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Roberto Brochado Abreu

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A história do Colégio Marista

Continuação de uma série de relatos sobre o Colégio Marista de Vila Velha, que tenho certeza que muitos antigos alunos contribuirão com outros preciosos dados, que ficaremos agradecidos.

-terceira parte-

É bom lembrar que Vila Velha até 1950 quase não tinha escolas, e a região era vista como uma roça. Estudantes de famílias em melhores condições iam fazer o Ginásio em Vitória, pegando o bonde. Estudavam ou no Colégio Estadual, na Escola Técnica ou na Escola Normal ou nas escolas particulares, como no Salesiano, no São Vicente, no Americano e noutras. Quem tinha mais condições prosseguia fazendo o Normal, o Clássico, ou o Científico, ou estudava em alguma escola de comércio.

As faculdades eram estaduais, pouquíssimas, e se o aluno quisesse estudar em instituição de ensino melhor tinha que ir para o Rio, São Paulo, Belo Horizonte ou Salvador. Já havia na época alguns cursos para disputar vaga para trabalhar no Banco do Brasil, um grande emprego para os que passassem.

A rodovia Carlos Lindemberg só teve asfalto inaugurado em 8 de setembro 1951 que terminava nessa época um pouco para frente do atual DPJ no início da rua 7 de setembro (já chegando no centro de Vila Velha). O passageiro de bonde tinha de ir até Paul, e de lá andar até a estação das barcas, atravessar a baía, e pagar na saída, pertinho do terminal aquaviário (que desmontaram) no centro de Vitória. De lá os estudantes iam a pé, ou de bonde, ou de ônibus para as escolas. No Centro de Vila Velha, só havia o Grupo Escolar Vasco Coutinho com curso somente do primário, e na Glória havia o Grupo Naides Brandão, e em Paul e Argolas mais alguns grupos e só.

Todo o ensino público era bancado pelo Governo do Estado. Algumas escolas na então área rural de Vila Velha, o Governo do Estado também mantinha, como na Barra do Jucú, Ponta da Fruta e Morro da Lagoa, e até uma curiosa em Apicum do Poço hoje Itapoá, perto da matriz católica desse bairro.

Devido a diversos motivos políticos, e a proximidade com a Capital, o Município de Vila Velha, havia perdido a autonomia para Vitória, virando distrito, em 1930 e depois em 1943, retornando respectivamente em 1934 e em 1947. Pois bem, esse vai e vem atrasou em muito o desenvolvimento do município em vários aspectos e inclusive no setor educacional, condicionado a ser uma cidade "dormitório". Com o restabelecimento da autonomia em 1947 por força da Constituição Estadual, por campanha liderada pelo então Deputado Estadual Saturnino Rangel Mauro, em 1948 Vila Velha passou a ter prefeito eleito, depois da interventoria de Edgard Macieira nomeado pelo Governador, encarregado de reinstalar a Prefeitura. Sagrou-se vencedor no primeiro pleito dessa fase, não Saturnino que se candidatou e sim o baiano Domício Ferreira Mendes, que havia vindo para Vila Velha por conta do Exército, e aqui se estabelecera em definitivo.

Esse simpático político morador da Prainha, quase vizinho de Saturnino, tinha também numerosos filhos e via de perto a dificuldade de dar educação um pouco melhor para a mocidade canela verde alem de um curso primário dos que havia em Vila Velha, que equivalia apenas até a terceira série do atual primeiro grau. Cabe esclarecer se ele conhecia da Bahia a Congregação dos Maristas, de professores religiosos católicos, fundada na França pelo padre Champagnat, e a dedicação deles com o ensino, mesmo que particular, ou se foi por notícia que ficou sabendo da instalação deles em vias de ocorrer na época em Colatina. Então contatou os irmãos Maristas no Rio, a exemplo que o pessoal de Colatina já vinha fazendo. Nessa cidade do norte capixaba, lideranças para conseguir colégio melhor, procuraram os maristas, tendo a frente o abnegado sr José Pagani, e construía uma boa edificação para a escola, que passou a denominar-se Nossa Senhora do Brasil, inaugurada um pouco antes da de Vila Velha. Por conta que muitos irmãos maristas eram capixabas, a Congregação já pensava em abrir uma escola no Espírito Santo, e foi o que veio a acontecer de forma dupla em curto espaço de tempo mesmo com muitas dificuldades e venda de bens para investirem na obra.

Então Domício conseguiu que um superior dos irmãos maristas do Rio de Janeiro, o Irmão Mário Cristóvão viesse a Vila Velha estudar proposta para implantação de um colégio aqui. Nesse meio tempo sabe-se que muitos antigos dos maristas (que estudaram na maioria no Rio de Janeiro) então morando em Vitória procuraram levar os irmãos para lá, tanto assim que o Bispo Diocesano teria oferecido obra paralisada do que veio a ser o Sacre Coeur na Praia do Canto. Ao que consta ali magnatas internacionais haviam doado recurso para construir-se um orfanato para crianças judias da Europa que tinham perdido seus pais na guerra que acabara em 1945. Essa crianças nunca vieram para o Brasil, e grande parte foi adotada por famílias Sul Africanas que captaram recursos para facilitar as criarem, não num orfanato clássico mas numa família. Uma revista sul africana em edição em português fez matéria sobre as adoções.

Domício articulou-se com o Deputado Napoleão Fontenele, e conseguiu para a Prefeitura de Vila Velha, uma verba, e com esse recurso comprou desapropriando sítio desativado, uma fazendola, da família Batalha pertinho do Centro da cidade, e que sr. Reparato tomava conta. Houve apoio ao que consta do projeto do Desembargador Ernesto Guimarães (aparece na foto do lançamento da pedra fundamental) que morava em Vila Velha. Esse, diga de passagem, valorizava a educação e a cultura e havia escrito peça de teatro em três atos com o título "O voluntário do 3º BC".

Para o ideal de Domício foi votada uma lei municipal autorizativa, da ginástica a ser feita com o recurso captado. Seria interessante pesquisar no Arquivo da Câmara Municipal de Vila Velha a discussão que possa ter havido, que deve ter sido registrada em Ata, com as opiniões dos Vereadores de então, e o resultado da votação para aprovar a Lei nº 85 de maio de 1950. Matérias alusivas que possam ter saído na imprensa da Capital, e na imprensa nanica e alternativa de Vila Velha, merecem também resgate. Da Lei surgiu um Contrato assinado em setembro de 1950 uma doação condicionada da gleba, onde ficou acertado que se os Irmãos um dia saíssem do empreendimento, todo terreno voltaria para a posse da Prefeitura após a indenização pelo valor das benfeitorias implantadas, e que enquanto funcionasse o colégio particular, algumas bolsas gratuitas seriam aproveitadas por estudantes indicados pela municipalidade. As obras foram iniciadas com lançamento de pedra fundamental benta por Frei do Convento da Penha, tendo comparecido Irmão Cristóvão e autoridades de Vila Velha e do Governo do Estado, sendo que o fotógrafo italiano radicado em nossa terra Ugo Musso imortalizou a cena.

Consta que o projeto foi de uma firma do Rio de Janeiro, e para implantar a obra do colégio a Congregação Marista vendeu terrenos em Belo Horizonte (MG) e em Campinas (SP). Mesmo sendo o prazo para a construção da escola curto, (cinco anos), os Irmãos tiveram fôlego e tocaram a obra, e já em dezembro de 1953, nomeavam a primeira diretoria a saber: Diretor Irmão Ismael Antonio - (capixada de Castelo, irmão de outro Marista o Elias Gilberto, sendo que conheci ambos). Vice - Diretor - Irmão Basílio Danilo Tesoureiro - Irmão Luiz Severino Auxiliar Administrador - Irmão Aleixo Luiz (no civil Carlos Wielganeczuk, depois Provincial Marista em São Paulo) Todos atuaram como professores das primeiras turminhas a partir de 1954.

O engº José Ribeiro Martins, paraense, que fora Prefeito nomeado de Vitória, e que atuara na construção do porto da Capital, residia em Vila Velha na rua XV de Novembro, e então foi ele que acompanhou a obra que ficou muito boa, robusta, com os melhores materiais de construção, com acabamento esmerado, de aspecto faraônico para a época em Vila Velha (causou impacto que impressionava).

Ali no sítio Batalha havia um poço com uma água excelente, que vinha da colina do sítio (chamado Morro do Batalha), que muita gente de Vila Velha apanhava para beber diariamente, o que vi até meados dos anos 60 do século XX. Essa água foi utilizada pelo Colégio por muitos anos, se ainda não o é. Margeando à esquerda de quem olha pela frente havia intacto o Canal da Costa com suas águas vermelhas. Pela frente havia a continuação da Av. Jerônimo Monteiro, com um canteiro central arborizado com flamboyants.

Ultrapassando o antigo leito do Canal da Costa, que passava onde hoje está o Mac Donald, havia uma ponte que desabou na enchente de 1960, quando a seguir o DNOS (que já rasgava o novo traçado do Canal da Costa), instalou ali às pressas um bueiro metálico, e restabeleceu a ligação. Diga-se de passagem, que dos Maristas até o novo leito do Canal da Costa (onde está hoje) era um vasto manguezal, e consta que no tempo do Prefeito Capitão Octávio Araújo nos anos 20 é que aterrou para surgir a atual Av. Champagnat. e fosse feita a ponte (que caiu em 1960) de concreto armado, já no tempo do Governador Florentino Ávidos. Antes se passava o Canal por uma pontezinha de madeira sobre o antigo leito do curso d água, que ficava na rua XV de Novembro na descida logo depois da casa do finado João Mascarenhas.

Esse aterro ficou formando quase um dique, com cerca de 3 metros acima da maré máxima do mangue, e pensava-se passar por ele um prolongamento da linha de bonde para ir-se até a Praia da Costa então semi deserta. Esse aterro acabou fazendo surgir um remanso na transição do manguezal para a restinga, num trecho que passou a chamar-se Tabual, de tanta tabôa que ali nasceu, por conta de que ao reduzir a circulação de água salobra do mangue, houve o aumento da concentração de matéria orgânica, que facilitou tal vegetal a se disseminar. O aterro, quase um dique, pode ser observado hoje: quem vem pela rua Paraná saindo da terceira ponte, sobe e desce a seguir na transposição da Av. Champagnat, e o mesmo sucede em várias ruas transversais a essa Avenida como a que ladeia o Super mercado "Caronão".

Por volta de 1951, o governo do Estado justificando como acesso para casa de verão e residência oficial do governador na Praia da Costa, asfaltou em pista simples, da ponte que caiu acima citada até a entrada da Casa referida na região da praia do Ribeiro, tendo ao que consta atuado o famoso empreiteiro Campanella. O asfalto era novidade que chegava. A parte de traz do Juvenato, parecida com a parte da frente, mas próxima da colina consta que atuou o Construtor Gino Ceotto (o mesmo que atuou depois na construção do Santuário do Divino Espírito Santo junto com o Arquiteto Elio de Almeida Vianna, que é outra história a contar).

Pois bem, a primeira turma foi do curso primário, e muitos pequenos empresários até de Vitória e outros cidadãos que tinham sido alunos dos Maristas no Rio e em outras cidades do país, matriculavam seus filhos ali dado o prestígio. Então o colégio chamava-se inicialmente Ginásio Marista, e passou a ter o curso Ginasial completo. Acabaram por um tempo com o primário que voltou em 1961 quando entrei na terceira série vindo do Vasco Coutinho, fase que contarei em relatos posteriores.


Colégio Marista de Vila Velha em construção (1950)
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
Clique na foto para ampliar.

Colégio Marista de Vila Velha em construção (1950)
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
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Lançamento da Pedra Fundamental do Colégio Marista de Vila Velha ES (1949)
Domício Ferreira Mendes - Prefeito de Vila Velha
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
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Lançamento da Pedra Fundamental do Colégio Marista de Vila Velha ES (1949)
Professor Ernane Souza- Vereador
Frei Anacleto
Governador Carlos Lindenberg
Domício Ferreira Mendes - Prefeito de Vila Velha
Desembargador Hernesto Guimarães - de óculos
Acervo - Edward Athayde D'Alcântara
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Por: Eng° Civil Roberto Brochado Abreu. Fundador e membro da diretoria da Casa da Memória de Vila Velha. (01/03/2010)

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