Morro do Moreno: Desde 1535
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Vitória, cidade bendita pelo sol de cada dia!

Morro do Cruzeiro, anos 1950 - Foto: Dilton Carvalinho - Fonte: Memória Capixaba

Relendo o livro "Praia do Canto" da coleção Elmo Elton, texto de Sandra Aguiar, me debrucei sobre uma página que, embora um tanto distante das lembranças de minha vida de adolescente não tive escolha, me reportou a momentos vividos que me forçaram a um encontro saudosista! Sombra pálida, longínqua, dispersa pelo ar da primavera... era setembro, o sol brilhava e os brilhos esquentavam e colaboravam para secar as panelinhas de barro escondidas no meio dos cactos no alto bem próximo ao topo do Guajuru, mais conhecido por mim, como Morro do Cruzeiro. As panelinhas eram feitas com o barro tirado no fundo do quintal de nossa casa, onde deixávamos secar para depois colocar dentro delas, várias comidinhas, quando da distração dos mais velhos, brincávamos com fogo. O Cruzeiro se podia ver e subir todos os dias, pois a passagem mais fácil era pelo nosso imenso quintal, e, eu estudava muitas vezes, lá em cima, pois tinha maior concentração. Lembro-me que participei de uma procissão, ato de religiosidade, juntamente com Frei Jesus, o pároco da Igreja Santa Rita na época. Eu imagino ter sido no ano de 1959; lembro que vários moradores da Rua Rio Novo (a rua em que morava), atualmente chamada Saul Navarro e, também moradores da Fortunato Ramos, onde se localizava a Paróquia, formavam filas e subiam a pedreira pelo ponto de encontro das duas ruas, para assistirem à iluminação da cruz.

Foi uma noite de grande emoção; a iluminação mais moderna tornava a cruz mais brilhante e mais perto de nós. O silêncio da noite se misturava com os sons da madrugada e a sombra da cruz escorregava pelos labirintos do morro. Podíamos apreciar tudo bem de pertinho, pois reafirmo, morávamos ao pé da pedreira. Em noite de lua cheia, flagrávamos, entrando pelas frestas das janelas, os sons das serenatas que se misturavam com o reflexo da luz do cruzeiro. As serenatas realizadas no muro de nossa casa pelos enamorados de minhas irmãs mais velhas, Iara, Vera e Inajá, que então, eram já, então, liberadas para o namoro; pois as demais Guaraci, Zezé, Lulu e eu, éramos ainda meninas (eu a mais metida a querer estar junto com as mais velhas); já nos considerávamos adolescentes; mas éramos proibidas de chegar em casa após às 20:00 horas e de dormir depois das 21:00 horas. Voltando às serenatas, que se confundiam entre a brisa da noite e o luar, tivemos a oportunidade de conhecer os músicos Alternar Dutra, Valdeci Lima, Paulo Ney, junto com os pretendentes das irmãs, José Carlos, Donaldo, João Batata e outros muitos amigos, que a memória já não consegue lembrar; portanto lembrar a seresta é voltar a um tempo único. Para espiar, o que me sobrava era o buraco da janela da sala de música de nossa casa, pois a meninada envolvida em lençóis, subia uma em cima da outra, para ver quem eram os seresteiros e na de querer reconhecer os ditos cujos. A confusão era formada com a chegada de papai, falando forte e mandando todas para as camas; todas nós respeitávamos, pois caladinhas cada uma voltava para o seu leito sem mesmo chiar, que os pais falavam era lei! e assim...a tênue saudade de uma noite, onde a rapaziada se divertia de maneira sadia e as canções ecoavam belas com letras apaixonadas, foram passageiras como a velocidade do tempo.

A Praia do Canto foi e será sempre o celeiro de famílias tradicionais e, para mim, recorde de lembranças que não se apagam. Quantos devaneios, que outrora fora marcados pelos pêndulos dos relógios - o da Praça Oito, célebre no rufar em badaladas consonantais, alertando a sociedade vitoriense para as horas de compromissos... mais e mais recordações: sinto o alçar dos voos das andorinhas espalhando-se em bandos sobre as castanheiras, na Rua Saturnino de Brito, a ex-beira-mar, onde as ondas, nas Praias Comprida e do Canto, batiam fortemente nos paredões que separavam as pequenas ruelas, quando ondas e ondas quebravam suas forças em dia de marés cheias. As praias Barracão, Santa Helena, Camburi formavam os elos de diversão da juventude, com os jogos praianos, promovidos pelo Praia Tênis Clube, as competições dos barcos à vela, que saiam do late Clube, e, a torcida das meninas: a turma da Praia do Canto contra a do centro da cidade, chegando a uma rivalidade entre os grupos. O grande espetáculo era a garotada pulando do trampolim no meio de muitos espectadores à beira-mar, onde os esportistas mostravam suas habilidades físicas, chamando a atenção e provocando concorrência entre as meninas mais exibidas. Ah, que tempo doce!...sem violência, sem tortura mental, sem pânico e sem sequestro. Sentimos pesar, pela transformação do bairro! Um pesar egoísta, pois entristece-nos o olhar ver as casas sendo derrubadas, virando selvas de pedras feitas de cimento bruto, sem vida e sem alma. Hoje, dificilmente poderemos conhecer todos os moradores de um prédio, mas naquele tempo, ah, naquele tempo, as residências tinham calor humano, vizinho se entrosava com vizinho, famílias sintonizavam com famílias. Nós reconhecíamos em cada rua, em cada avenida e em cada esquina, quem morava e assim formava-se uma Grande Família. O tempo fugiu... corremos atrás dos acertos em desacertos conosco mesmos, e sempre olhando para frente, esquecemos que a viagem da vida, torna-nos e nos faz escravos! Nos tempos de hoje, já começo a ter os sintomas da idade, e então, foi-me indicada uma fisioterapia. Eu faço a fisioterapia, em uma das poucas casas que ainda não foi ao chão, na esquina da Rua Eugênio Neto com Madeira de Freitas; exatamente no mesmo lugar de encontro de nossa turma...Heloisa, Angela, Dayse, Guilherme, Cézinha, Cabeco, Jaiminho, Beto, Marias e Joãos... e eu me vejo ainda ali, mesmo como o passar dos tempos; era ali, bem no muro baixinho, juntamente com todos, que ficávamos sentados com a permissão da Dona Ana, que nos fitava com olhares desconfiados, tentando ouvir as histórias do dia a dia.

Vitória, na maioria dos dias, cidade sol, cheia de luz; em sintonia com o viver calmo, cidade cheia de amor; porém sempre provinciana... muitas vezes temporais, riscos de clarões no céu, com raios e trovões, causavam temor à garotada. Momentos de medo, mas os ramos secos em casa guardados, bentos na Igreja no dia da Missa de Ramos, logo se punham a queimar para ajudar a passar as tempestades, como um ato de fé (uma lenda, ou um ato de superstição). Havia momentos de enchentes, onde as galerias não suportavam o volume das águas e, então transbordavam pelas ruas da cidade... dias difíceis de sair de casa.

O tempo passou veloz e o progresso chegou! Tumultos, engarrafamentos, pontes, governos e governos-falta de segurança, saúde, educação... quantas decepções! É quase impossível não perceber a fumaça negra no espaço, a poluição dos minérios das grandes empresas que chegaram à cidade tranquila, que veio tirar o ar puro dos ventos que sopravam com sussurros de felicidade na orla da Praia de Camburi.

Vitória do tempo em que a frase - "Viver é ver Vitória", soava fortemente em dias de prazer, principalmente quando íamos às domingueiras do Clube Vitória.

Oh, tempo bom que não volta mais! Na segunda-feira já estávamos pensando no domingo, e o assunto do dia no Colégio Sacré Coeur, na turma da 4a série ginasial (hoje ensino fundamental e médio); era saber com quem havíamos dançado o arrasta-pé, ou se já aprendêramos os novos passos de twist, iê, iê, iê, rock, que faziam à moda do momento. E nem adiantava a Irmã Lacreche chamar a nossa atenção na aula de matemática, pois o interesse era comum... O entusiasmo batia em nossos corações, vivíamos em função da próxima domingueira, combinando os encontros, ora no velho Clube Vitória, ora no Praia Tênis Clube. Vaga lembrança, volto a um outro tempo, ao tempo de uma adolescência feliz, um universo de novidades, de fofocas, e sem dúvida de encontros furtivos.

Os pic-nics do Colégio eram os fins de uma moda dos maiôs inteiros, a liberdade, aos poucos, o engana-mamãe, (duas peças, por trás) foi chegando de mansinho nos anos 60; e como escândalo, aparece o duas peças e mais tarde o biquíni, transformado até em monoquini. 

Vamos mais adiante, lembrar Vitória, como a cidade dos saudáveis Cinemas: Trianon, Vitorinha, Jandaia, Cine Glória, Cine Santa Cecília e São Luiz; filmes históricos, românticos, cada um com suas marcas de sucesso; o São Luiz com a abertura do tradicional Concerto n° 1 de Tchaikowski; empolgava a platéia, não se apagam da memória efeitos tão brilhantes, os sons irradiantes que a Rede Severiano Ribeiro, deixava fluir, apresentando as notícias do momento pelo canal 100. Filmes de projeções nacionais com ídolos internacionais, de maior repercussão, eram vistos pela turma da praia, que delirava na maior curtição, desde a chegada do bond à Rua Aleixo Neto, onde em frente ao armazém do Sr, Marçal pegávamos, até a Costa Pereira em baldeação ao Parque Moscoso. Divagávamos e íamos ao encontro de cores, em turbilhão de sonhos. Assistimos o choque de inúmeras gerações, das quais vivenciei sendo professora de música; tudo contribuía para vivermos numa cidade aconchegante, cheia de luz. Foi chegado um tempo novo, a luz continua a mesma, com dias chuvosos e outros terrivelmente quentes; dizem que o clima mudou por causa do aquecimento global; mas o que passou, passou...

Hoje, passados sóis brilhantes e mares revoltos, são eternos em minha memória... mas, para mim, ontem e hoje!? sempre faltou o essencial - "Cultura e Educação", e ou "Educação e Cultura" se é que uma delas vem primeiro, pois para mim são inseparáveis, caminham juntas...sempre esquecidas, relegadas ao último plano e menor orçamento do governo, e mal vista pelo restrito corpo empresarial do Estado. Lamento muito, pois o cartão de visita de um país e, ou de um Estado e de uma cidade é...? dificilmente chegaremos a ser um país de primeiro mundo.

Sinto-me cidadã do mundo, hoje me procuro, e me encontro longe daquele viver... de um passado cheio de esperança e de amor vivido na cidade-sol, terra de filhos com grandes potenciais, mas sem história, sem apoio e sem memória. Hoje, quase 60 anos de vida, continuo a procurar o meu tempo no espaço perdido no baú de sentimentos, com ressentimentos; mas na memória, uma infância sadia, uma adolescência de sonhos, uma juventude feliz à sombra de uma luz que não se apagará jamais na cidade que eu vi crescer: Vitória, bendita seja a nossa cidade sol!

 

Fonte: Escritos de Vitória nº 6 - Parque Moscoso, PMV e Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo, 1994
Autor do texto: Gracinha Neves. Nasceu em Pancas, ES em 1949. Musicista, poeta, prosadora e ensaísta. Pertence à AFEL, que presidiu de 1992 a 1996 e à AEL
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2019

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