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Índios selvagens e civilizados
Fonte: Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce
Autor: Auguste de Saint-Hilaire
Nota
do Site: Panorama do Espírito Santo no início
do século XIX.
Índios Selvagens
No tempo da expulsão dos Jesuítas, não
havia selvagens em todo este distrito (sul do Espírito
Santo); somente seis ou oito anos depois dela, começaram
eles a cometer estragos (escrito em 1818). Da primeira vez
que se fizeram notar, mataram animais a dentadas, cavalos,
homens; e depois renovaram carnificinas e devastações.
Citarei um fato que me foi narrado por dois dos meus negros
e terei cuidado em nada alterar. “Os selvagens atacaram,
há um par de anos, os vaqueiros de Muribeca e se apoderaram
de um negrinho de 10 a 12 anos de idade. Sabendo o que se
passava, o chefe da fazenda mandou imediatamente, no encalço
dos indígenas, cinco escravos bem armados, entre os
quais estavam esses meus dois negros.
Os escravos surpreenderam os selvagens sentados ao redor de
uma fogueira e, atacando-os a tiros de espingarda, mataram
muitos. Depois, aproximando-se do fogo, encontraram o corpo
do negrinho, do qual os índios haviam arrancado pedaços
que já estavam assados em parte. Cortaram, para mostrá-la
a seu chefe, a cabeça de um dos índios que morreram
no lugar e enterraram os restos do negrinho”.
Felicíssimos fomos em regressar ao posto de Boa Vista
(Bela Vista) sem nos haver aparecido qualquer selvagem.
O posto, como já disse, foi instalado depois que os
índios começaram a fazer devastações
nesta província. Compõe-se de vinte homens comandados
por um subtenente (alferes) e alguns deles são continuamente
destacados para defender as margens do Rio Cabapuana e outros
pontos igualmente ameaçados.
Itapemirim
Seguimos para a Vila de Itapemirim. A Vila está apenas
em formação, mas o nome que tem, e que em guarani
significa pequena pedra chata, foi dado a seu território
pelos índios provavelmente mesmo antes do descobrimento
do Brasil, pois já o encontramos citado no relato muito
interessante de Jean de Léry, publicado por volta dos
meados do século XVI.
É possível que nesta parte tivesse havido choças
de índios ou cabanas de portugueses. Somente em junho
de 1811 foi que se deu a Itapemirim o título pomposo
de Vila.
Índios Civilizados
Tempos depois, cheguei a Benevente. Tão logo desembarquei,
fez-se um círculo à nossa roda e, a cada instante,
mais aumentava a gente. Índios civilizados, negros,
luso-brasileiros todos no olhavam quase mudos, com jeito estranho
e estupidificado.
Quando expulsou os jesuítas, a Administração
destinou aos índios civilizados de Benevente uma área
inalienável de seis léguas por outras tantas,
mas, sendo fértil o lugar, os governadores logo deram
aos seus amigos partes dessas terras, sem considerar o direito
dos indígenas, que reclamaram inutilmente.
Entretanto, para poder comprar aguardente, muitos índios
cederam suas propriedades aos brancos, os quais, para se garantirem
no gozo do valor declarado inalienável, se comprometeram
a pagar pequena retribuição à Municipalidade
de Benevente.
Outros indígenas, ao deixar a região, não
fizeram venda alguma e portugueses tomaram, pura e simplesmente,
posse de suas terras. Contudo, hoje se dão sesmarias
em todo o distrito, sem sequer exigir aforamento para a Câmara;
o Ouvidor da Vila da Vitória tem o título honorífico
de conservador das possessões dos índios de
Benevente, mas, na realidade, nada mais tem a conservar.
As mencionadas terras têm passado, quase todas, pelas
mãos dos luso-brasileiros, e os índios se comprazem
em cultivar campos que deveriam semear para si mesmos.
Quando o índio pede justiça contra o português,
como poderá obtê-lo? É aos amigos e patrícios
de seus adversários que ele é obrigado a dirigir-se,
já que os Juízes ordinários de Benevente
são exclusivamente portugueses. E, ainda, como as queixas
de uma raça de homens pobres e sem apoio chegarão
até aos magistrados superiores, a tão grande
distância desses infelizes e, na maioria das vezes,
surdos à voz dos que se apresentam de mãos vazias?
Pouco a pouco, os índios eram empregados em diversos
trabalhos. Tirava-se de Benevente (1818) certo número
deles, revezados de três em três meses; eram mandados
a trabalhar bem longe de sua habitação; alimentavam-se
mal e, ao cabo do trimestre, só lhes davam 4 mil-réis,
mesmo assim sem regularidade. O temor dessas explorações
ilegais espantou grande número deles e sendo, principalmente,
homens que abandonam a região, sem encontrar mulheres,
em outra parte, ficaram perdidos para a população.
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