|
Augusto Italiano
Falar
de Ponta da Fruta sem falar de Augusto Italiano, fica algo
incompleto, assim de forma inédita segue relato que
elaborei sobre o mesmo, já que fiquei seu amigo no
final da vida quando montávamos a Casa Memória
e ele pessoalmente me relatou fatos que depois, ao ter acesso
a toda documentação que sua afilhada e herdeira
me entregou, enriqueceu a biografia que preparei do citado.
Na época com esse material fizemos até exposição
que poderia ser repetida itinerante na época da festa
da canoa em janeiro de 2010 e é só atrair o
Jorge Góes para a roda.
A
afilhada que herdou alguns bens de Augusto, é irmã
de Jorge Góes, do clã que tem reduto na Ponta
da Fruta, onde a escola municipal homenageia integrante da
famíla desse amigo Desembargador. Augusto fez uma promessa
a N.S. da Penha e a cumpriu ajudando com seu caminhãozinho
a construir a capela de N. S. dos Navegantes, situada até
hoje num belíssimo outeiro na Ponta da Fruta é
que é vista da Rodovia do Sol. Ele era muito amigo
da comunidade local, e levava muita gente para festas com
seu caminhão, como participava de caçadas nos
arredores. O velho Átila Freitas Lima ia muito nesses
arrasta pé, levados por Augusto, que conduzia uma galera
de Vila Velha. Então vamos à biografia de Augusto
Italiano:
PANIZZARDI
AUGUSTO, o Italiano, integrado à vida de Vila Velha
desde que aqui chegou em 1925, aos 15 anos de idade.
Nasceu
em 18 de março de 1910, em Pieve Albignola - Pavia
- Província da Lombardia, situada perto de Milão
na Itália, que nesse época era um Reino sob
a dinastia dos Saboia, então num regime de monarquia
parlamentarista.
Augusto
era filho de Panizzardi Giuseppe (1870) e esse por sua vez
filho de Panizzardi Pietro e G. Felicita, e de Maria Nava
(1872) sendo essa filha de Nava Bernanino e Carena Liugia.
Pelo visto na época como se observa, os italianos colocavam
o sobrenome na frente do pré nome, e aqui em Vila Velha,
o biografado era conhecido por todos por "Augusto Italiano",
um "figuraço" como se diria hoje.
Cursou
a Escola Elementar em sua cidade Natal, ou seja, em Pieve
Albignola. Em sua infância presenciou a Primeira Guerra
Mundial, quando a Itália lutou principalmente contra
os austríacos, tendo havido violentos combates na região
da fronteira com a Áustria. Para contornar a fome que
ocorreu, capturava corvos na neve, no inverno, por meio de
grãos de milho envenenado. Eles ficavam tontos, e eram
pegos e colocados em gaiolas. Após serem cevados para
desintoxicar, eram a seguir abatidos e comidos. Cabe observar
que os corvos são aves de rapina que existem na Europa
e arredores, de tamanho próximo de um pombo.
Augusto assistiu o surgimento do fascismo e da ditadura de
Benito Mussolini. Antevendo a segunda guerra mundial,em 1925,
Augusto aos 15 anos, veio para o Brasil no navio Giulio Cesare,
e chegou em Vila Velha para trabalhar para seu tio materno,
o Giovani Gaspare Nava. Esse havia nascido em Vitória
- ES em 1886 e era estabelecido como comerciante, em Vila
Velha. Giovani era conhecido como João Nava, e passou
a ter o famoso "Hotel" do João Nava, na Prainha,
na rua Vasco Coutinho onde hoje é o novo Praia Hotel.
Desse
Hotel cabe esclarecer quem foi o seu construtor e de que época.
Em foto de aproximadamente 1913 da Prainha esse Hotel já
aparece. Tinha dois andares, e a cobertura por fim era de
lage de concreto, improvisada com uso de trilhos e tijolos
maciços, formando umas canaletas abobadadas invertidas.
Tinha uma escada à direita, depois demolida na grande
reforma e ampliação que deu o formato que tem
hoje, após sua venda feita por Augusto ainda em vida,
em meados dos anos 80 do século XX. Quase tornou-se
sede de uma sociedade secreta, que não logrou êxito
em adquirir o imóvel, por mera questão de um
detalhe que o proprietário não abriu mão.
Embaixo havia um salão, com bar, restaurante e refeitório,
e atráz uma cozinha. Em cima uns quartinhos para alugar
para hóspedes.
Até
sua desativação por volta de meados dos anos
80 muita coisa ali aconteceu, e que merece uma história
a parte. Não pode esquecer-se que ali o próprio
Vigário Padre Odorico Malvino residiu, antes de existir
a Casa Paroquial da rua Luciano das Neves, e ainda em seu
salão ocorria as apresentações da lapinha.
Ali foi fundada a Casa São Vicente de Paulo da Prainha,
e o Dispensário dos Pobres São Judas Tadeu,
antes de terem sede própria em terrenos ao lado, adquiridos
do próprio Augusto Italiano, (por ali residiu por certo
tempo um protegido de Augusto, um certo Senhor Nimbo que era
artista de circo e que tocava instrumentos de funilaria -
uma graça que deixava as crianças encantadas).
Quando veio da Bahia o meio batalhão de exército
precursor do 3º BC, atual 38º BI, nos primeiros
dias tropas ali ficaram hospedadas.
Na
revolução de 30, o Hotel do João Nava,
construção mais alta da Prainha além
da Igreja do Rosário era alvo preocupante caso acontecesse
combates. De seu terraço avistava-se o cais da Prainha
e muitos pontos estratégicos, o que provocou a evacuação
de muitos vizinhos para onde hoje fica o Clube Libanês
na Praia da Costa e para a Barra do Jucú.
Augusto,
tinha cútis branca, cabelos castanhos e olhos esverdeados,
conforme atesta documentos de sua imigração.
Em Vila Velha aprendeu a falar português com o convívio
de parentes que já residiam aqui e contemporâneos
canela verde, porém nunca perdeu seu sotaque de dialeto
lombardo italiano.
Já
em 1927, conseguiu Licença Provisória da Capitania
dos Portos pares atuar como pescador. Em 1928 seus pais vieram
para Vila Velha para também trabalhar para o Sr. João
Nava. Em 1930, com 20 anos, Augusto, tirou carteira de motorista
e dirigiu por essa época o caminhão do Sr. Silvino
Valadares puxando lenha para a Padaria Central da Prainha.
Nessa
ocasião da Revolução de Vargas, o então
Tenente Bley, chefe da coluna dos revoltosos confiscou o referido
veículo e obrigou Augusto a levá-lo e outros
militares até Vitória, para tomarem o Palácio
Anchieta e derrubarem o Governador Aristeu Borges de Aguiar.
O caminhãozinho de boléia coberto com capota
de lona seguiu guarnecido por uma metralhadora, o Tenente
Bley, alguns oficiais, soldados e revoltosos, e Augusto no
volante ...
Lá
chegando, e isso é outra história, a capital
estava deserta, e entraram pela porta do Palácio sendo
recebidos por um contínuo que havia ficado com a chave...
Nessa época grande parte do povo de Vila Velha com
medo da coluna dos revoltosos que vieram pela Vitória
a Minas, fugiu para a Barra do Jucú, e então
Augusto dirigiu o carro de Sr. Luiz Português, (ou de
Vicente Português pai de Tazinho - a esclarecer) e de
lá vinha à Prainha de vez em quando para saber
notícias da "Revolução", já
que inclusive o prédio do Hotel do João Nava
era visto como ponto estratégico, um baluarte que poderia
ser alvo de tiroteios, por conta de combates que poderiam
ocorrer caso uma coluna legalista do Presidente Washington
Luiz (que acabou sendo deposto), viesse em reação.
Nestas
incursões diurnas, Augusto, como jovem bom partido,
aproveitava para passear com o carro do Português, com
amigos em busca das areias desertas da Praia da Costa e suas
paisagens, com algumas conhecidas! Então Augusto foi
um dos pioneiros em Vila Velha a dirigir caminhões,
e passou comprar numa escala maior, lenha em Cariacica, Santa
Leopoldina e Santa Teresa, para abastecer padarias e residências
de Vila Velha.
Comprava
também de quem derrubava matas das que existiam em
Itapoã, Itaparica, Barra do Jucú e Ponta da
Fruta. Fornecia lenha para a cozinha do 3º BC (tinha
credencial) e para a fábrica da balas de Henrique Mayerfreund,
depois Chocolates Garoto.
Augusto
foi motorista do Secretário do Bispo do Espírito
Santo, Padre José de Lidwin, na época Capelão
do Convento da Penha sob a jurisdição da Mitra
Diocesana, como tambem dos Padres que aqui atuaram: Odorico
Malvino, Olavo Araújo e Raimundo Pereira de Barros.
Augusto
legalizou sua permanência no Brasil em 1938, porém
não se naturalizou. Adquiriu os seguintes caminhões,
mas não chegou a ter uma frota: - GMC de fabricação
de 1927 - Chevrolet de fabricação de 1928 de
Alfredo Alcure por 835 mil réis - Ford de fabricação
de 1930 - Oldsmobil de fabricação de 1938 da
firma Koteca S/A - E um caminhão do antigo 3º
BC em 1951.
Augusto frequentemente reparava esses veículos e os
revendia. Fez uma promessa a N. S. da Penha e já em
1945 com a guerra findando na Europa, ajudou desde o início
com seu caminhãozinho a construção da
Capela de Nossa Senhora dos Navegantes, na Ponta da Fruta,
inaugurada pelo então Vigário Frei Anacleto.
Nesse povoado ficou especial amigo da família Góes
Coutinho e tornou-se padrinho de batismo de uma de sua integrante.
Tinha quitungo, redes de pesca, e era amigo de muitos pescadores.
Ficou muito amigo do pessoal da Ponta da Fruta, e patrocinava
excursões para festas com seu caminhãozinho,
para muitos "arrasta pé", pescarias e mesmo
caçadas nas matas vizinhas.
Nesses passeios inesquecíveis levava muitos rapazes
e moças da Prainha de Vila Velha. O velho Átyla
Freitas Lima foi um grande amigo que estava sempre nessas
pequenas aventuras de juventude. Foi grande amigo de Santos,
açougueiro do Mercado da Prainha e de muitos outros,
sendo que um ficou como seu procurador na velhice, e outro
encarregado de seu funeral. Sua base alimentar era peixe e
farinha de mandioca.
Foi
proprietário das seguintes embarcações:
- canôa Cubana - canôa Faceira - caiqueTeimoso.
Foi sócio do Olímpico Esporte Clube, de nº
129. Freqüentava assiduamente a Praça Capitão
Octávio Araújo, bem como os bares Piratininga,
Mutum e do Lalau (no próprio Hotel do João Nava)
na Prainha, bem como muitos botecos na Ponta da Fruta, Barra
do Jucú, Cruz do Campo de Toca.
Era
contribuinte do IAPTEC, do Sindicato dos Condutores Rodoviários
do Espírito Santo e do Sindicato dos Chauffeurs do
Estado do Espírito Santo. Era matriculado como pescador
na Z2 e Z5 de Vila Velha e Barra do Jucú, respectivamente.
Augusto aposentou-se como pescador pelo INPS.
Como
seu tio, João Nava, não deixou herdeiro, e teria
ocorrido dois fatos: ficou com os bens do mesmo, mas perdeu-os
no confisco federal baixado por Getúlio quando da declaração
de Guerra ao Eixo em 1942, por conta da Itália ter-se
aliado aos alemães. Mais a frente arrematou em leilão
esses bens, com uso de empréstimo bancário avalizado
pelo amigo Henrique Mayerfreund, e que eram imóveis
situados nas ruas Coronel Mascarenhas (onde residiu até
o final da vida), na rua Vasco Coutinho (o Hotel João
Nava) e terrenos arredores (um vendeu para os Vicentinos,
outro para a Mitra onde Padre Barros iniciou o Dispensário,
e outro para sr. Augusto Pessoti), na Luciano das Neves (ponto
de comércio na Praça Capitão Octávio
Araújo - vendeu para o Alcino Dorigueto do bar São
Jorge ), e na rua do Coqueiro na Cruz do Campo.
Augusto
tinha um sítio na Toca, que foi vendido para o Sr.
Gil Bernardes. Foi senhorio de Altair Neto ("seu"
Altair do SAPS), José Cabriche, Anselmo Franco, Ladislau
Cassaro, Sebastião Lacerda, entre outros.
Em
1977 visitou aos 67 anos sua cidade natal na Itália.
Foi sozinho e lá ficou pouquíssimo tempo. Em
vida doou para a Casa da Memória de Vila Velha, um
antigo macaco hidráulico e um depósito de combustível.
Sua herdeira, a afilhada dona Maria Laura Coutinho Góes,
doou para a Casa da Memória de Vila Velha o acervo
fotográfico e documental de Augusto.
Augusto faleceu em 1994 aos 74 anos no Hospital Santa Rita
em Vitória, onde fazia tratamento de pele. Seu velório
foi na Capela de São Vicente de Paulo na Prainha e
foi enterrado no cemitério da sede da cidade que o
adotou, no túmulo de seus antepassados. Ele tinha um
câncer de pele no nariz, e tratava-o com o dermatologista
Dr. Carlos Clay e numa das aplicações que fazia
de quimioterapia, teve um enfarto que lhe foi fulminante mesmo
acontecendo num hospital.
Augusto
Italiano, conheci desde 1960 quando mudei para a Prainha aos
7 anos, e sempre observei o seu entrosamento com o pessoal
antigo de Vila Velha, com o açougueiro Santos do Mercado,
de muitos outros. Era uma figura ímpar, e que viveu
uma aventura na Vila Velha dos velhos tempos, ainda quase
intacta.
No final da vida, ficava muito tempo sentado na calçada
da Igreja do Rosário vizinha de sua casa, e ali muitas
vezes conversei com ele, quando contava aspectos de sua vida,
e de recordações de Vila Velha, onde veio viver
a aventura de sua vida. Passava seus últimos dias,
não solitário, mas com as recordações
e tendo a frente uma fantástica vista do Convento da
Penha, que tanto serviu, sendo inclusive homem de confiança
do lendário Padre José de Lidwin. Augusto onde
estiver merece ser lembrado pela municipalidade, para sempre,
e por seus amigos, dos quais tenho certeza que entrei para
sua lista. Que Deus o tenha
Por:
Eng° Civil Roberto Brochado Abreu. Fundador e membro da
diretoria Membro da Casa da Memória de Vila Velha.
(10/12/2009)
LINKS
RELACIONADOS:
>>
>>
|