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As formigas de Vitória

Formiga saúva

De como comia o povo a praga que comia o que comia o povo

 

Na Vitória do futuro haverá formigas? E mosquitos, haverá?

Não vi no Plano Estratégico do ex-prefeito Paulo Hartung para o ano de 2010, que tem como emblema o salto do marlim azul, nenhuma referência a formigas e mosquitos. As primeiras, talvez por se tratar de coisa do passado, embora de vez em quando reapareçam dando as caras. Os segundos porque, sendo matéria do presente, certamente tem futuro incerto – espero que não viverão além do próximo verão, queira Deus e o prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas.

Mas houve tempo em que as formigas eram flagelo no Espírito Santo e em Vitória, quando esta ainda tinha jeito de presépio. Os padres e jesuítas, que do Brasil deram conta em suas cartas, não me deixam mentir: “Há aqui infinito número de formigas, que têm na boca umas como tenazes, com as quais talam todo o plantio e, o que é pior, fá-lo murchar”, escreveu Ambrósio Pires, em 1555.

Nada me parece mais oportuno, portanto, nestes escritos dedicados à cidade presépio, que se preste homenagem a quem tanta influência teve na vida dos capixabas. Lembremos, pois, das formigas, na esperança de que, no ano de 2010, possa eu estar ainda vivo e lúcido para lembrar sem saudade de um tempo em que os mosquitos dominavam os ares de Vitória do passado.

Dito isto, vamos às formigas.

Há nesta terra uma casta de formigas graúdas, da cabeça redonda, do corpo tamanho grão de feijão, que assusta e espanta, formigas vorazes, formigas daninhas que mordem dentadas ardidas com suas mandíbulas como se fossem tenazes, que tudo destroem com a fúria de godos, vindas do sul e do norte, de leste a oeste, ostrogrossas formigas, visigrossas formigas, em, hordas de ataque, de toda parte saídas, da parte do Demo e do fundo à parte da terra onde fazem seus ninhos, nos intestinos das covas, chegando de Maruípe e Fradinhos, de Caratoíra e Caieiras, de Santo Antônio e Suá, em rio encrespado, burburinho que rompe através das lavouras, burburinho que vara através dos roçados, e lá se vão as lavouras, lá se vai o roçado, onde deixam as formigas o caminho talado da sua passagem, o terreno arrasado, e lá se foi a comida do povo sob o carreiro que passa, parece tapete que ferve e se move, mas é o bando que assusta e espanta, que tudo destrói, correi, debandai, são as formigas que surgem compactas em compasso de guerra, parece um farfalhar de pássaros, mas são as formigas que passam, parece um crepitar de labaredas, mas são as formigas que bramem, parece um regato na cheia, mas são as formigas que fluem, formigas famintas em atropelo de avanço, falange romana, mandíbulas em riste, praga da terra que tudo destroça, formigas grandíssimas do corpo redondo, lá se foram as lavouras, lá se foi o alimento dos homens, correi, debandai, abandonai ladeiras e ruas, trancai vossas portas e janelas, defendei vossas casas, salvai vossas carnes e ossos, vossos olhos livrai das formigas andantes, não os hão de comer em sua gula esfaimada com que tudo devoram, que tudo dizimam, de uma ou de sete cabeças, devoram e dizimam, estende-se pelas ruas e praças um largo tapete que fervilha na ilha como lava saída do ventre da terra, é uma língua de seres graúdos e negros que não cede e não pára e não há força capaz que os possa atalhar, não há fogo bastante que os possa queimar, não há jeito nenhum que a marcha lhes corte, não há modo sabido que os faça recuar ou lhes barre a voraz invasão, é a praga da terra, flagelo terrível, formigas daninhas das mandíbulas em riste, lá se vão as lavouras, lá se vai a comida do povo.

E se essas formigas gigantes, da cabeça redonda, do corpo tamanho que assusta e espanta, lhe sobrevem, no instante do assalto e do saque, o crescimento das asas na transformação da espécie, ei-las que ascendem em vôo lerdo e pesado, ei-las que içam nas asas do cio, ei-las que se expandem em enxame do chão ao espaço, há pouco andavam com os pés pegados na terra, agora se atiram ao céu batendo nas paredes das casas, chocando-se nas janelas cerradas, esbarrando nas torres dos sinos, entrando pelas gretas que acham, varando os vãos que descobrem, invadindo o interior das igrejas, manchando de preto o alvor dos altares, cobrindo de luto os santos nos nichos, empretecendo a prata dos castiçais onde pousam, enegrecendo o ouro dos sacrários que tocam, antes era um exército que farfalhava no chão, agora é bando que formiga em vôo sem rumo até que venha o vento e lhes arranquem as asas vibráteis que as elevam aos ares e aos bronzes dos sinos, ao alvor dos altares e aos santos nos nichos, aos castiçais e aos sacrários dos templos, e, sem asas, despenquem na terra de onde brotaram os escaninhos das covas para serem catadas pelo povo em alarido de festa, que as caça e as assa no chichiar das frituras e, assim assadas, come-as com farinha de mandioca com apetite duplamente feliz, item primeiro, porque come o povo a praga que come o que o povo come, item segundo, porque neste comê-las em alvoroço, dá-se o povo o festim da Vitória sobre a praga da terra o flagelo daninho, as formigas graúdas dos corpos redondos como grãos de feijão.

 

Autor: Luiz Guilherme Santos Neves
Livro: Escritos de Vitória, 18 – Cidade Presépio, 1997
Compilação: Walter de Aguiar Filho - setembro,2011

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