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Violação de um Patrimônio Histórico - Por Miguel Aguiar

Jornal A GAZETA de 11 de maio de 1958

Há mais o menos um mês enderecei a V. Ex.. em sobrecartas postadas alternadamente no correio Geral no Rio de Janeiro (D.F) dois exemplares do BOLETIM de minha autoria, sob número 9, último da série que venho distribuindo há vários anos, dentro e fora do município do Espírito Santo – onde nasci sob as bênçãos de Nossa Senhora da Penha e aprendi no lar honrado dos meus inesquecíveis pais a amar minha terra embevecido nas lições, nos exemplos dignificantes dos meus antepassados e até a presente data ignoro se V. Ex. o recebeu.

Em se tratando de assunto de grande importância, qual seja da violação de todo patrimônio histórico dos mais caros que possuímos, tomei, Excelência, a iniciativa de levar ao conhecimento dos homens públicos do meu Estado e a quantos se dispõem por esse Brasil em fora, desvelada e patrioticamente a defender as nossas relíquias através dos Institutos Históricos e Geográficos e de outras sociedades congêneres criadas em todo o território brasileiro, a partir de 1906, por inspiração de grandes vultos da Monarquia, como o foram o Visconde de Ouro Preto, o Conselheiro Cândido de Oliveira, Carlos de Laet, Amarilo Olinda de Vasconcelos, Conde Afonso Celso e muitos outros o degradante atentado ao local onde no “Sítio Ribeiro”, compreendido na Fazenda da Costa, atualmente de propriedade do Estado, o Fidalgo Vasco Fernandes Coutinho após haver assumido a direção de sua capitania, construiu sua residência.

A responsabilidade de invasão, recai, infelizmente,  Sr Governador, na pessoa de um filho da terra, que segundo Vox-Populi, foi quem a estimulou e patrocinou.

Se esse cidadão compreendesse melhor os seus deveres cívicos no exercício do cargo a que negou pelo voto da consciência livre dos seus terrantezes, certo não teria a acoroçoado a inconcebível pretensão do autor ou autores do assalto ao Venerado Patrimônio, sem dúvida alguma o mais importante de quantos nos foram legados pelo nosso primeiro Donatário.

Se o responsável pelo bárbaro atentado amasse o seu terrão, tal qual alardeou nas colunas de um jornal que redatoriou nesta cidade nos discursos que tem feito em praça pública, ter-se-ia iniludivelmente aproveitado da circunstância de ser amigo de V. Ex. e gozar da simpatia, da generosidade do governo,  para sugerir justa e merecida homenagem ao pioneiro da colonização espírito-santense – cuja vida foi um exemplo de trabalho, de coragem, cordura e persistência –  a construção naquele local de um casebre para garantir uma posse que podemos considerar como verdadeiro crime de lesa civilização, mas de uma casa de fisionomia colonial, se possível, em estilo idêntico ao do solar (sem dúvida muito confortável) por ele deixado em Alenquer em troca de inauditos sacrifícios impostos pelos negócios, pela sorte de sua  ???? (ilegível)

Umas das dependências da Casa Colonial (a principal) seria reservada à construção de um altar – a exemplo do que se fez na Câmara Municipal do Rio de Janeiro – e ali, como recordação do fato histórico narrado por Américo Vespúcio; o povo católico entregar-se-ia à devoção da gloriosa Santa Luzia .

Nas demais dependências seriam instalados, sem embargo, um museu, uma biblioteca, exposição de artes etc. No ápice do rochedo far-se-ia a ereção de um grande monumento do Governo e do povo do nosso Estado em homenagem à tríade de donatários que ali residiu e governou, trabalhando sempre, incessantemente, pela glória do seu povo e crescente prosperidade de sua Capitania.

Essa obra, se concretizada, seria o testemunho eloqüente da nossa compreensão cívica, da nossa imperecível gratidão, do nosso eterno reconhecimento aquele que, pelo progresso, pela prosperidade de sua capitania imolou a sua fortuna honrada, a sua paz, a sua tranqüilidade através das mais sérias ameaças, das mais temerosas incursões nas selvas de nossa terra.

Excelência: Diz o historiógrafo Basílio Carvalho Daemon em seu livro – PROVINCIA DO ESPÍRITO SANTO, publicado em 1879, paginas 55 e 56, o seguinte: Vasco Fernandes Coutinho ordenou ainda a construção de um engenho e principiou a abrir uma situação e nela foi residir no lugar conhecido hoje por “Sítio Ribeiro”, pertencente ao Sr. Paulino. No local ainda se vê derrocados paredões, restos de alicerces e paredes em ruínas, tudo dissiminado; ali residiu também, Vasco Fernandes Coutinho Filho e D. Grinalda, que fizeram diversas doações.

Não poucas pessoas existem nesta desventurada terra, Excelência, que podem, como eu testemunhar que ali, no alto do rochedo do secular “Sítio Ribeiro”, próximo ao palácio do Governo do Estado, há bem pouco se mantinham de pé, embora em mal estado) a casa em que residiram três dos nossos Donatários e os alicerces de uma varanda descoberta, com mais o menos dois metros de altura na parte que deitava para o lado do farol de “Santa Luzia”.

E os nossos ancestrais conservaram essa amurada, derruída em parte, com todos os defeitos que lhe impuseram as tempestades a que resistiu  secularmente, com o mesmo respeito, com a mesma admiração dispensados a Capelinha de S. Francisco, em idênticas condições ruinosas no alto da colina de Penha e agora, numa eloqüente demonstração de civismo e religiosidade, restaurada.

Sabiam eles, os patriotas do século passado, que ali estavam reduzidos a escombros, alicerces e paredes da primeira casa construída na Capitania do Espírito Santo, debaixo de cujo teto se abrigaram as principais figuras da nossa colonização, e fora guardado o material de maior importância aos trabalhos projetados e supervisionados pelo Donatário Vasco Coutinho.

Do solar da Donatária, construído entre a floresta e o mar, restam presentemente apenas, pedras a caliças que atravessaram os séculos sob os uivos furiosos das tempestades e ali, encrostadas, agarradas ao rochedo sagrado, clamam por justiça contra os invasores vandálicos que as estilhaçam, que as pulverizam na ânsia de desagregá-las de uma vez do granito em que se procura vilipendiar, infamar a História no nosso Estado com a destruição completa desse marco luminoso de onde se projetou a luz da Civilização do Espírito Santo.

Existiam no “Sítio Ribeiro” não somente os paredões a que se reporta o notável historiógrafo linhas atrás do iludido, mas também  a própria casa restaurada, cuidadosamente, em grande parte pelo saudoso coestaduano, Dr. Alfredo Couto.

Se não bastasse para corroborar as minhas alegações o que diz Carvalho Daemon, o escritor que no proêmio do seu precioso livro afirma ao Imperador D. Pedro II, não ter a sua publicação o mérito das obras de grande fôlego, mas conterá em si um predicado, e esse é a VERDADE dos fatos aqui narrados, descritos e reunidos com insano trabalhar – eu pediria ao Sr. Governador, um pouquinho de sua preciosa atenção para o trecho final da crônica do brilhante escritor patrício Dr. FLORIANO DE LEMOS, intitulada O MILAGRE DO GATINHO, publicada no grande matutino carioca – CORREIO DA MANHÃ – edição dominical de março de 1944, assim redigida: “Ainda se encontra de pé, próximo do Convento, a casa do D. Luiza Grinalda, uma das benfeitoras da localidade, de todas a mais antiga, por certo, pois já em 1591 fazia doação do morro da Penha aos religiosos franciscanos, como dois anos antes lhes cedera as terras do atual Orfanato Cristo-Rei”.

Força a esclarecer ainda V. Ex., que lá estavam, também, pelas adjacências do Solar de Coutinho, os vestígios de construções remotas, a caliça consistente, petrificadas das paredes, pedaços de alicerces aqui a acolá, todos destruídos não pelo tempo, mas pela maldade feroz dos vândalos.

Aquele recanto de lutas e de glórias não pode ser usurpado à História de nossa Terra, a veneração do povo do nosso Estado diante do que, humildemente, exponho a V. Ex., Senhor Governador.

Esclarecido, pois, como está o assunto, cresce, avigora-se-me a esperança de uma providência de autoridade do governo de V. Ex., no sentido de ser evacuado aquele local digno de nossos maiores cuidados, da nossa eterna vigilância. Com as minhas homenagens, receba V. Ex., respeitoso aperto de mão deste seu velho e humilde patrício.

 

Autor: Miguel Manoel de Aguiar
Fonte: Jornal A GAZETA, 11 maio de 1958
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2013



 



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