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Viajantes Estrangeiros ao ES – João Théodore Descourtilz

João Theodore Descourtilz

Em 1958 foi arrematado, num leilão de editores, na Inglaterra, um livro sobre pássaros do Brasil, de João Théodore Descourtilz, impresso nas oficinas de Rensburg (1854-56), às expensas da nossa Imperatriz, D. Teresa Cristina.

Os dois volumes em francês, que continham quarenta e oito estampas coloridas, alcançaram um lance correspondente, em nosso dinheiro, a uns setenta cruzeiros novos. Um preço verdadeiramente de ocasião (mesmo com o aviltamento da moeda), se considerarmos a raridade e a importância da obra.

Não sei se o exemplar, ou se outro idêntico era anunciado pouco depois, no catálogo da Livraria Kosmos, por quatrocentos e quarenta cruzeiros novos, com as seguintes observações: "Ornithologie Brésilienne, ou histoire des oiseaux du Brésil, ramarquables par leurs plumage, leur chant ou leurs habitudes. Rio de Janeiro. Éditeur, Thomas Reeves — sem data IN FOLIO, 42 pp., 48 cromolitografias. Obra raríssima e procurada; foi publicada em fascículos, em quatro partes, começando em 1854. Cada parte contém as ff. de texto correspondentes às planchas, que foram impressas em Londres, Waterlow & Sons. Cromo Lithographers".

Na Biblioteca Estadual da Guanabara, tivemos oportunidade de compulsar volume sem data, cujo título e indicações coincidem com o do expresso acima e em cuja página de rosto lêem-se ainda as seguintes informações, referentes ao autor: "Membre de La Societé Linniènne de Paris et La Societé Auxiliaire de L'industrie de Rio de Janeiro".

No catálogo que A. L. Garraux editou, em 1898, sob o título: "Bibliographie Brésilienne (Catalogue des Ouvrages Français & Latins Relatifs au Brésil — 1500-1898)", constam as mesmas informações sobre a "Ornitologia Brasileira" de Descourtilz (J. Théodore), e mais as seguintes, referentes a outra obra: "Oiseaux-mouches ornithorynques du Brésil, peints et décrits par le Dr. Th. Descourtilz — Rio de Janeiro, 1831, in-fol. — Joli Album de 50 pages de texte accompagné de 23 dessins finement colories au pinceau, légende en or, titre en couleur". E no dito catálogo, ainda do mesmo autor: "Osiaux brillants da Brésil — Paris, lithographie de Ceillier, in-fol. — Planches en couleurs".

Em uma das dependências do Britisch Museum, a Colibris Editora diz haver encontrado o texto em manuscrito inédito de Descourtilz, intitulado: "Oiseaux Brillans et Remarquables du Brésil placés près des Végetaux dont les Fruits les Nourrissent". Animou-se a publicar o mesmo, enriquecendo a "Ornithologie Brésilienne", do autor, edição de 60 páginas de texto, 32 reproduções coloridas em "off-set" de 8 cores e 28 em preto e branco.

Existe uma edição em português (esgotada), traduzida por Eurico Santos e anotada por João Moojen, da "Ornitologia Brasileira ou História Natural das Aves do Brasil", lançada pela Kosmos, em 1944. No seu capítulo inicial, Descourtilz faz um amplo resumo das aves em relação com o meio ou o ambiente, em estudo que vem caracterizá-lo como ecologista. São páginas dignas de inserção nos florilégios nacionais, pelos ensinamentos que evocam. Toda uma gama de cores vai povoando a nossa imaginação, na medida da leitura: tangarás, gaturamos, saíras, guaxes, tucanos, arapongas, araras, papagaios, pombas, surucuás, pica-paus e os pequeninos emplumados, "grupo assaz numeroso de espécies que reúne às proporções mais delicadas os matizes mais puros das pedras preciosas e todos os reflexos dos metais: os beija-flores".

Esse mimo da natureza, que não escapava à curiosidade dos viajantes-naturalistas estrangeiros, foi assunto de acurada observação de Descourtilz, que nos brindou com ricos desenhos.

É de notar que o ecologista francês não apresenta nenhuma espécie nova de beija-flores e as suas classificações são passíveis de reparos. Todavia, em toda a sua obra, os desenhos são primores de arte e delicadeza, que fazem suas planchas despertarem o gosto de muita gente em vê-las emolduradas nos quadros das paredes.

Fechado a sete chaves, num armário dos incunábulos, a Biblioteca Nacional guarda um original em francês, de Descourtilz, texto manuscrito, imitando caracteres tipográficos, com as indicações na página de rosto do ano 1831, lugar Rio de Janeiro, e o informe de outra obra do mesmo autor: "Flore Médicale des Antilles".

Essa preciosidade foi divulgada em 1960, texto fac-similado e traduzido e reprodução dos desenhos em cores, com o título: "Beija-flores do Brasil". No estudo crítico que o acompanha, Olivério Pinto tece algumas considerações sobre a personalidade do autor, muito pouco conhecida. Acredita ter ele vindo para o Brasil em 1830.

Segundo o Registro de Estrangeiros (1831-39), divulgado pelo Arquivo Nacional, o Dr. TEODORE DESCOURTILZ, médico francês, teria vindo do Havre, em 16 de dezembro de 1839. Como explicar o raro exemplar da B.N. datado oito anos antes, e do Rio de Janeiro?

LA GRANDE ENCICLOPÉDIE fornece-nos alguns dados bibliográficos de outro cientista diplomado em Paris no ano de 1814, que deve ter sido parente do nosso desenhista: Michel-Etienne Descourtilz, médico e botânico francês, nascido em Boiste, próximo a Pithiviers, a 25 de novembro de 1775, e falecido em 1835. Ele fundou, em São Domingos, o Liceu Colonial e, durante uma revolta de negros, foi requisitado para servir como médico da armada de Dessalines. Fugiu, em 1802, voltando à Europa. Após trabalhar por alguns anos como médico do Hôtel Dieu de Beaumont, no Gatnais, fixou-se em Paris. Dentre a sua grande bagagem de livros, editados nessa cidade, se destaca: FLORA PITORESCA E MÉDICA DAS ANTILHAS (Paris, 1821-1829 — 8 vol. in 8 av. pl.).

A escassez de informações relativas ao nosso primoroso desenhista de pássaros perde-se e confunde-se em penumbra maior: como explicar a nota na página de rosto do seu incunábulo guardado na B.N.: "Auteur de la Flore Médicale des Antilles"?!

João Theodoro Descourtilz foi nomeado, pelo imperador Pedro II, adjunto da 1ª Seção do Museu Nacional e ocupou o cargo de 31 de julho de 1854 a 13 de janeiro do ano seguinte. Em 1851, foi mandado pelo Governo Imperial ao Espírito Santo, para proceder a estudos mineralógicos e entomológicos. No ano seguinte, remetia ao Museu Nacional, despachados da província, perto de 2.000 insetos, borboletas e mais de 20 gêneros de ovos. Nos municípios de Itapemirim e Benevente, extraiu diversas amostras minerais. No sítio denominado Lavrinhas (hoje Venda Nova), seis léguas distante do Aldeamento Imperial Afonsino, ele redescobriu, na serra da Posse, rica mina de ouro. Na mesma região do Castelo, descobriu uma mina de ferro e considerou elevado o teor do minério. Na fazenda PEDRA BRANCA, rio Fruteira, antigo Quartel Barcelos, da Estrada do Rubim, doze léguas distante do citado Aldeamento, colheu uma coleção de cristais de rocha de diversas cores. No morro do Óleo, município de Santa Cruz, em terras da posse Retiro, acusou a existência de uma mina de prata.

Dentre as inúmeras espécies de pássaros que observou, constaram também as cotingas, mais freqüentes nas vizinhanças do Rio Doce e sul da Bahia. Pássaros raros, hoje em dia, são considerados dos mais lindos pelo colorido das suas penas. Parecem fadados ao desaparecimento.

No Riacho, aldeamento próximo ao litoral e à foz do Rio Doce, Descourtilz escolheu uma cabana para nela preparar as suas últimas coleções biogeográficas. Má época, o ano de 1854, para percorrer a província capixaba, então devastada por uma epidemia. E o lugar do acampamento, pantanoso, de impaludismo endêmico, era dos que ofereciam as piores condições de habitação. Mas de ambos os perigos ele saiu incólume. O seu passamento teria outra causa. Sua morte foi noticiada pelo jornal CORREIO DA VITÓRIA, edição de 3 de fevereiro de 1855, dessa forma: "Faleceu no dia 13 do mês p.p., no Riacho, distrito da Vila de Santa Cruz, e sepultou-se no dia 14, na igreja Matriz da sobredita Vila, o célebre naturalista francês, o Dr. João Theodoro Descourtilz. Há toda a certeza de que morreu envenenado pelo arsênico; porquanto apaixonadamente dedicado às ciências naturais, com um zêlo quase fanático, guardava os objetos da história natural em um pequeno quarto onde tinha os pássaros empalhados, vasos com preparações arseniacais e outros venenos, que entram na composição dos preservativos. Como filósofo-naturalista, mesmo na Europa, teve poucos êmulos. Lamente, pois, o Museu Fluminense a quem prestou relevantes serviços, esta perda irreparável, e sinta a sociedade a ausência eterna de um membro, que a ilustrou".

Quando, a 2 de fevereiro de 1860, D. Pedro II visitou a Vila de Santa Cruz, registrou, no caderninho de bolso, impressão sobre a igreja, a qual o vigário Santos Ribeiro, já no ano do falecimento de Descourtilz, comentara ser a única existente: "...e não sendo suficiente para os enterramentos, porque além de ser pequena tem poucas sepulturas..." o vigário pedia permissão à autoridade eclesiástica de Vitória para "... poder benzer um lugar para servir de cemitério, o que me foi concedido e ao presente se fazem tanto na igreja como nele os enterros ..." Sobre esse templo, comido pelo cupim e que viria a ruir pouco depois, anotou ainda o Imperador "A igreja não merece menção — lugar ao lado fechado para enterrar".

Dessa forma, ao Monarca, grande amigo e Mecenas dos intelectuais e artistas (ele teria ciência do gesto da Imperatriz D. Teresa Cristina e por certo conservaria nas estantes os livros de Descourtilz), estranhamente passou desapercebido o sepultamento do artista francês, naquela igreja, cinco anos antes.

O naturalista capixaba Augusto Ruschi, que conseguiu colecionar 34 espécies de beija-flores no Espírito Santo, diz, com sua grande autoridade, ter visitado a sepultura de Descourtilz, em Santa Cruz. Malgrado todos os nossos esforços, foi em vão que a procuramos encontrar.

 

Fonte: Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo, 1971
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2016

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