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Maria Ortiz: mea culpa...
Espírito
Santo, perdoe-me, pois errei. Confesso: parte da culpa é
minha, se a Caprichosos de Pilares “rebaixou”
Maria Ortiz à condição de prostituta.
Falsifiquei a história, profanei a memória da
heroína e ultrajei a honra do povo capixaba. Quero
penitenciar-me, publicamente.
Em 2002, na pressa de cumprir prazos para publicar um livro
sobre a História do ES, não fui criterioso o
bastante para confrontar os documentos sobre Maria Ortiz e,
baseando-me apenas em fontes secundárias, concluí,
equivocadamente, que ela “era prostituta, proprietária
de um bordel em Vitória”. Cometi uma “heresia
histórica”, mesclando ficção e
realidade. Conforta a minha consciência, no entanto,
a convicção de que não estou sozinho
nesse processo de falsificação do passado e
mutilação da história. Explico-me.
Na versão oficial, a única fonte primária
referente a Maria Ortiz é uma carta datada de 1625,
onde o donatário da Capitania do Espírito Santo
informou ao Governador Geral do Brasil como os capixabas reagiram
ao ataque dos piratas holandeses a Vitória. Eis parte
do relato: “Na repulsa dos invasores audaciosos é
de justiça destacar a atitude de uma jovem moça
que astuciosamente retardou o acesso dos invasores à
parte alta da vila, permitindo que organizássemos a
defesa da sede. Essa jovem se tornou para todos nós
um exemplo vivo de decisão, coragem e amor à
terra”.
Exposto o fato, surgem as dúvidas. A “jovem moça”
citada nesse documento é a nossa Maria Ortiz? Na descrição
do acontecimento, a testemunha ocular não faz menção
ao tacho com azeite quente, água fervente e aos demais
objetos “pedras, paus, brasas) com os quais acredita-se
que Maria Ortiz “queimou horrivelmente” os invasores
e “decidiu a batalha”. Quando, onde e por que
esses “pequenos detalhes” foram acrescentados
à versão original, transformando Maria Ortiz
(?) em super-heroína?
O escritor Afonso Cláudio, em 1909, já alertava
que o “empolgante episódio de Maria Ortiz”
foi adornado com elementos maravilhosos. Uma narrativa histórica
lendária tem sido perpetuada pela tradição,
inventando significados simbólicos para o gesto daquela
“jovem moça”. Todavia, o francês
Jean Chesneaux adverte que o historiador “que cria falsas
lendas para o povo ou que o agrada com histórias melodiosas,
é tão criminoso quanto o geógrafo que
elabora mapas mentirosos para os navegadores”.
Absolva-me, Espírito Santo!
Fonte: A Gazeta 02/03/06
Autor: José Pontes Schayder é professor
de História e autor do livro “História
do Espírito Santo: uma abordagem didática e
atualizada”.
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Maria
Ortiz, heroína inesperada
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Maria
Ortiz
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