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Zacharias Fernandes Moça

Zacarias Fernandes Moça

Certos homens, nasceram com uma extrema capacidade de cultivar como um tesouro a dignidade e a lealdade. Homens forjados na disciplina, na nobreza de caráter, na honestidade, cuja palavra selava um acordo com maior segurança do que uma simples assinatura.

Homens dos quais ouvimos falar, exaltados pelos saudosistas, alguns tidos como lendas, ou como seres saídos do sonho ou da fantasia dos que acreditam na perfeição.

Thomas Carlyle, um grande pensador, comentou certa vez, que a verdade é que todas as vezes em que falamos nas boas intenções, sobretudo se recorremos à eloqüência e visamos a admiração dos presentes é quando menos probabilidade temos na nossa vida de transformar estas intenções em realidade.

Mas nada melhor do que a eternidade para nos dizer da veracidade de tais conceitos divulgados, quando nos vemos diante do vulto de alguém desaparecido, cujos traços de sua personalidade provocam os mesmos sentimentos de espanto que nos causam certos astros quando riscam o misterioso negrume da noite estrelada.

ZACARIAS FERNANDES MOÇA, comerciante, homem simples, deixou, ao morrer, este mesmo sentimento de grandiosidade, mostrando-se em seu leito mortuário ainda maior do que vivo.

Nascido na Póvoa do Varzim, em 16 de fevereiro de 1912, este português com a têmpera de bronze de Camilo Castelo Branco, decidiu vir para o Brasil, após ouvir de seu pai as experiências que viveu em viagens à Amazônia.

Chegou ao Brasil no dia 26 de julho de 1929, com apenas 17 anos, radicando-se em Vitória. Chegou disposto a fazer do trabalho a razão maior do seu triunfo. Foi garçom do bar Jaú, seu primeiro emprego, oportunidade que seu patrício Lázaro Pinto Marques lhe deu. Um ano e meio depois viu-se desempregado por influência da recessão causada pelo impacto da revolução de 1930. Sobreviver passou a ser a única meta do valoroso jovem lusitano. O fato de estar num País estranho jamais o desanimou e associando-se a Manoel Gonçalves, fundou a Sociedade Gonçalves & Moça, estabelecida na Rua Sete de Setembro, 86, antiga Fonte Grande, comerciando com frutas, verduras e bebidas.

Em 1932, Manoel Gonçalves deixou a firma e ZACARIAS assumiu a responsabilidade da empresa, que já se iniciava pelo negócio de ferro velho. Três anos depois, não podendo prosseguir no lugar, devido á expansão de suas atividades, transferiu sua firma para a Rua do Comércio, atual Av. Florentino Avidos, nº 335, onde, até hoje, funciona a empresa, sob a direção de seus filhos, seus continuadores.

ZACARIAS FERNANDES MOÇA, filho de Manoel Fernandes Moça (pescador) e Dona Virgínia Gonçalves de Castro, dona-de-casa, cursou até o segundo ano primário na Escola Municipal da Póvoa de Varzim, em Portugal.

Guardava de sua infância grande saudade e, embora distante, jamais esqueceu de sua terra-natal e os amigos e parentes que lá ficaram.

A morte prematura de sua primeira esposa, que muito o ajudou nas horas mais difíceis da vida, causou uma imensa ferida em sua alma sensível. Da mesma forma, a morte de seus pais, em Portugal, tão distante provocou terrível impacto nos sentimentos de ZACARIAS, pois razões irremovíveis contrárias à sua vontade, impediram-no de ir vê-los com maior freqüência em 18 anos vividos no Brasil. Finalmente, ao perder seu filho-caçula, fruto do primeiro matrimônio, sendo ele ainda muito jovem, pois contava 28 anos, aumentaram as tristezas íntimas que faziam crescer dentro do seu peito uma insuportável nostalgia.

Para ele, foram sempre momentos de muita tristeza não poder trazer, para junto de si, seus pais e sua irmã-caçula, oferecendo-lhes todo o conforto que mereciam. ZACARIAS FERNANDES MOÇA jamais se conformou em ter deixado sua terra-natal em busca de novos horizontes e jamais ter podido regressar, malgrado as raízes da terra brasileira já o tivessem definitivamente fixado à sua nova Pátria.

O amor desabrochou para ele, com uma coisa maravilhosa, necessária a todo ser humano, impulsionando-o a lutar e viver intensamente, como quem descobre o desabrochar de uma flor para a grande aventura do Mundo. Sempre respeitou e aceitou o casamento dentro dos seus princípios religiosos, vendo-o como uma instituição sagrada, a qual o casal devia respeito mútuo em benefício de um relacionamento sadio e harmonioso. Se assim pensava, assim vivia. Para ZACARIAS FERNANDES MOÇA a família era uma dádiva divina, os filhos algo que devia cuidar com muito amor, carinho e proteção, transmitindo-lhes seus valores morais, religiosos, intelectuais, preparando-os, finalmente, para o difícil exercício da vida.

Quem o conheceu costuma dizer que o velho ZACARIAS sempre enfrentou o mundo com uma coragem de leão, com a audácia de um deus e com toda força e vigor da mocidade, sem temer nada, nem ninguém, senão a Deus, confiante na sua grande capacidade de trabalho e na sua imensa vontade de vencer. Era um homem que costumava conquistar todos que dele se aproximavam.

Dotado de um grande coração, sentimental ao extremo, embora muitas vezes parecesse rude, na realidade pretendia dar aos outros a coragem que precisavam e que haviam perdido. Foi um marido exemplar e um pai extremoso, dedicando-se de corpo e alma à família, que considerava um tesouro demasiadamente preciso. Foi um homem bom, justo e humanitário, ajudando aos outros por mero prazer de servir. Responsável, jamais desculpou o ócio e a dependência de algumas pessoas. Para ele, todos tinham que trabalhar. Foi assim que educou sua numerosa família. Tendo percorrido um árduo caminho, iniciado nos difíceis anos vinte, assistiu e viveu o eclodir da histórica recessão do mundo capitalista, tendo sofrido privações e contrariedade que o seu grande ânimo soube suplantar até atingir a posição de destaque nos meios comerciais de Vitória.

Uma das grandes qualidades que ZACARIAS FERNANDES MOÇA sempre cultivou foi saber ser “gente” para com todos, uma vez que todos eram importantes para ele. Bastante estimado, havia uma razão: Ele foi tão bom, tão pronto a ajudar aos outros que, muitas vezes, esquecia de si mesmo.

Dentre muitas facetas de sua vida, amar a natureza, principalmente o mar, era uma constante. O mar o atraía por ter nascido numa praia tão linda, como é Póvoa de Varzim. Um grande prazer que jamais deixou de cultivar: viajar para rever sua Pátria (Portugal) onde percorria todos os lugares que mexiam com as suas lembranças e tocavam o fundo de sua alma. Gostava também de ler jornais e revistas, especialmente os que se referiam a Portugal e, como bom lusitano, apreciava bons vinhos, a comida portuguesa e a brasileira às quais jamais renunciava.

ZACARIAS FERNANDES MOÇA oferecia à sua família dedicação, amor, carinho segurança e calor humano. Era sua motivação de vida, sua razão de progredir mais e mais, para dar tudo que seus filhos necessitassem. Ele deixou os seguintes descendentes: FILHOS – Zacarias Fernandes Moça Filho; João Fernandes Moça; Antonio Fernandes Moça; Roberto Fernandes Moça; Emília Fernandes Moça Vasconcellos; Margarida Fernandes Moça; Luiz Fernandes Moça (falecido); Rogério Fernandes Moça; Renato Fernandes Moça e Virgínia Fernandes Moça. NETOS: Zacarias Fernandes Moça Netto, Danielle Ítala Fernandes Moça, Thiago Ítala Fernandes Moça; Luíza Busatto Fernnades Moça; Rodrigo Busatto Fernandes Moça; Leonardo Busatto Fernandes Moça; Andressa Gehardt Fernandes Moça; Fátima Gehardt Fernandes Moça; Roberto Fernandes Moça Filho; Heloísa Fernandes Moça Vasconcellos; Henrique Fernandes Moça Vasconcellos e Maria Emília Fernandes Moça Vasconcellos.

Em vida, ZACARIAS FERNANDES MOÇA defendeu sempre a filosofia de força de vontade, perseverança, dinamismo, firmeza de caráter. Ele foi útil à Sociedade, à família, à cidade, dentro do seu principal objetivo: PROGREDIR E SERVIR. Foi através de sua enorme força de vontade e inegável perseverança, que ele conseguiu conquistar uma posição de relevo que, de certa forma, enobreceu os integrantes da Colônia formada pelos que lutavam, como ele próprio, distantes de sua Póvoa de Varzim, em Portugal.

Ele morreu sem começar a grande obra dos seus sonhos, que não conseguiu levar ao final, a Laminação Glória, que iria diversificar sua atuação dividindo a nova atividade com a sua atuação no comércio de ferragens.

Sem grande cultura, a vida foi inegavelmente a sua grande escola, a universidade dos homens que triunfam longe dos bancos escolares, valendo-se da própria capacidade e da grande experiência adquirida nos caminhos do trabalho e nas lutas pela sobrevivência. Possuiu uma memória sem igual e uma inteligência assombrosa, principalmente para o comércio. Além de Portugal, ZACARIAS conheceu Paris, antes de morrer. Mas seu grande amor por Portugal, não era, nem nunca foi, menor, nem maior do que pelo Brasil, país que o acolheu e que teve a honra de abrigá-lo em sua última morada, como um filho muito querido.

Se fosse vivo e alguém lhe perguntasse qual o conceito que faria de um Homem, ele certamente responderia: Um Homem deve primar pela personalidade, dinamismo e firmeza de caráter, respeitando-se mutuamente, e sendo portador de uma garra capaz de enfrentar qualquer situação, e cujo ideal deve ser: VENCER PELO TRABALHO E SERVIR PELA SOLIDARIEDADE.

Quando tocou silêncio e a cortina da vida fechou-se para ZACARIAS FERNANDES MOÇA, ao baixar à sepultura, seu caixão levava três saquinhos de areia que trouxera de Portugal: um com terra do quintal de sua casa que lá construíra, outro, das ruas de sua cidade-natal; e o terceiro do cemitério local, e algumas conchas das distantes praias de além-mar, que nunca mais serão vistas pelo inesquecível lusitano. Quando o cortejo passou em direção à última morada de ZACARIAS FERNANDES MOÇA, em sua homenagem o comércio fechou as portas. Uma atitude de respeito e saudade, de quantos souberam conviver e estimar aquele que partia, cuja vida foi uma bandeira de honradez e dignidade. Uma vida nascida no mesmo cenário legendário em que desabrochou o seu imortal conterrâneo Eça de Queirós: Póvoa de Varzim.

 

Fonte: Personalidades do Espírito Santo. Vitória – ES. 1980
Produção: Maria Nilce
Texto: Djalma Juarez Magalhães
Fotos: Antonio Moreira
Capa: Propaganda Objetiva
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2020

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