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Vila Velha, cidade nova
Nota
do Site: Esse texto foi escrito em 30 de novembro
de 1992. De lá para cá, algumas coisas mudaram,
outras não. Leia o texto e fique à vontade para
enviar seus comentários para nosso e-mail: contato@morrodomoreno.com.br
.
Em
Vila Velha, todos concordam que a Terceira Ponte reavivou
a cidade. Ela vinha cansada por décadas de congestionamentos
nas duas primeiras pontes. De repente, a partir de agosto
de 1989, as praias do Canto e da Costa se tornaram próximas,
permitindo trabalhar numa cidade e morar na outra, incluindo
a volta para o almoço.
Perto
de completar 80 anos, o ex-senador carioca Mário Martins,
residente em Vila Velha desde 1979, chega ao requinte de estabelecer
uma nova categoria para a cidade. Antes, era cidade-dormitório.
Agora, é uma cidade residencial. A diferença,
explica ele, é que antes da Terceira Ponte muitos habitantes
de Vila Velha só voltavam à noite, para dormir.
Agora, muitos dos que trabalham em Vitória almoçam
em casa. Passaram a viver a cidade de dia, ao longo da semana.
A ponte rodoviária estabeleceu uma ponte humana praticamente
desconhecida em Vila Velha, cidade com longa tradição
em isolamento, busca e espera.
Esquecidos
nos primóridos do Espírito Santo, Vila Velha
sobrevivieu ao trauma dos primeiros anos, quando a maior parte
de sua população fugiu para a Vitória
como meio de sobreviver aos índios. Abandonada à
própria sorte, ficou à mercê de índios
e piratas. E dos pernilongos.
Em
1828, quando o Espírito Santo emergia de 300 séculos
de letargia, Vila Velha (então denominada Espírito
Santo) tinha apenas 1.250 habitantes. Era menor do que Nova
Almeida, com 1.734, ou do que Itapemirim, com 1.835. E nem
chegava aos pés de Vitória, 12.704.
Durante
mais de 400 anos, Vila Velha manteve-se enrodilhada ao redor
da Prainha, onde aportara o fundador Vasco Coutinho, em 1535
- no mês de maio, sob o signo mágico da constelação
de Gêmeos.
A
mais antiga vila do Espírito Santo estava predestinada
ao segundo plano. A vila velha derrotas e a vila nova da vitória
são como irmãs, as duas forças do mesmo
processo, o positivo e o negativo, que se aliam e se completam
em busca de uma integridade que se rompeu nas origens remotas
do território. Por isso, mais até do que as
duas primeiras pontes, a Terceira Ponte promoveu o reencontro
das vilas que cresceram desiguais, apesar de próximas,
e permanecem unidas, a despeito de diferenças e rivalidade
abertas pelo tempo. Hoje, a cordialidade emntre Vila Velha
e Vitória praticamente jogou no esquecimento o antigo
apelido dos vila-velhenses, chamados de "canelas-verdes"
- segundo uma versão - porque as águas da Prainha,
onde encostavam os barcos, eram cheias de limo que grudavam
na perna dos passageiros, quando eles saltavam ao largo. Muitos
vila-velhenses desconhecem esse apelido, cujas origens se
perderam no tempo. A mais antiga explicação
para o apelido canela-verde encontra-se num livro do final
do século XVI. Segundo o historiador Miguel Kill, da
UFES, nessa obra o autor assinala que os soldados estacionados
na Vila Velha usavam calças de cor verde.
Essa
versão faz sentido porque os soldados sempre fizeram
parte da paisagem da cidade. O Exército foi a instituição
mais importante de Vila Velha, durante seus quatro primeiros
séculos de existência. A única instituição
vila-velhense a lhe fazer sombra, ao longo do tempo, foi o
Convento da Penha, construído entre 1558 a 1570. Neste
século, Vila Velha assitiu ao surgimento de outras
atrações, algumas já desaparecidas, como
o bonde, que se tornaram referências básicas
na geografia da cidade. Uma delas é o serviço
de lanchas, que continua a desafiar tantas quantas forem as
pontes entre Vitória e sua irmã mais velha.
Outra, criada em 1929, é a fábrica de chocolates
Garoto, talvez o primeiro produto industrial capixaba a provar
que o Espírito Santo não era só café
e madeira.
Apesar
de se ter tornado, em anos recentes, uma das maiores cidades
do Espírito Santo, Vila Velha não possui certos
ingredientes comuns em cidades menores. Ela não tem
times na primeira divisão do futebol - já teve
o Atlético, o Vila-Velhense e o Vasco Coutinho. Tampouco
possui um jornal diário. E sua longa história
praticamente não está registrada por escrito,
como convém às cidades históricas.
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