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Maria Ortiz, heroína inesperada
O
prazer de Maria Ortiz era rolar pela ladeira do Pelourinho
dentro de uma ancoreta vazia. Tinha nove anos nessa época.
Seu pai, o espanhol Juan Orty y Ortiz, veio para o Espírito
Santo em 1621, quando Felipe III facilitou a imigração
de estrangeiros para o Brasil. Negociava com vinho e mantinha
uma taberna no térreo de um sobrado branco, na parte
mais estreita da ladeira do Pelourinho. O vinho era trazido
da ilha da Madeira nas ancoretas que os negros carregavam
na cabeça, do porto dos Padres até a taberna
de Juan Ortiz. Ali ficavam empilhadas e iam sendo esvaziadas
à medida do consumo pela gente da vila de Nossa Senhora
da Vitória.
O contrato de Juan Ortiz com seus fornecedores previa a reposição
dos estoques segundo partidas anuais, o que raramente se verificava.
O comum era o taberneiro e seus fregueses ficarem na falta
da bebida, esperando que chegasse a Vitória uma das
naus da ilha da Madeira, com o precioso líquido. Quando
isto acontecia, as ancoretas usadas eram trocadas pelas cheias,
e recomeçava o ciclo da venda e do consumo do vinho
verde na ilha de Vitória.
Mas nem todas as ancoretas eram substituídas. Algumas
ficavam perdidas na rolagem da ladeira do Pelourinho, quando
Maria Ortiz se enfiava dentro delas, nos folguedos de rola-montanha,
às vezes só, às vezes ajudada pelo molecote
que servia à sua mãe, a andaluza Carolina Darico.
Carolina era o que se pode chamar de uma mulher cônscia
das responsabilidades do lar. E este hábito elogiável
impunha à filha com firmeza. Seus gritos para Maria
Ortiz sair de dentro do barrilete rolador e vir limpar a casa
ou ajudar no preparo do almoço faziam tremer a rampa
do Pelourinho muito mais do que os uivos de dor dos açoitados,
punidos no poste da lei, no alto da ladeira. A menina voltava
para casa aos saltos, pois sabia que quanto mais demorasse
em atender ao chamado materno mais secos seriam os cocurutos
reservados à sua cabeça. Mas nem por isto deixava
de voltar à sua brincadeira preferida sempre que Carolina
Darico se distraía ou quando se ausentava de casa,
e sempre que havia ancoretas disponíveis, na taberna
do pai.
Num certo dia de março de 1625, o barrilete em que
Maria Ortiz arremeteu, ladeira abaixo, abriu-se exatamente
aos pés de uma tropa de holandeses que se preparava
para investir contra o alto da vila de Vitória. Se
a menina sobressaltou-se ao pular do barril despedaçado
diante das botas dos soldados, armados de arcabuzes e alabardas,
estes irromperam em gargalhadas e gracejos obscenos, ante
o que seus olhos viram: uma criança tonta, brotando
assustada das tábuas de uma ancoreta justamente antes
de um assalto militar, quando o momento exigia concentração
e fúria, para o êxito dos combates.
Não era segredo para Maria Ortiz, nem para ninguém
que os holandeses, com seus navios surtos na baía,
estavam prestes a descer em terra e assaltar a vila, que organizava
como podia a sua defesa. Naquela manhã, o próprio
Juan Orty y Ortiz, ao sair de casa e fechar a taberna para
participar como escrivão da câmara, de uma reunião
de guerra convocada às pressas, recomendara cuidado
à mulher e à filha. "Além do mais,
são luteranos esses batavos", advertira.
Carolina Darico ouviu o marido e olhou imediatamente para
a filha, como se quisesse incutir no cérebro da menina,
pela força do olhar, a advertência do pai. Depois
foi a sua vez de fazer recomendações quando
teve de ir à pedra do porto dos Padres comprar os peroás
do almoço porque, apesar de haver barcos flamengos
ancorados na baía, a vida continuava na vila de Nossa
Senhora da Vitória: "Olhe, lá, pequena,
não me botes os pés fora de casa que essa gente
tem parte com o Capeta. Feche portas e janelas e cuides do
feijão, que está a cozer ao fogo".
Mas Maria Ortiz não deu ouvido ao pai e nem à
mãe. Valeu-se da ausência de ambos, pegou um
barrilete debaixo da escada da casa, que seu pai fazia de
depósito da taverna, e, dentro dele rolou pela rampa
do Pelourinho até aos pés dos holandeses.
As gargalhadas e deboches fizeram-na correr para casa, acabrunhada.
Seus brios ofendidos exigiam uma reparação à
altura. "Pois que seja à custa do feijão,
que está quase a queimar", decidiu Maria Ortiz
dirigindo-se à janela com a panela fumegante segura
pelo cabo. Embaixo, subia a tropa, com reflexos de sol nos
capacetes.
Muitos holandeses viram a menina aparecer na sacadinha em
forma de balcão sem adivinhar o que lhes reservava
o feijão quase bispado. Enxergaram apenas a criança
que, minutos antes, emergira a seus pés de um barril
arrebentado, fedendo a vinho e com os cabelos desgrenhados.
Mas já não era hora para pilhérias e
risadas. O ataque à vila de Nossa Senhora da Vitória
estava em marcha, não se podia perder tempo à
toa.
Foi preciso que o feijão fervente caísse sobre
suas cabeças para que os atingidos percebessem que
deviam ter dado mais atenção a quem muita atenção
lhes tinha dado, e que agora ria, acima deles, um riso dançarino
que iluminava seus dentes miúdos e apertados, porque
ri melhor quem ri menina, e riem muito mais as crianças
humilhadas quando vão à forra, verdade que os
batavos tinham esquecido.
Expulsos os invasores do Espírito Santo, seguiram-se
as comemorações da vitória. No senado
da câmara, uma sessão solene teve lugar. E em
meio a discursos e aclamações dirigidas ao rei
Felipe III e à Fé Católica, Maria Ortiz
foi agraciada, por seu gesto heróico, com uma coroa
de margaridas amarelas, posta sobre sua cabeça pelo
escrivão Juan Orty y Ortiz.
A menina sorriu o risinho dançarino que lhe iluminava
os dentes miúdos e apertados, recebeu na fronte o beijo
paterno recendendo a vinho da Madeira, mas pensou que melhor
do que as margaridas com que fora coroada seria ganhar de
presente uma ancoreta mais resistente.
Fonte: Crônicas da insólita fortuna (Site
Estação Capixaba)
Autor: Luiz Guilherme Santos Neves
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