Morro do Moreno: Desde 1535
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Vila Velha, berço da cultura capixaba

Francisco Aurélio Ribeiro na Academia de Letras Humberto de Campos, em noite de autógrafos

    A palavra “cultura”, antropologicamente, se define como “conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos e costumes que distinguem um grupo social” e “capixaba” como o “natural ou habitante do Espírito Santo”, um dos vinte e sete estados da federação brasileira. No entanto, “cultura”, palavra de origem latina cujo significado é “ato ou efeito de cultivar a terra” tem o sentido semelhante a “capixaba”, palavra de origem tupi, que também significa “local de plantação” ou “local onde se cultiva”. E foi aqui, no Espírito Santo e, mais precisamente, na antiga Vila do Espírito Santo, atual município de Vila Velha, que se iniciou a implantação de uma “cultura capixaba” e a formação de um povo miscigenado de colonizadores portugueses, nativos de vários tribos, sobretudo de tupiniquins, e africanos de várias etnias trazidos como escravos.

   Os portugueses chegaram em 23 de maio de 1535, num domingo em que se comemorava, na liturgia católica, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, daí terem escolhido o nome Espírito Santo para batizar a capitania concedida a Vasco Fernandes Coutinho por D. João III, no ano anterior. Chegaram numa caravela chamada “Glória”, com sessenta homens, dentre os quais dois fidalgos degredados, Dom Jorge de Menezes e Dom Simão de Castelo Branco, mortos pelos nativos, pouco tempo depois. A ferro e fogo implantaram seu domínio, nos deixando como legado a língua portuguesa, abrasileirada, com o tempo, pela contribuição das línguas indígenas e africanas, a religião católica, inseparável do Estado até a proclamação da República, em 1889, hábitos, costumes, crenças, comportamentos, modos de ser e de viver, adaptados a uma nova realidade, a dos Trópicos, formando uma cultura diferenciada, a brasileira, que se pode reconhecer em oposição a outras culturas nacionais, e a capixaba, com peculiaridades diversas da  de outras culturas regionais.

   Uma nação não é apenas uma entidade política, constituída de povo, território e governo, mas, sobretudo, um sistema de representação cultural com um sentimento de identificação nacional. Sem esse sentimento, o “sujeito moderno experimentaria um profundo sentimento de perda subjetiva”, conforme Stuart Hall, em “A identidade cultural na pós-modernidade” (2001). Por isso, uma nação é uma comunidade simbólica, com seus símbolos e representações. O Espírito Santo foi um dos lugares onde se iniciou o que podemos chamar, hoje, de nação brasileira, lugar de origem de uma cultura nacional. E isso ocorreu com a veiculação de uma única língua vernacular, a portuguesa, cuja aprendizagem pelos nativos se iniciou aqui, com os jesuítas. O Colégio dos Jesuítas, fundado em Vitória, em 1551, os templos  e reduções indígenas criados pelos jesuítas em Itapemirim, Anchieta, Guarapari, Serra e São Mateus, além das fazendas de criação de gado, engenho, plantação de açúcar e suas  culturas de subsistência, nos limites do que viria a ser a Capitania e futuro Estado do Espírito Santo, deram as bases econômicas e culturais do nosso povo.

    A fundação do Convento da Penha pelo franciscano frei Pedro Palácios, em 1558, transformou o Espírito Santo no principal centro de devoção religiosa até o surgimento do culto a N. Sra. Aparecida, no século XVIII e Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, muito tempo depois. Além de ter sido o principal local de devoção religiosa e de romarias ao Convento, o Colégio dos Jesuítas, na Vila Nova do Espírito Santo, depois, Vitória, e a antiga Vila Velha, no Convento da Penha, foram importantes centro de aprendizagem das línguas indígenas para os missionários que vinham para o Brasil catequizar os indígenas. Não por acaso, foi aqui que o padre Anchieta escreveu a primeira gramática da língua tupi, a mais falada em todo o litoral brasileiro, em 1595, dois anos antes do seu falecimento.  Essa gramática foi a base da aprendizagem e de todos os outros estudos da língua geral mais falada na costa do Brasil, durante muito tempo.

   Ainda como centro religioso, cultural, administrativo e econômico, foi a Vila Velha do Espírito Santo, a primeira capital do Espírito Santo, o núcleo fundador da cultura portuguesa, com a construção da Igreja do Rosário, na Prainha, uma das mais antigas do Brasil, se não for a primeira, conforme suspeita Jair Malisek dos Santos (“A Igrejinha do Rosário e a presença de Vasco Fernandes Coutinho”, 2003), construída ao lado de uma Casa de Administração ou Feitoria, Casa de Justiça ou Cadeia, além de um Pelourinho, lugar de proclamas e de julgamentos, na antiga praça ou rossio, como chamavam os portugueses,  onde hoje se localiza a Praça da Bandeira.  Também a Igreja do Rosário funcionou como Casa de Administração, por ser o local de registro de nascimentos, casamentos, óbitos, cemitério, além da primeira Casa da Caridade ou da Misericórdia do Espírito Santo, em cuja inauguração se encenou o Auto da Visitação de Santa Isabel, do Padre José de Anchieta (¨Poesias de José de Anchieta”, 1954).

    Em Vila Velha, ainda, Vasco Coutinho iniciou a construção do primeiro forte do Espírito Santo, na praia de Piratininga, e instalou a primeira Alfândega, iniciando o comércio da Vila do Espírito Santo com Portugal, Angola e outras colônias da África, exportando açúcar produzido nos engenhos capixabas, farinha de mandioca produzida nos quitungos e a abundante madeira cortada pelos “brasis” e importando vinho, azeite e, sobretudo, negros para o trabalho escravo. José de Anchieta, um dos mais significativos cronistas daquele início da colonização escreveu em “A província do Brasil”, de 1585: “É o Espírito Santo a terra mais acomodada e aparelhada para a conversão que há em toda a costa, por haver ainda muito gentio e não tão escandalizados dos portugueses.[...] É terra rica de açúcar, tem seis engenhos, , muito gado, fértil de algodão, a gente é rica e a terra frequentada de três ou quatro navios que cada ano vão ali de Portugal”.

   Anos antes, o superior dos jesuítas, Manuel da Nóbrega, em carta escrita ao governador-geral Tomé de Souza, em 1559, afirmara: “A capitania do Espírito Santo, onde mais reinava a iniquidade dos Cristãos e onde os Índios estavam mais travados entre si com guerras, porque vissem que sua esperança que tinham nos Índios estarem diferentes não era boa, permitiu Nosso Senhor que se destruísse por guerra dos Índios, morrendo nela os principais, como foi D. Jorge e D. Simão e outro, e todos perderam com isso suas fazendas”. Em outro trecho da mesma carta, Nóbrega afirmou: “Outro pecado nasce também desta infernal raiz, que foi ensinarem os Cristãos aos Gentios a furtarem-se a si mesmos e venderem-se por escravos. Este costume, mais que em nenhuma capitania, achei no Espírito Santo, capitania de Vasco Fernandes e, por haver ali mais disto se tinha por melhor capitania”. (“Cartas do Brasil”, 1988).

   Portanto, do relato de Nóbrega, que se referia ao tempo do primeiro Vasco, ao de Anchieta, quase trinta anos depois, a Capitania do Espírito Santo estava pacificada e próspera, em franco desenvolvimento, o que ocorreu até a notícia da descoberta de ouro e diamantes, nas terras do sertão adentro que pertenciam à Capitania do Espírito Santo e a criação da capitania das Minas Gerais, em 1709, com terras das antigas capitanias de São Tomé, Espírito Santo e Porto Seguro. É uma inverdade mil vezes divulgada a de que Vasco Fernandes Coutinho teria morrido pobre e desamparado. Sua capitania pertenceu a seus herdeiros até 1674, quando um deles, Antônio Luís Gonçalves Coutinho, rico e poderoso, a vendeu para o baiano Francisco Gil de Araújo. Em todo o século XVIII, Vitória foi fortalecida com fortes como os de N. S. do Carmo, S. João, S. Diogo, Santo Inácio e Vila Velha com o forte de S. Francisco Xavier da barra. Vila Velha teve, enfim, sua Casa da Câmara, pelourinho e a Casa da Misericórdia foi reedificada. O Convento da Penha continuou sendo o principal centro religioso do país, com suas festas e romeiros vindos de todo o país, sendo, não por acaso, o tema do primeiro livro de literatura escrito no ou sobre o Espírito Santo, o Poema Mariano, de 1770.

   Vila Velha continuou sendo, por muitos anos, uma aldeia de remanescentes de índios mestiços de portugueses e negros, pobre, sem maiores progressos, como todas as outras do litoral capixaba, de Itapemirim a São Mateus, incluindo a própria capital. Ligada, umbelicalmente, a Vitória, desde o seu nascimento, a antiga Vila do Espírito Santo somente foi elevada à categoria de Distrito em 1750 e à de cidade em 1896, tornando-se município no ano seguinte. Por duas vezes, o município do Espírito Santo se viu incorporado a Vitória, em 1937 e em 1943. Somente em 1947 teve sua autonomia restabelecida e, a partir de 1958, na administração do prefeito Antonio Gil Veloso, passou a ter a denominação oficial de Vila Velha, o nome com que sempre foi conhecida desde a mudança da capital para a Vila Nova, em 1551, e não mais Espírito Santo.

   Vitória e Vila Velha continuam sendo cidades irmãs, hoje ligadas por três pontes e, no futuro, quem sabe, por algum túnel. Haydée Nicolussi (1905-1970), poetisa capixaba que aqui viveu parte de sua infância e juventude e cujo pai foi um dos responsáveis pela criação dos bondes que circulavam de Paul à Prainha, a partir de 1912, retratou, com perfeição, essa relação univitelina das duas cidades, em poema de 1928 intitulado “Vitória do Espírito Santo”:

[...] “Mas Vitória, a rútila, a garrida,

tem uma irmã, a humilde Vila Velha,

       modesta, harmoniosa,

que num êxtase de noiva recolhida,

       dorme à sombra vermelha

das coraleiras, florindo a praça silenciosa. 

 

Ao longe, o heril convento colonial,

   sonhando no regaço da montanha,

lembra o castelo de Montalto Doria,

numa terra estranha. É um alvíssimo pombal,

aonde voam em bando as almas de Vitória,

lindas pombas brancas, de beleza ideal...

 

E, entre as duas irmãs, as duas capitais,

           o Penedo abstrato,

   fiel a um sacrossanto e misterioso pacto,

lembra um monge, orando, em cismas ancestrais. [...]

(In: Vida Capichaba, janeiro de 1928)

 

   Em seu poema, Haydée Nicolussi nos lembra que o Espírito Santo tem duas capitais: a Vila Velha, a primeira, e a Vila Nova do Espírito Santo, atual Vitória. Seus símbolos são dois: o Convento da Penha, obra única da arquitetura religiosa no Brasil, espaço sagrado de devoção e culto há 455 anos, e o Penedo, o nosso “Pão de Açúcar”, ambos localizados na baía de Vitória, mas no município de Vila Velha. A partir do meado do século XX, quando a industrialização se intensifica no Espírito Santo, Vitória e Vila Velha, aliadas a Serra e Cariacica, tiveram notável surto de crescimento e progresso econômico. Todavia, ainda hoje, é o Convento da Penha o principal símbolo cultural, histórico e religioso do Espírito Santo e o seu entorno constitui o sítio histórico da Prainha, onde tudo começou, pois aqui nasceu o Espírito Santo.

 

Referências bibliográficas

FERNANDES, Carlos José. Vila Velha. Origem do povo espírito-santense. 2003

LIMA, Dijairo Gonçalves. Vila Velha, seu passado e sua gente. 2002

OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. 3ed. Vitória:APEES/SECULT, 2008

RIBEIRO, Francisco A. Espírito Santo de A a Z. Vitória: Secult. 2010.

ROSA, Léa Brígida R. de A. e outros. Vila Velha: Nosso Município. Vitória: Formar, 2003

SANTOS, Jair Malisek. A Igrejinha do Rosário e a presença de Vasco Fernandes Coutinho. Vila Velha, 2003

 

Autor: Francisco Aurelio Ribeiro (AEL-IHGES)
Nota do Site: O encontro se deu no dia 21/05/2013, na Academia de Letras Humberto de Campos, na Prainha. Na primeira edição do Café Literário SESC, uma iniciativa do SESC/ES com apoio da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vila Velha - PMVV

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