Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

A Ex-Escadaria Maria Ortiz - Por Gabriel Bittencourt

Escadaria Maria Ortiz em construção

Depois da criação da Companhia das Índias Ocidentais, na Holanda, em 1621, os portos brasileiros não tiveram mais sossego. O primeiro, a sentir o peso de seus ataques, foi Salvador, então capital do Brasil, e responsável por mais de um terço da exportação do açúcar colonial. Foi saqueada e ocupada pelos batavos, apesar da expedição terminar por redundar em fracasso, com a rendição dos invasores. Entre estes, destaca-se a figura do vice-almirante Piet Pieterz Heyn, que conseguiu escapar e prosseguir seus saques pelo Brasil.

É assim que, a 12 de março de 1625, sob a orientação de Rodrigo Paulo (flamengo de origem, mas casado com portuguesa e aqui residente), chegou a Vitória o corsário holandês, com intuito de saquear a cidade.

Piet Heyn, portanto, já era uma figura lendária quando atacou o Espírito Santo. E, ao que tudo indicava, de nada adiantaria a resistência chefiada por Francisco de Aguiar Coutinho, embora trinta e oito baixas já se contasse do lado inimigo, após alguns dias de luta.

Conta a história, porém, — mais lenda que história —, que esta tendência ficou invertida, quando do derradeiro assalto à cidade alta, pela íngreme rampa que lhe dava acesso, onde residia Maria Ortiz. É que esta jovem, talvez por indignação ou desespero, passou a atirar sobre os invasores tachos de água fervente e toda sorte de material que lhes freasse o ímpeto da conquista. Este ato de coragem teria levantado o moral dos ilhéus, e terminou por repelir os corsários, pondo-os para correr.

Essa história criou tradição no Espírito Santo, não olvidando o povo a brava capixaba que, da janela do sobrado de sua residência, rechaçara o invasor estrangeiro. Ao que parece, porém, a consagração de seu nome ao logradouro ocorreu muito tempo depois de seu falecimento.

Maria Ortiz era filha de pais espanhóis, e nasceu em Vitória, em 1603, ao tempo da União Ibérica, período de grandes conflitos entre a Holanda e a Espanha, cujo rei governava também Portugal. Seus pais vieram em uma das imigrações promovida por Felipe III, em 1601. Maria Ortiz faleceu nesta cidade, em 1646.

Quanto a Piet Heyn, foi um dos mais notáveis almirantes holandeses. Em 1628 tomou a famosa frota espanhola de prata, próximo a Cuba, cujo saque rendeu à Companhia das índias Ocidentais mais de um milhão de libras esterlinas. Depois do fracasso do episódio da Bahia, foi, sobretudo, graças a Piet Heyn, que a Companhia se capitalizou e pode, finalmente, em 1630, desembarcar nas costas pernambucanas — a Zuikerland —, dando início ao domínio holandês do Brasil. O ataque à frota de prata, cujo feito perdura em canção folclórica holandesa, permitiu à Companhia pagar dividendos da ordem de 75%, naquele ano.

A rampa, onde se localizava a residência de Maria Ortiz, era encimada do pelourinho, símbolo da autoridade e justiça portuguesas, passando a ladeira a ficar conhecida com este nome.

A antiga ladeira do Pelourinho dava acesso aos transeuntes da Rua do Ouvidor para a cidade alta. Tinha início, também, no começo da antiga ladeira do Chafariz e passou o logradouro por diversas denominações: ladeira da Assembleia, da Cadeia, ou do Trapiche.

O nome Maria Ortiz, porém, nunca deixou de ser reverenciado pelos capixabas. Tanto que, em 1899, quando se determinou a colocação de placas nos logradouros públicos da Capital, por influência do escritor e político Pessanha Póvoa, mudou-se a denominação daquela artéria para ladeira Maria Ortiz. É com esta denominação que sobrevém o governo Florentino Avidos, cuja ação, bastante ampla, preocupou-se, sobretudo, com a urbanização de Vitória.

Desde a administração Jerônimo Monteiro, com as demolições da cidade alta, que a ladeira não se harmonizava mais com esta parte da cidade. Nessa época, já surgira o Boulevard (Rua Pedro Palácio), arborizado por iniciativa do prefeito Washington Pessoa (1913). Seus acessos, no entanto, ainda continuavam estreitos ou tortuosos, guardando ainda a feição colonial.

Para suprimir tais deficiências, determinou Avidos a derrubada de todos os antigos casarões da ladeira do Chafariz, fazendo surgir ali importante via, ladeada de residências assobradadas, que o povo denominou ladeira da Boa Ideia. Já a ladeira Maria Ortiz, estreita e íngreme, transformou-se em belíssima escadaria, de degraus em pedra lavrada, ladeada de belas residências, algumas até mesmo decoradas com móveis franceses e telas pintadas por artistas italianos, segundo Elmo Elton.

A obra, contratada pelo Serviço de Melhoramentos de Vitória, foi inaugurada a 15 de novembro de 1924, em comemoração ao aniversário da República. O projeto arquitetônico, de Henrique de Novaes, foi executado por Polliti, Derenzi & Cia., ao custo de 39:000$000.

Com o passar dos anos, a especulação imobiliária e a consequente febre de construção que assolaram a cidade, destruíram seus casarões, substituindo-os por verdadeiros caixotes verticais que enfeiam Vitória e tumultuam o espaço urbano. A escadaria, entretanto, mantinha-se mais ou menos incólume, com ampla possibilidade de restauração.

A falta de sensibilidade que campeia nas administrações públicas, no entanto, optou por sua destruição, inutilizando pela marreta os degraus de convite e todos os demais, feitos em granito lavrado à mão, apesar do protesto de todos que por ali passavam. O Conselho Estadual de Cultura, em derradeira medida, ainda tentou salvá-la, abrindo às pressas processo de tombamento do consagrado patrimônio histórico. Tal iniciativa, porém, só serviu para acelerar a destruição por parte da empreiteira da Prefeitura, recuando, posteriormente, ante a repercussão do caso na imprensa, quando o piso da escadaria já se encontrava todo destruído.

Agora, em nossa opinião, a nova escadaria que lá está já não possui valor histórico. Não há mais porque prosseguir o processo de tombamento. As pedras lavradas foram substituídas por lâminas de granito industrializadas, sobre degrau de concreto armado, violentando-lhe a feição tradicional. Nas próprias consultas feitas ao C . E . C . quanto às cores que deveriam ser restauradas, sequer atentou-se com as tonalidades sugeridas (mediante pesquisa realizada pelo então conselheiro Fernando Achiamé).

Resta, portanto, somente como pecha à memória da atual administração municipal — a de ter mutilado, totalmente, este histórico logradouro, que era a escadaria Maria Ortiz.

A Tribuna - Vitória (ES), 4 de agosto de 1987.

 

Fonte: Notícias do Espírito Santo, Livraria Editora Catedra, Rio de Janeiro - 1989
Autor: Gabriel Bittencourt
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2021

Monumentos

A História do Morro do Moreno – Por Seu Dedê

A História do Morro do Moreno – Por Seu Dedê

O sítio natural conhecido como Morro do Moreno foi palco de vários eventos importantes da história do Espírito Santo

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Monumento a Domingos Martins

Seu busto de bronze amparado pela liberdade, representada por uma figura de mulher, também de bronze, sobre um pedestal de granito, está localizado na Praça João Clímaco

Ver Artigo
Monumento a Florentino Avidos

Presidente Avidos governou o Estado no quatriênio 1924 – 1928

Ver Artigo
Praça Oito de Setembro

O cronista Eugênio Sette, dizia que "... a Praça Oito parece uma mulher dama muito vivida, muito experimentada, que não arrepia carreira, nem se encabula com uma piada mais grosseira. Já viu tudo. E, por isso, aguenta firme, consciente do seu papel."

Ver Artigo
O Teatro Carlos Gomes de Vitória - Por Gabriel Bittencourt

O Carlos Gomes era, até pouco tempo, o único teatro de Vitória em funcionamento; mas não é a nossa primeira sala de espetáculos

Ver Artigo
O Itabira e o Frade e a Freira - Por Gabriel Bittencourt

O Itabira: esguio monólito que os cachoeirenses fizeram símbolo da cidade, e os intelectuais de sua Academia de Letras transformaram-no no seu escudo e emblema

Ver Artigo