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Viajando de Bar - Por José Irmo Gonring

Ed. Moscoso onde funcionava o Bar Dominó

I – CLASSIC BAR

 

Quem acham vocês que sou, se não o pianista que às terças fazia planger a dentuça do Steinway do Britz. Claro que vocês não se lembram. Eu só me alçava naquele banquinho quando já todos estavam bem tomados, a ponto de achar que fosse uma vaga alucinação provocada pelo álcool. Era esse o melhor momento para um tímido se exercitar naquela Sonata ao Luar. Tinha uma predileção especial por trechos de Grieg, é bem verdade. Mas era Debussy que tomava a maior parte de meu tempo. Clair de Lune, claro, que sempre me deixava banhado de suor e lágrimas. Suor, pela excessiva concentração que me exigia, no ambiente dispersivo. Lágrimas, pela doce melancolia absoluta desta peça.

Era assim que acontecia sempre. E tenho certeza de que esse era o único dia em que a Marzia Figueira não tinha do que reclamar. Ela que morava ali bem pertinho. E quando eu tocava, sempre sobrava um fiapinho de olho de esguelha para ver essa januária, absorta no parapeito, o olhar vago de leonina sentimental, com o pensamento pousado na Ursa Menor.

Vocês por certo não se lembram de mim, o rapaz que mandava ver – o único, diga-se de passagem – no Steinway do Britz.

 

II – FAST BAR

 

Houve um tempo em que os bares levavam no nome a palavra básica BAR. Assim: Bar-batana, o dos pescadores contadores de lorotas; Bar-bitúrico, o do pessoal que era chegado num torpor; Bar-bicacho, o dos tropeiros (esses, num tempo bem remoto); Bar-carola (não vendia bebida e cigarro), o dos que rezavam em excesso (se bem que acabo de achar que nunca é um tanto de mais, do jeito que as coisas andam); Bar-cana, o dos que gostavam da pura, sem fazer cara feia e esboçar o gesto de saravá. Bar para tudo quanto é tipo de barzófilo, inclusive o dos melômanos, o Johann Sebastian Bach. O dos cinéfilos – pasmem – se chamava Baretta. E dos velejadores, Barquinho.

Foi nessa onda de bares com endereço tão certo que surgiu um estabelecimento comercial vendedor de molhados que ousou chamar-se Jatobar. Ali se reuniam os apressadinhos. A xícara de cafezinho ficava sempre pela metade, o papo ia de “como vai” até a resposta “vou...” e o outro inquiridor já ia. Era comum ali uma cerveja tomada por uma meia dúzia, porque era o único bar em que o dono servia cerveja a retalho, já que nem dava para esquentar.

No Jatobar, se era dia de folia, tipo seresta, era comum canção como Amélia começar pelo “Nunca vi fazer tanta” com três zunidores e terminar com 150 vozes, no total do revezamento. Uma verdadeira procissão.

O bar não durou muito, ali na Duque de Caxias dos anos 60. Os apressadinhos nunca conseguiam fazer uma turma. E bar sem turma vai mesmo à falência, porque o que conta neste tipo de estabelecimento que vende molhados é a esticada sem compromisso, a conversa em tom de confessionário, sinuosa, espichada. O ritual de jogar conversa fora não permite hora marcada.

Por isso, o sucesso veio com a Zanzibar, em que todo mundo ficava zanzando e se azarando. Até a noite acabar.

 

III – POP BAR

 

Os editores de Escritos Caprichados quiseram me colocar à prova, eu, Gaspar Tordesilhas, que em vez de bares entendo mesmo um pouco é de logradouros e assim um tanto de vetustas igrejas, a ponto de por exemplo saber que, na do Rosário, dormem em boa gaveta, à espera de mostra adequada, a imagem de Santa Ifigênia e a de São Elesbão, assim como nas boas igrejas ligadas à cultura negra de Ouro Preto e outras histórias de Minas e, assim, sabendo disso tudo e ainda muito mais que faria descorar o Frade e a Freira, deste passado vitorioso, me dão, eles, a tarefa, com data marcada, ainda por cima, de narrar dos fatos destes bares da Vitória mal sabendo que também retenho segredos que agora desponto pela vez primeira e o principal é da passagem daquele Osório Al-Zafir, que, no Bar Dominó, nos meados dos 60, pedia o Chopp sempre bem tirado e ficava assim só olhando o âmbar e as bolhinhas subindo devagarinho e após um quarto de hora de contemplação pedia renovação da intocada taça e no final de três horas disso, o que sempre se sucedia em dias ímpares, ia-se sem obviamente cambalear e deu de um dia que enquanto assim procedia e um comandante cujos marilhos se davam de amor na rua Duque de Caxias e cercanias (boates Anelise, Monalisa, Porão 214), ele, refinado inglês, ancorava ali no Bar Dominó sua sofreguidão de contumaz leitor de Somerset Maughan e foi quando soube, por falar inglês o Djalma Casotti, que controlava o caixa nesse dia, que Zafir era assim um contemplativo na então não popular linha oriental e que sua grande e particular tragédia era a de não ainda ter chegado à conclusão, após um lustro, de quantas bolhinhas eram necessárias para encher o colosso do Taj Mahal e, assim que soube da história, o comandante esboçou aquele comedido compreensivo sorriso de condescendência e estava feliz nesse dia porque havia adquirido do mecânico de navios Benedito uma peça que tinha sido retirada desses velhos navios naufragados na Baía de Vitória e que julgava lhe daria bom ganho nos antiquários londrinos e foi assim que, por uma casualidade e via Bar Dominó, Vitória passou a figurar no mapa universal da música pop e no cinema do diretor, como citação obrigatória, e é isso que agora narro em primeira mão, já que o comandante dito e feito além de ganhar um bom trocado no antiquário dos arrabaldes da cidade ainda deu de contar a história das bolhas de Zafir para seu proprietário que a repetiria anos afora, para alguns de seus clientes, mesmo ocasionais, como os Beatles, que ali estiveram e foi ali que leram aquele cartaz convidando para uma festa beneficente onde estava escrito FOR THE BENEFIT OF MISTER KITE e logo se inspiraram para a canção moderadamente sacudida do Sergeant Pepper’s... e no mesmo disco acabaram por inserir também a hitória do Zafir, trocando o nome de Taj Mahal para Albert Hall.

Isso foi mais ou menos na mesma época em que a produção de Blow-up, Depois Daquele Beijo, usou de empréstimo do mesmo antiquário aquele estranho e aparentemente inútil objeto em forma de hélice de madeira que é entregue justamente na hora em que o fotógrafo está se envolvendo com a mulher que o procura para pedir o filme onde sem querer ele havia flagrado um assassinato. O estranho objeto ainda consome algumas horas de reflexão dos analistas de ícones. Interrompida foi talvez a única cena de amor sem angústia da filmografia de Antonioni. Graças a Vitória, e ao Bar Dominó.

Disto Eu, Gaspar Tordesilhas, dou fé, afirmo e confirmo, podendo ser encontrado no Bar-batana, tradicional reduto de pescadores que a especulação imobiliária não derrotou, na Praia do Pranto, esquina de Ávido D’Argento com Torres de Delírio.

 

Fonte: Escritores de Vitória, 1995
Autor: José Irmo Gonring
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014

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