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São Mateus - Por Rubem Braga (1953)

Casario do antigo porto de São Mateus

São Mateus é uma cidade positivamente bonita – uma parte na beira rio, outra no alto da colina, muitas palmeiras reais, alguns casarões antigos. . . Eu disse que a igreja é feita com pedras baianas, vindas como lastro, e ligadas com óleo de baleia; na verdade até as ruas da cidade são calçadas com lajes da Bahia, a a Bahia é influente ainda  em muita coisa nestes lugares: no vatapá magistral de dona Vitória Rios e na famosa muqueca de judeu, orgulho da cozinha local. Não pensem, por favor, que os cristãos aqui sejam antropófagos. Um tanto irritado, eu quis ver um desses judeus com que se faz muqueca; mostraram-me o peixinho, é a minha velha conhecida cumbaca. A festa notável de Conceição da Barra é uma velha festa baiana, o alardo (acho que não existe mais na Bahia) que o bom Manduca Evêncio, de 83 anos e linguagem não apenas fluente como estranhamente correta, ressuscitou há poucos anos animado pelo folclorista Guilherme Santos Neves, com mouros e cristãos em densa pancadaria que é um autêntico milagre de violência e de fair-play, tudo isso no dia de São Sebastião; também da Bahia parece ter vindo do ticumbi, dançando e representado só por negros, no dia de São Benedito.

Agora, eu já escrevi, o que vem da Bahia é gente baiana, e vem muita; a população dos territórios disputados por Minas e Espírito Santo é quase toda baiana. Com a construção de novas estradas e pontes, principalmente a BR-5, que é a Rio-Bahia pelo litoral, e a Br-73, que de Nova Venécia se dirige a Teófilo Otoni, não apenas esta zona como as de Bahia e Minas mais próximas ficarão ainda mais fortemente presas a Vitória e seu porto. A importância desse porto dentro de alguns anos será tremenda, bastando pensar na instalação ali de uma grande usina siderúrgica (o contrato com uma firma alemã já foi assinado) em torno da qual nascerão forçosamente numerosas indústrias, e a construção da chamada Estrada do Paralelo 20, de Vitória a Belo Horizonte, que atrairá para águas capixabas a produção de uma extensa zona mineira que hoje procura a Guanabara.

A mesma estrada ligará diretamente a Vitória, sem necessidade do entreposto de Cachoeiro de Itapemirim, uma grande parte da rica zona montanhosa do sul do Estado. Mas Vitória não bastará. Dentro de dois anos Cachoeiro de Itapemirim estará produzindo mais de 15 mil sacas de cimento por dia. Os estudos feitos na Barra do Itapemirim, indicam a possibilidade de fazer ali um bom porto, enrocando a parte sul, entre as pedras em que está a igreja e a ilha de Itapotera. Uma estrada asfaltada ligando Cachoeiro à Barra permitirá o escoamento econômico dessa produção.

Com um mínimo de ajuda das autoridades federais o Espírito Santo pode ser em curto prazo um fator ponderável na recuperação da economia nacional, e as jazidas de bauxita em Muqui e de manganês em Guaçui poderão ser aproveitadas.

As ilhas flutuantes de água-pé, que têm aqui o lindo nome de “baronesa” sobem lentamente o belo rio São Mateus; a maré está enchendo. Descerão depois – “o serviço delas é esse, ir para baixo e para cima”, comenta o chofer, com certo desprezo. Isso dá paz e preguiça e uma estranha dignidade à paisagem de São Mateus. Mas alguns quilômetros além, Nona Venécia, que já se erige em município, cresce com violência, a aqui mesmo na cidade a estrutura da ponte que avança está dizendo que vão aumentar o estrondo e a poeira dos caminhões, o tumulto e a pressa da vida.

Novembro, 1953

 

Fonte: Crônicas do Espírito Santo. 1984
Autor: Rubem Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2011
Obs.: Este livro foi doado à Casa da Memória de Vila Velha em abril de 1985 por Jonas Reis



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