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A lenda do Frade e a Freira
"O
FRADE E A FREIRA", formação granítica
gigantesca natural de 683 metros de altitude na divisa de
Cachoeiro de Itapemirim com Rio Novo do Sul e Itapemirim,
próximo a BR 101. São duas montanhas geminadas
que formam as figuras de um Frade e uma Freira como que esculpidas
em granito.
Esta
é uma das escaladas mais tradicionais do Espírito
Santo. A escalada dura 60 minutos e é acessível
a qualquer pessoa. O final é no topo do Frade. Lá
no alto, em meio à vegetação rasteira
e ao assobio dos pássaros, dá para apreciar
o mar e as cordilheiras do Caparaó.
Os
alpinistas saem dali para um rappel de 300 metros até
o "colo" da Freira. Para fazer passeios é
só agendar através dos telefones (28) 5511-0443
ou 9884-2020.
O
local deu origem a uma bonita lenda, que vale a pena conhecer:
Conta
a lenda que há muitos anos atrás um padre apaixonou-se
por uma freira. Como o amor entre eles era impossível,
foram transformados em pedra para que esse amor fosse eternizado.
Mas,
há discrepâncias sobre a lenda. Confira no texto
de José Augusto Carvalho:
Em
1938, no livro de edição particular, Escada
da vida, o poeta cachoeirense Benjamin Silva inseriu um soneto
em que conta a versão mais difundida da lenda.
"Na
atitude piedosa de quem reza, / E como que num hábito
embuçado, / Pôs naquele recanto a natureza /
A figura de um frade recurvado. /§/ E sob um negro manto
de tristeza / Vê-se uma freira tímida a seu lado,
/ Que vive ali rezando, com certeza, / Uma oração
de amor e de pecado... /§/ Diz a lenda - uma lenda que
espalharam - / Que aqui, dentre os antigos habitantes, / Houve
um frade e uma freira que se amaram... /§/ Mas que Deus
os perdoou lá do infinito, / E eternizou o amor dos
dois amantes / Nessas duas montanhas de granito."
Em
1968, Maria Stella de Novaes publicou um livro de 163 páginas
intitulado Lendas Capixabas, pela FTD, em que contesta essa
versão eternizada por Benjamin Silva, sob a alegação
de que as freiras só chegaram ao Espírito Santo
no início do século XX, e que "Uma lenda
não pode incidir num anacronismo. Nem discrepar da
História"(p. 56).
Rodrigo
Campaneli, em 2004, publicou um livro com o título
As mais belas lendas capixabas, editado em Vitória
pela Casa de Artes Campaneli Ltda. A primeira lenda que ele
reconta intitula-se O Frade e a Índia (p. 8-11), em
que substitui a figura da freira pela de uma indiazinha, sob
a mesma alegação de Maria Stella de Novaes de
que a lenda não pode discrepar da História e
de que não havia freiras aqui no séc. XVII.
No
entanto, uma lenda pode dar-se o luxo de falsear a história.
A Canção de Roland, por exemplo, é uma
lenda. No entanto, Carlos Magno é, na gesta francesa,
imperador da França, usava barba e era um velho de
quase duzentos anos. Em primeiro lugar, à época
em que se desenrola a cena da batalha de Roncevaux (Roncesvales),
Carlos Magno ainda não era imperador (778). Só
o seria vinte e dois anos depois. Em segundo lugar, Carlos
Magno nunca foi imperador da França, porque a França
ainda não existia, no século VIII, como nação.
Em terceiro lugar, à época de Roland não
se usava barba, mas apenas bigode. A barba longa era moda
do século XII, século em que a canção
foi escrita. Em quarto lugar, Carlos Magno não atingiu
os duzentos anos. À data da batalha de Roncesvales,
Carlos Magno tinha pouco mais de trinta anos. Uma lenda, portanto,
pode ter anacronismos.
Finalmente,
com relação a discrepar dos acontecimentos reais,
a Canção de Roland também falseia a História.
A batalha em que Roland pereceu não era contra os mouros
(que o poeta da canção chama, falsamente, de
idólatras), mas contra montanheses bascos.
Assim,
ao contrário do que pretenderam Maria Stella de Novaes
e Rodrigo Campaneli, uma lenda pode apresentar tanto anacronismos
quanto discrepâncias históricas. O fato de uma
índia usar um manta, segundo a versão desses
dois autores, parece-me mais discrepância histórica
do que a que foi apontada na versão de Benjamin Silva.
Que
importa na ficção a realidade histórica?
A versão que deu nome às montanhas (o amor entre
um frade e uma freira eternizado em granito pelo perdão
divino) é muito mais poética e muito mais bonita.
Por que destruí-la?
José
Augusto Carvalho, jornalista, escritor, tradutor,
mestre em Lingüística pela UNICAMP e doutor em
Língua Portuguesa pela USP, é mineiro de Governador
Valadares e capixaba por adoção.
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