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Roberto Brochado Abreu

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Igreja de São João na Prainha

Basílio de Carvalho Daemon, autor do segundo dos mais antigos livros sobre a história do Estado do Espírito Santo, e que é uma publicação do século XIX, fala que em Vila Velha na Prainha, alem da Igreja do Rosário havia no “final da Praia” – ou seja, na orla da Prainha antes dos grandes aterros, ruínas da Igreja de São João, a mais antiga e edificada de fato.

Ora final da Praia era justamente onde a cidade teve seu embrião, perto da gruta e do oratório. Na outra extremidade da Praia havia a foz do Córrego Inserica, local onde era muito improvável de que fosse escolhido para construir-se um templo, pois inclusive logo para trás havia um brejo, depois cortado pelo caminho de Inhoá, aonde chegou a haver uma pequena ponte (conforme extraí de Relatórios e Mensagens de Presidentes da Província do Espírito Santo do século XIX).

Com quase total abandono da Vila do Espírito Santo, devido à transferência da sede da Capitania para Vitória (por volta de 1551), ficava muito difícil para os moradores remanescentes cuidarem de mais de um templo, e assim optaram pela manutenção e ampliação da Igreja do Rosário, que surgiu aos poucos numa levíssima colina, que tinha algum afloramento rochoso que facilitava os alicerces. Seu anexo foi inaugurado para ali funcionar a Casa da Misericórdia em Julho de 1597, e existiu essa puxada até os primeiros decênios do século XX.

Antes, em 1558, quando aqui chegou Frei Pedro Palácios, a Igrejinha de São João já devia estar em decadência. Seu frontispício sobrou até hoje e ainda vê-se, com sua soleira um pouco enterrada com os aterros sucessivos que foram feitos na orla. O frontispício sempre em geral é a parte mais sólida de um templo colonial, e a parte inicial a ser construída, e é a que costuma remanescer. Vê-se exemplo com a Igreja de Santa Cruz (hoje pertencente a Distrito de Santa Cruz do Município de Aracruz – ES) e até em Macau na China.

Frei Pedro pode ter encontrado o oratório pronto já que era costume dos navegantes sempre zarparem após algumas orações pertinho da praia. Dos fundos da Igrejinha de São João, é de onde provavelmente iniciava uma trilha para subir o Morro da Penha, tanto assim que há sinais nítidos da retificação da ladeira quando a modificaram em direção ao outro frontispício (hoje da entrada antiga do Convento). Por sua vez essa construção entre a gruta e a Igrejinha de São João, tudo indica que era a fachada de um trapiche da fortaleza de São Francisco Xavier. Lá no forte não havia segurança para fundear-se um navio e desembarcar apetrechos, e então era mais seguro que isso se desse na enseada da Prainha, justamente onde já havia um cais (hoje aterrado). Os franciscanos não o haviam de construí-lo com uma fachada daquele porte, e com elementos militares em alto relevo.

A planta cadastral de Vila Velha que o engenheiro Antonio Francisco de Athayde preparou em 1894, aponta que por detrás desse frontispício é que iniciava o caminho da fortaleza, níditidamente identificado por vão a restabelecer, hoje fechado e visto pela mata. Com o tempo os franciscanos devem ter incorporado ao morro da Penha essa fachada de trapiche por certo inconcluso, e transformado em portão da ladeira da penitência. O frontispício da Igrejinha de São João, sem adornos em alto relevo, e mais simples tinha até um telhado para traz em direção a matacões (rochas) existentes logo ali a poucos metros, e assim foi reproduzido em fotografia antiga na obra Chorografia Brasileira.

No início da colonização aproveitavam recantos perto de matacões aflorados, ao pé de encostas, para escorar as construções. O estilo do que lá remanesce é ibérico, mediterrâneo. O porte diminuto da edificação que ali cabe, coincidem com as possibilidades muito reduzidas dos primeiros anos da colonização, quando num ofício litúrgico, pouquíssimas pessoas entravam no templo, ficando a maior parte da população do lado de fora, como veio a repetir-se com a referência a essa situação que jesuítas fizeram do início da Igreja do Rosário, da mesma Prainha de Vila Velha.

Com a desativação da Igrejinha, foi usado o que restou provavelmente como depósito, e para estábulo do Convento, já que tinham um burrico para subir a ladeira que não era calçada como está com pé-de–moleque. Tal edificação foi ficando esquecida, e referida na memória de alguns que veio até a Daemon que se informou para escrever sua obra.

Sua reconstrução seria interessante após prospecção arqueológica no local, e poderia ser usado como apoio ao turismo religioso e de recepção aos romeiros, ou como capela mortuária, da qual a taxa de utilização reverteria para manutenção do sítio histórico muito particular existente no local (oratório, gruta e pórticos). O pátio situado em frente, que vai virando estacionamento de motocicletas, e sendo tudo grandemente esquecido. Com os anos modificaram muito o local da Igrejinha de São João, e arredores, com o surgimento de uma cisterna e casa de bombas, que recalca água encanada para o alto da Penha. Ficam aqui pistas para debates, pesquisas e arqueologia no local.

Autor: Roberto Brochado Abreu – membro da Casa da Memória de Vila Velha

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