coisa que preste, se é que saiu alguma coisa, alguma vez.

Se eu visse uma borboleta amarela nesta altura da noite, vocês veriam que crônica. Mas, cadê borboleta? Só há o vento, mas dele já me aproveitei aí por cima.

Vou roncar o pau em cima de alguém, de alguma coisa. Quem, que coisa? Ninguém, nada. Foi delírio. O tempo de roncar o pau já passou...

Estou lampejando estupidez. Noite ingrata inspiradora. "Ninguém me quer, ninguém me ama..." Não, não é bem isso. "O amor só é sublime para quem sabe amar." Também não. Amor, amar, o mar, ramo...

Deus, por que tanta burrice de uma arrancada só?

Não me mudei ainda para a casa nova. Tremo, só de pensar na livralhada. E na louça, nos móveis arranhados, na grandíssima amolação que isto vai ser. A coisa está tão esperada, tão desejada, tão, tão, que é capaz de nesse grande dia Deus fazer chover fogo para atrapalhar tudo e aumentar o desespero. Nunca fui de muitas andanças e estou simplesmente apavorado. Pela trabalheira, pelos aborrecimentos, pela exploração que o negócio vai dar. Mas estando escrito, não adianta mudar o destino das coisas e das pessoas. Não foi no Alcorão. Foi no meu coração, um garoto pidão. Miserável rima, esta!

Há semanas fiz um, memorial à COAP, (61) em nome dos açougueiros, pleiteando o aumento do preço da carne. Foi indeferido estrondosamente. Pouco depois, outro memorial, por outro advogado, pleiteando o mesmo aumento e usando os mesmos argumentos, foi deferido, também estrondosamente. Estou sem saber se o louco sou eu, ou eles... Com certeza, não é uma casa portuguesa. (62)

Sem estar nu e na banheira, achei a grande idéia — e se leiloassem este país?

Mas, agora, é tarde. Acabou-se o espaço.

Ciao!

 

Notas

(58) Personagem vivido por Charles Chaplin (1889-1977) em Limelight (Luzes da Ribalta), de 1952.

(59) Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), pintor fracês, interpretado por José Ferrer (1909-92) no filme Moulin Rouge, de 1952.

(60) Referência ao filme Riso Amaro (Arroz Amargo), de 1949, estrelado por Silvana Mangano (1930-89)

(61) Comissão de Abastecimento e Preços.

(62) Referência a um fado de grande sucesso na época.

 

Fonte: Praça Oito, 2001
Autor: Eugênio Sette
Compilação: Walter de Aguiar Filho agosto/2014

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