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Vitória Setecentista – Ladeiras, Largos e Ruas - Por Serafim Derenzi

Palácio Anchieta, Igreja São Tiago - Vitória, 1860 - Foto: Victor Frond

Na segunda metade do século XVIII, a capital do Espírito Santo, vista do continente, tem belo aspecto paisagístico. Lembra pequeno feudo medieval, encastelado nas grimpas das montanhas a se espalhar em águas tranqüilas de um lago. O casario, nascendo do mar, entremeia-se com restos de vegetação nativa e morre em sarna do "Colégio" e da Matriz. As torres assimétricas de Santiago dão-lhe um harmonioso equilíbrio. Equilíbrio que se casa com o plano de fundo, coberto de mata secular e vigorosa. Não há separação definida entre as águas e a terra. O mar entra pela "Prainha" e, nos baixios de Roças Velhas, dilui-se nos mangues, que se confundem com o mataréu das colinas. Nas marés menores descobrem bancos de areia, que, pouco a pouco, aterrados, se transformam em embarcadouros e trapiches. As "quaresmas" roxas, as cássias régias e os ipês salpicam de cores a floresta, que fecha o cenário. A vida social e econômica desperta aos poucos. O comércio se faz com as Capitanias vizinhas e exporta, para a Metrópole, açúcar, algodão, parati, madeira e mandioca. Na metrópole reina D. José, eclipsado sob o guante férreo do Marquês de Pombal. A capitania do Espírito Santo, subordinada ao governo da Bahia, obedece ao Capitão-mor José Gomes Borges. Tem como Ouvidor-geral o bacharel Francisco Sales Ribeiro e o colégio dos Jesuítas é dirigido pelo Padre Silvério Pinheiro.

A cidade alta está toda dividida em quarteirões irregulares. O principal, pela sua posição, é o dos jesuítas, com o Colégio e a igreja de Santiago, cuja fachada se volta para o Largo Afonso Brás, fronteira a igreja da Misericórdia, hoje Assembléia Legislativa. É verdadeira chácara. Sua área compreende o perímetro formado pela atual subida, Rua do Comércio e Av. da República, escadaria Cleto Nunes e Rua Duarte Carneiro. Pelo lado do mar, correspondendo ao pórtico do Palácio, há um retângulo desnudo, que se chama Largo Padre Inácio. Toda cercada ou provavelmente murada, possuem os jesuítas, dois trapiches: um no atual cais do Imperador e outro no porto dos Podres, onde está o Hotel Rex. A senzala situa-se ao forte Santo Inácio, onde se vê, atualmente, o velho sobrado do Juízo Federal. (*) Cultivam, os padres, fruteiras e hortaliças. No pátio interno do Colégio há grande poço de onde se servem para beber e molhar as plantas. É um conjunto agradável à vista e de relevo muito movimentado. A subida ainda é em rampa, tendo junto ao mar um quarteirão, que lhe impede o acesso em linha reta.

A velha escadaria, dividida em patamares, foi construída depois, não se atinando com a data, porém antes de 1759, data da expulsão da Companhia de Jesus.

Os franciscanos ocupam também área apreciável com horta dividida em leiras e árvores frutíferas. Descendo à esquerda e pelos fundos, comunicavam-se com as marinhas do Parque Moscoso que iam ao sopé do morro, agregando toda a parte do antigo quartel de polícia de nossos dias. (**)

O quarteirão da Igreja S. Gonçalo tem praticamente o mesmo contorno atual. A matriz, hoje Catedral, está engastada, pelos fundos, numa área fechada.

Os nomes dos logradouros, à época, são os seguintes: Largos — Padre Inácio, Afonso Brás e da Matriz. Ruas: Grande, do Beco, da Matriz, das Flores, São Francisco, Capelinha, Carro de São Francisco.

Da cidade alta se desce pelas Ladeiras do Padre Inácio, escadaria da Misericórdia, do Pelourinho ou Trapiche, da Matriz, de S. Diogo, do Carmo e da Senzala.

Há outros logradouros, cujos nomes não encontramos, como o que ligava as ladeiras da Misericórdia e Padre Inácio, que, no século passado, se chamou Santos Pinto, e hoje faz parte da Rua Nestor Gomes. A Rua das Flores guardou o mesmo tratado até 1930. Corria nos fundos do "Hotel Magestic", comunicando a Ladeira da Matriz com a Ladeira do Sacramento, em demanda do Largo da Conceição, junto ao forte Santiago. A parte baixa, toda em poligonal zigzagueante, recebia os seguintes nomes, caminhando-se do Parque Moscoso para o "Saldanha" de hoje: Lapa das Pedras, Cais de S. Francisco, Porto dos Padres, Cais do Padre Inácio ou das Colunas, Cais do Batalha (Praça 8), forte N. S. do Carmo, Cais do Santíssimo (Cine Glória), Rua do Ouvidor (Duque de Caxias). As casas da Rua do Ouvidor, lado de baixo, davam fundos para o mar. Não havia ainda espaço para a atual Av. Jerônimo Monteiro. O Largo da Conceição (Praça Costa Pereira), todo irregular, tomou o nome em homenagem à Capelinha da Conceição. Dessa praça, para o mar, saíam as Ruas do Sacramento e S. Manuel. Para ganhar a Rua do Rosário, passava-se por terrenos baldios e de marinhas, onde está o edifício do I.A.P.I.

A Rua do Reguinho, antecessora da Rua Sete de Setembro, vinha lá do alto da Fonte Grande, bem alinhada e esbarrava fronteira a pedreira, que ainda existe no lado esquerdo da Rua Treze de Maio. Não desembocava na praça; além do morro, havia uma quadra e a Capela da Conceição, demolida por Moniz Freire para se construir o Teatro Melpômene. Toda a área das ruas Gama Rosa e Coutinho Mascarenhas eram um banhado baldio, chamado Pelames e, para alcançar a igreja do Carmo, devia-se atravessar uma ponte sobre águas nascentes e as que enxurravam dos morros São Francisco e Matriz. No Largo da Conceição havia outra ponte sabre águas, que desciam da pedreira S. Diogo, fundos do forte Santiago.

A população da capitania abrigava-se em torno de 1390 fogos, com 9.760 almas, das quais, 3.000 seguramente na capital. Transportada por escravos, a água era captada nas fontes da Lapa, na Fonte Grande e na Capixaba. O convento de São Francisco tinha pequeno aqueduto, vindo das cabeceiras da Fonte Grande, sendo privilegiado, em relação às demais moradias, por possuir água corrente. Grande número de casas tinham poços e os quintais com esplêndida água potável. Missas haviam-nas em abundância na matriz, nas igrejas de Santiago, São Francisco, Santo Antônio, Santa Luzia, Nossa Senhora da Misericórdia, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora da Conceição, capela que se construiu em 1755, por devoção e promessa de Dionisio Francisco Frade e sua mulher. Os mortos repousavam nas naves das igrejas ou conventos, quando do clero, governo ou irmandades, e nos cemitérios, anexos aos templos citados, quando do povo ou escravaria.

Nas ruas tortas, esburacadas e enlameadas, pelas águas servidas, o capim e a muxinga atingiam aos tornozelos dos poucos transeuntes. Os animais domésticos, em plena liberdade, eram responsáveis por brigas e sarilhos entre vizinhos. De quando em quando a varíola, a amarela, a escarlatina, a bubônica e o impaludismo infestavam os habitantes com fortes percentagens de casos fatais. As noites escuras eram feridas pelo bruxuleio das lâmpadas a óleo de mamona ou azeite de peixe, nos pórticos dos conventos, nos nichos dos devotos ou nos portões dos fortes à beira-mar.

O fisco era pesado e os capitães-mores, quase sempre arbitrários e inflexíveis. Os forasteiros transitavam a cavalo. Não circulavam berlindas. Caminhava-se a pé.

 

NOTAS

(*) Foi demolido em fins de 1964.

(**) Hoje SENAI e Estação Rodoviária.

 

Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2017

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