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A Condessa da Praia da Costa
A
Condessa da Praia da Costa era dona Elfrida que conheci, sendo
que a Revista Capixaba em meados para o final dos anos 60
publicou matéria fotográfica sobre a mesma chamando-a
desse título.
Ela era mãe de alunos que estudaram no meu tempo no
Colégio Marista na Praia da Costa e conheci o marido
dela.
Bem mais tarde a revi como professora da UFES e como intérprete
da CVRD. Depois ela já viúva e doente, a visitei
morando no Morro da Lagoa perto da Ponta da Fruta em Vila
Velha, quando nos atendeu muito bem, levei umas laranjas de
fazer doce cedidas por um amigo comum.
Estávamos numa faze de contatar personagens de Vila
Velha para deixar depoimentos, para a história contemporânea,
sendo que ela contou-me de forma resumida algum aspecto da
vida dela, e mostrou-me inclusive lembrança que trouxera
da Europa de escavações arqueológicas
que participara, que era uma ponta de lança de bronze,
reutilizável do tempo dos romanos.
Esses guerreiros, procuravam ser práticos e não
perdiam oportunidade de reaproveitar uma ponta de lança,
caso a madeira da mesma quebrasse e assim as pontas eram feitas
com um encaixe perfeito, para sua reutilização.
Era obra de hábeis ferreiros da época. Pois
bem, mas quem era esse casal?
O nome dela era a rigor Elfride Orssich Slavetich, formada
em arqueologia pré histórica na universidade
de Praga, hoje capital da República Theca.
Foi assistente científica da cadeira de pré
historia da Universidade de Viena - Áustria, tinha
esse sobrenome eslavo por conta do marido, um croata. Ela
seria de uma casa detentora de título de nobreza do
extinto império Austro Húngaro dissolvido no
final da Primeira Guerra Mundial em 1918.
Talvez nobre seria o marido ou ambos, questão a esclarecer.
Dona Elfrida, como conhecíamos, veio a falecer e recebeu
homenagem do segmento das artes plásticas, na mostra,
"Luzes para Elfrida" que ocorreu na sede do Instituto
Jerônimo Monteiro em Vitória, quando revi um
de seus filhos, que há muito não contacto.
A partir de então, o espaço desse Instituto
para ocorrer exposição de artes plásticas
chama-se Galeria Elfrida Orssich Slavetich.
Vários aspectos da vida dessa importante família
poderão oportunamente ser melhor esclarecidos, para
enriquecer a história canela verde.
Pela Revista de Cultura nº 19 da UFES, de 1981, o marido
dela, Adam Orssich Slavetich, nascera em 1895 na Croácia,
e doutourou-se em Arqueologia pela Universidade de Viena,
tendo desenvolvido inúmeros trabalhos arqueológicos
na antiga Iugoslávia e na Áustria.
Veio para o Brasil em 1951, e me recordo que Dona Elfrida
me contou, eles estiveram primeiro no Paraná, depois
o mesmo veio trabalhar com pedras preciosas no vale do Rio
Doce em Minas Gerais, e em seguida vieram para Vila Velha,
e aqui faleceu em 1968, aos 73 anos.
Referente a sambaqui que observou existir em Vila Velha, Adam
deixou a observação: observei restos indubitáveis
de um sambaqui recentemente destruído na margem de
uma lagoa que se acha ao pé do Morro de Nossa Senhora
da Penha a leste. Além de terra tipicamente preta misturada
com conchas, vi numerosos fragmentos de ossos grandes, possivelmente
humanos.
Dessa região Alberto Stange fez referência a
existência de restos de sambaqui, e a lagoa citada é
o remanso do meandro que o leito antigo do Rio da Costa fazia,
antes de sair na Barrinha.
A destruição final do sambaqui fatalmente ocorreu
quando da abertura da retificação desse curso
d'água, cujo eixo principal ficou em linha reta, foi
executado pelo DNOS no final dos anos 50, formando o que é
hoje o Canal da Costa.
Na época não se falava em impacto ambiental
de uma obra e nem de medidas mitigadoras, e muito pouco de
preservação de manguezais e de sítios
arqueológicos.
Pesquisa apurada no que resta, bastante degradado, talvez
conseguiria achar alguma coisa significativa.
Essa lagoa era muito conhecida pelos moradores de Vila Velha
pois no que a poluição era quase nenhuma, pescava-se
muito no local e até banhavam-se e mergulhavam. Hoje
quem passa pela Terceira Ponte a vê agonizante dia após
dia.
Sempre contou nos trabalhos de campo e de escritório
com a colaboração de sua esposa.
O Irmão Evaldo do Colégio Marista de certa feita
andou pesquisando sambaqui com Adam na região da Serra.
O arqueólogo deixou um "Relatório preliminar
sobre observações arqueológicas no território
do Estado do Espírito Santo e métodos de pesquisa
empregável na localização, e registro
de sítios arqueológicos e pré-históricos".
Adam observava que amontoados em sambaquis não são
formigueiros e distam poucos metros um dos outros e têm
diâmetro de 2 a 3 metros.
Creio que para resgate da história de Vila Velha vale
a pena o aprofundamento da pesquisa da biografia desse dinâmico
casal.
Por:
Roberto Brochado Abreu. Membro da Casa da Memória de
Vila Velha. (14/10/2009)
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