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A história do Colégio Marista
Continuação
de uma série de relatos sobre o Colégio Marista
de Vila Velha, que tenho certeza que muitos antigos alunos
contribuirão com outros preciosos dados, que ficaremos
agradecidos.
-terceira
parte-
É
bom lembrar que Vila Velha até 1950 quase não
tinha escolas, e a região era vista como uma roça.
Estudantes de famílias em melhores condições
iam fazer o Ginásio em Vitória, pegando o bonde.
Estudavam ou no Colégio Estadual, na Escola Técnica
ou na Escola Normal ou nas escolas particulares, como no Salesiano,
no São Vicente, no Americano e noutras. Quem tinha
mais condições prosseguia fazendo o Normal,
o Clássico, ou o Científico, ou estudava em
alguma escola de comércio.
As
faculdades eram estaduais, pouquíssimas, e se o aluno
quisesse estudar em instituição de ensino melhor
tinha que ir para o Rio, São Paulo, Belo Horizonte
ou Salvador. Já havia na época alguns cursos
para disputar vaga para trabalhar no Banco do Brasil, um grande
emprego para os que passassem.
A
rodovia Carlos Lindemberg só teve asfalto inaugurado
em 8 de setembro 1951 que terminava nessa época um
pouco para frente do atual DPJ no início da rua 7 de
setembro (já chegando no centro de Vila Velha). O passageiro
de bonde tinha de ir até Paul, e de lá andar
até a estação das barcas, atravessar
a baía, e pagar na saída, pertinho do terminal
aquaviário (que desmontaram) no centro de Vitória.
De lá os estudantes iam a pé, ou de bonde, ou
de ônibus para as escolas. No Centro de Vila Velha,
só havia o Grupo Escolar Vasco Coutinho com curso somente
do primário, e na Glória havia o Grupo Naides
Brandão, e em Paul e Argolas mais alguns grupos e só.
Todo o ensino público era bancado pelo Governo do Estado.
Algumas escolas na então área rural de Vila
Velha, o Governo do Estado também mantinha, como na
Barra do Jucú, Ponta da Fruta e Morro da Lagoa, e até
uma curiosa em Apicum do Poço hoje Itapoá, perto
da matriz católica desse bairro.
Devido
a diversos motivos políticos, e a proximidade com a
Capital, o Município de Vila Velha, havia perdido a
autonomia para Vitória, virando distrito, em 1930 e
depois em 1943, retornando respectivamente em 1934 e em 1947.
Pois bem, esse vai e vem atrasou em muito o desenvolvimento
do município em vários aspectos e inclusive
no setor educacional, condicionado a ser uma cidade "dormitório".
Com o restabelecimento da autonomia em 1947 por força
da Constituição Estadual, por campanha liderada
pelo então Deputado Estadual Saturnino Rangel Mauro,
em 1948 Vila Velha passou a ter prefeito eleito, depois da
interventoria de Edgard Macieira nomeado pelo Governador,
encarregado de reinstalar a Prefeitura. Sagrou-se vencedor
no primeiro pleito dessa fase, não Saturnino que se
candidatou e sim o baiano Domício Ferreira Mendes,
que havia vindo para Vila Velha por conta do Exército,
e aqui se estabelecera em definitivo.
Esse simpático político morador da Prainha,
quase vizinho de Saturnino, tinha também numerosos
filhos e via de perto a dificuldade de dar educação
um pouco melhor para a mocidade canela verde alem de um curso
primário dos que havia em Vila Velha, que equivalia
apenas até a terceira série do atual primeiro
grau. Cabe esclarecer se ele conhecia da Bahia a Congregação
dos Maristas, de professores religiosos católicos,
fundada na França pelo padre Champagnat, e a dedicação
deles com o ensino, mesmo que particular, ou se foi por notícia
que ficou sabendo da instalação deles em vias
de ocorrer na época em Colatina. Então contatou
os irmãos Maristas no Rio, a exemplo que o pessoal
de Colatina já vinha fazendo. Nessa cidade do norte
capixaba, lideranças para conseguir colégio
melhor, procuraram os maristas, tendo a frente o abnegado
sr José Pagani, e construía uma boa edificação
para a escola, que passou a denominar-se Nossa Senhora do
Brasil, inaugurada um pouco antes da de Vila Velha. Por conta
que muitos irmãos maristas eram capixabas, a Congregação
já pensava em abrir uma escola no Espírito Santo,
e foi o que veio a acontecer de forma dupla em curto espaço
de tempo mesmo com muitas dificuldades e venda de bens para
investirem na obra.
Então
Domício conseguiu que um superior dos irmãos
maristas do Rio de Janeiro, o Irmão Mário Cristóvão
viesse a Vila Velha estudar proposta para implantação
de um colégio aqui. Nesse meio tempo sabe-se que muitos
antigos dos maristas (que estudaram na maioria no Rio de Janeiro)
então morando em Vitória procuraram levar os
irmãos para lá, tanto assim que o Bispo Diocesano
teria oferecido obra paralisada do que veio a ser o Sacre
Coeur na Praia do Canto. Ao que consta ali magnatas internacionais
haviam doado recurso para construir-se um orfanato para crianças
judias da Europa que tinham perdido seus pais na guerra que
acabara em 1945. Essa crianças nunca vieram para o
Brasil, e grande parte foi adotada por famílias Sul
Africanas que captaram recursos para facilitar as criarem,
não num orfanato clássico mas numa família.
Uma revista sul africana em edição em português
fez matéria sobre as adoções.
Domício
articulou-se com o Deputado Napoleão Fontenele, e conseguiu
para a Prefeitura de Vila Velha, uma verba, e com esse recurso
comprou desapropriando sítio desativado, uma fazendola,
da família Batalha pertinho do Centro da cidade, e
que sr. Reparato tomava conta. Houve apoio ao que consta do
projeto do Desembargador Ernesto Guimarães (aparece
na foto do lançamento da pedra fundamental) que morava
em Vila Velha. Esse, diga de passagem, valorizava a educação
e a cultura e havia escrito peça de teatro em três
atos com o título "O voluntário do 3º
BC".
Para o ideal de Domício foi votada uma lei municipal
autorizativa, da ginástica a ser feita com o recurso
captado. Seria interessante pesquisar no Arquivo da Câmara
Municipal de Vila Velha a discussão que possa ter havido,
que deve ter sido registrada em Ata, com as opiniões
dos Vereadores de então, e o resultado da votação
para aprovar a Lei nº 85 de maio de 1950. Matérias
alusivas que possam ter saído na imprensa da Capital,
e na imprensa nanica e alternativa de Vila Velha, merecem
também resgate. Da Lei surgiu um Contrato assinado
em setembro de 1950 uma doação condicionada
da gleba, onde ficou acertado que se os Irmãos um dia
saíssem do empreendimento, todo terreno voltaria para
a posse da Prefeitura após a indenização
pelo valor das benfeitorias implantadas, e que enquanto funcionasse
o colégio particular, algumas bolsas gratuitas seriam
aproveitadas por estudantes indicados pela municipalidade.
As obras foram iniciadas com lançamento de pedra fundamental
benta por Frei do Convento da Penha, tendo comparecido Irmão
Cristóvão e autoridades de Vila Velha e do Governo
do Estado, sendo que o fotógrafo italiano radicado
em nossa terra Ugo Musso imortalizou a cena.
Consta
que o projeto foi de uma firma do Rio de Janeiro, e para implantar
a obra do colégio a Congregação Marista
vendeu terrenos em Belo Horizonte (MG) e em Campinas (SP).
Mesmo sendo o prazo para a construção da escola
curto, (cinco anos), os Irmãos tiveram fôlego
e tocaram a obra, e já em dezembro de 1953, nomeavam
a primeira diretoria a saber: Diretor Irmão Ismael
Antonio - (capixada de Castelo, irmão de outro Marista
o Elias Gilberto, sendo que conheci ambos). Vice - Diretor
- Irmão Basílio Danilo Tesoureiro - Irmão
Luiz Severino Auxiliar Administrador - Irmão Aleixo
Luiz (no civil Carlos Wielganeczuk, depois Provincial Marista
em São Paulo) Todos atuaram como professores das primeiras
turminhas a partir de 1954.
O
engº José Ribeiro Martins, paraense, que fora
Prefeito nomeado de Vitória, e que atuara na construção
do porto da Capital, residia em Vila Velha na rua XV de Novembro,
e então foi ele que acompanhou a obra que ficou muito
boa, robusta, com os melhores materiais de construção,
com acabamento esmerado, de aspecto faraônico para a
época em Vila Velha (causou impacto que impressionava).
Ali
no sítio Batalha havia um poço com uma água
excelente, que vinha da colina do sítio (chamado Morro
do Batalha), que muita gente de Vila Velha apanhava para beber
diariamente, o que vi até meados dos anos 60 do século
XX. Essa água foi utilizada pelo Colégio por
muitos anos, se ainda não o é. Margeando à
esquerda de quem olha pela frente havia intacto o Canal da
Costa com suas águas vermelhas. Pela frente havia a
continuação da Av. Jerônimo Monteiro,
com um canteiro central arborizado com flamboyants.
Ultrapassando
o antigo leito do Canal da Costa, que passava onde hoje está
o Mac Donald, havia uma ponte que desabou na enchente de 1960,
quando a seguir o DNOS (que já rasgava o novo traçado
do Canal da Costa), instalou ali às pressas um bueiro
metálico, e restabeleceu a ligação. Diga-se
de passagem, que dos Maristas até o novo leito do Canal
da Costa (onde está hoje) era um vasto manguezal, e
consta que no tempo do Prefeito Capitão Octávio
Araújo nos anos 20 é que aterrou para surgir
a atual Av. Champagnat. e fosse feita a ponte (que caiu em
1960) de concreto armado, já no tempo do Governador
Florentino Ávidos. Antes se passava o Canal por uma
pontezinha de madeira sobre o antigo leito do curso d água,
que ficava na rua XV de Novembro na descida logo depois da
casa do finado João Mascarenhas.
Esse
aterro ficou formando quase um dique, com cerca de 3 metros
acima da maré máxima do mangue, e pensava-se
passar por ele um prolongamento da linha de bonde para ir-se
até a Praia da Costa então semi deserta. Esse
aterro acabou fazendo surgir um remanso na transição
do manguezal para a restinga, num trecho que passou a chamar-se
Tabual, de tanta tabôa que ali nasceu, por conta de
que ao reduzir a circulação de água salobra
do mangue, houve o aumento da concentração de
matéria orgânica, que facilitou tal vegetal a
se disseminar. O aterro, quase um dique, pode ser observado
hoje: quem vem pela rua Paraná saindo da terceira ponte,
sobe e desce a seguir na transposição da Av.
Champagnat, e o mesmo sucede em várias ruas transversais
a essa Avenida como a que ladeia o Super mercado "Caronão".
Por
volta de 1951, o governo do Estado justificando como acesso
para casa de verão e residência oficial do governador
na Praia da Costa, asfaltou em pista simples, da ponte que
caiu acima citada até a entrada da Casa referida na
região da praia do Ribeiro, tendo ao que consta atuado
o famoso empreiteiro Campanella. O asfalto era novidade que
chegava. A parte de traz do Juvenato, parecida com a parte
da frente, mas próxima da colina consta que atuou o
Construtor Gino Ceotto (o mesmo que atuou depois na construção
do Santuário do Divino Espírito Santo junto
com o Arquiteto Elio de Almeida Vianna, que é outra
história a contar).
Pois
bem, a primeira turma foi do curso primário, e muitos
pequenos empresários até de Vitória e
outros cidadãos que tinham sido alunos dos Maristas
no Rio e em outras cidades do país, matriculavam seus
filhos ali dado o prestígio. Então o colégio
chamava-se inicialmente Ginásio Marista, e passou a
ter o curso Ginasial completo. Acabaram por um tempo com o
primário que voltou em 1961 quando entrei na terceira
série vindo do Vasco Coutinho, fase que contarei em
relatos posteriores.
Colégio
Marista de Vila Velha em construção (1950)
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
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na foto para ampliar. |
Colégio
Marista de Vila Velha em construção (1950)
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
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Lançamento
da Pedra Fundamental do Colégio Marista de Vila
Velha ES (1949)
Domício Ferreira Mendes - Prefeito de Vila Velha
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
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na foto para ampliar. |
Lançamento
da Pedra Fundamental do Colégio Marista de Vila
Velha ES (1949)
Professor Ernane Souza- Vereador
Frei Anacleto
Governador Carlos Lindenberg
Domício Ferreira Mendes - Prefeito de Vila Velha
Desembargador Hernesto Guimarães - de óculos
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
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Por:
Eng° Civil Roberto Brochado Abreu. Fundador e membro da
diretoria da Casa da Memória de Vila Velha. (01/03/2010)
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