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Igreja
de São João na Prainha
Basílio
de Carvalho Daemon, autor do segundo dos mais antigos
livros sobre a história do Estado do Espírito
Santo, e que é uma publicação do
século XIX, fala que em Vila Velha na Prainha,
alem da Igreja do Rosário havia no “final
da Praia” – ou seja, na orla da Prainha
antes dos grandes aterros, ruínas da Igreja de
São João, a mais antiga e edificada de
fato.
Ora final
da Praia era justamente onde a cidade teve seu embrião,
perto da gruta e do oratório. Na outra extremidade
da Praia havia a foz do Córrego Inserica, local
onde era muito improvável de que fosse escolhido
para construir-se um templo, pois inclusive logo para
trás havia um brejo, depois cortado pelo caminho
de Inhoá, aonde chegou a haver uma pequena ponte
(conforme extraí de Relatórios e Mensagens
de Presidentes da Província do Espírito
Santo do século XIX).
Com quase
total abandono da Vila do Espírito Santo, devido
à transferência da sede da Capitania para
Vitória (por volta de 1551), ficava muito difícil
para os moradores remanescentes cuidarem de mais de
um templo, e assim optaram pela manutenção
e ampliação da Igreja do Rosário,
que surgiu aos poucos numa levíssima colina,
que tinha algum afloramento rochoso que facilitava os
alicerces. Seu anexo foi inaugurado para ali funcionar
a Casa da Misericórdia em Julho de 1597, e existiu
essa puxada até os primeiros decênios do
século XX.
Antes,
em 1558, quando aqui chegou Frei Pedro Palácios,
a Igrejinha de São João já devia
estar em decadência. Seu frontispício sobrou
até hoje e ainda vê-se, com sua soleira
um pouco enterrada com os aterros sucessivos que foram
feitos na orla. O frontispício sempre em geral
é a parte mais sólida de um templo colonial,
e a parte inicial a ser construída, e é
a que costuma remanescer. Vê-se exemplo com a
Igreja de Santa Cruz (hoje pertencente a Distrito de
Santa Cruz do Município de Aracruz – ES)
e até em Macau na China.
Frei
Pedro pode ter encontrado o oratório pronto já
que era costume dos navegantes sempre zarparem após
algumas orações pertinho da praia. Dos
fundos da Igrejinha de São João, é
de onde provavelmente iniciava uma trilha para subir
o Morro da Penha, tanto assim que há sinais nítidos
da retificação da ladeira quando a modificaram
em direção ao outro frontispício
(hoje da entrada antiga do Convento). Por sua vez essa
construção entre a gruta e a Igrejinha
de São João, tudo indica que era a fachada
de um trapiche da fortaleza de São Francisco
Xavier. Lá no forte não havia segurança
para fundear-se um navio e desembarcar apetrechos, e
então era mais seguro que isso se desse na enseada
da Prainha, justamente onde já havia um cais
(hoje aterrado). Os franciscanos não o haviam
de construí-lo com uma fachada daquele porte,
e com elementos militares em alto relevo.
A planta
cadastral de Vila Velha que o engenheiro Antonio Francisco
de Athayde preparou em 1894, aponta que por detrás
desse frontispício é que iniciava o caminho
da fortaleza, níditidamente identificado por
vão a restabelecer, hoje fechado e visto pela
mata. Com o tempo os franciscanos devem ter incorporado
ao morro da Penha essa fachada de trapiche por certo
inconcluso, e transformado em portão da ladeira
da penitência. O frontispício da Igrejinha
de São João, sem adornos em alto relevo,
e mais simples tinha até um telhado para traz
em direção a matacões (rochas)
existentes logo ali a poucos metros, e assim foi reproduzido
em fotografia antiga na obra Chorografia Brasileira.
No início
da colonização aproveitavam recantos perto
de matacões aflorados, ao pé de encostas,
para escorar as construções. O estilo
do que lá remanesce é ibérico,
mediterrâneo. O porte diminuto da edificação
que ali cabe, coincidem com as possibilidades muito
reduzidas dos primeiros anos da colonização,
quando num ofício litúrgico, pouquíssimas
pessoas entravam no templo, ficando a maior parte da
população do lado de fora, como veio a
repetir-se com a referência a essa situação
que jesuítas fizeram do início da Igreja
do Rosário, da mesma Prainha de Vila Velha.
Com a
desativação da Igrejinha, foi usado o
que restou provavelmente como depósito, e para
estábulo do Convento, já que tinham um
burrico para subir a ladeira que não era calçada
como está com pé-de–moleque. Tal
edificação foi ficando esquecida, e referida
na memória de alguns que veio até a Daemon
que se informou para escrever sua obra.
Sua reconstrução
seria interessante após prospecção
arqueológica no local, e poderia ser usado como
apoio ao turismo religioso e de recepção
aos romeiros, ou como capela mortuária, da qual
a taxa de utilização reverteria para manutenção
do sítio histórico muito particular existente
no local (oratório, gruta e pórticos).
O pátio situado em frente, que vai virando estacionamento
de motocicletas, e sendo tudo grandemente esquecido.
Com os anos modificaram muito o local da Igrejinha de
São João, e arredores, com o surgimento
de uma cisterna e casa de bombas, que recalca água
encanada para o alto da Penha. Ficam aqui pistas para
debates, pesquisas e arqueologia no local.
Autor:
Roberto Brochado Abreu – membro da Casa da Memória
de Vila Velha
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