Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Biscuit – Por Elmo Elton

Av. Cleto Nunes - Terreno a direita onde foi construído o Centro de Saúde

Chamava-se Orozimbo. Era solteiro, residindo, com a mãe viúva, em casa, já demolida, de dois andares, na rua Cais de São Francisco, em Vitória, exatamente no local onde foi construído o Centro de Saúde. Porque gostasse muito de crianças, vendo-as, na rua, corria a abraçá-las, carinhosamente. Eram as crianças os seus biscuits preferidos, repetia sempre. Foi daí que os marmanjos, por sabê-lo biriteiro contumaz, logo passaram a chamá-lo Biscuit Pau D'água.

Orozimbo, quando moço, vestia-se com certo apuro, frequentando os clubes da cidade, tanto que a senhora Olindina Mulullo, sua ex-vizinha, costumava afirmar que, nos carnavais antigos de Vitória, ninguém montava em cavalos melhores, mais ricamente ajaezados que os do Orozimbo nem ninguém sabia cavalgá-los com igual destreza e garbo.

O homenzinho empalhava cadeiras, envernizava móveis, era bom estofador, sendo seus serviços requisitados pelas famílias mais distintas da cidade. Minha avó (Dona Jacinta Baraldi Zamprogno), certa vez, a título de ajudá-lo, já ele em franca decadência física, contratou-o para a restauração de uma chaise longue, belíssimo móvel de fabricação francesa, presente que lhe fizera a viúva Hildebrando Resemini, quando a família se transferiu para o Rio de Janeiro, em 1937.

O contratado pediu preço alto para executar o serviço, além de exigir parte adiantada do orçamento, sendo que, mal iniciada a tarefa, a proprietária muito se aborreceu, já que todo o primitivo estofo, em crina de cavalo, assim como as molas de aço, não haviam sido aproveitadas, tudo jogado à chuva, num canto do jardim da casa.

Afinal, pronto o trabalho, logo se apurou que o "novo acolchoamento" se constituía apenas de calças velhas, camisetas e cuecas borradas, mulambos do próprio Orozimbo, com quem minha avó, ludibriada, cortou relações.

Orozimbo, nos últimos anos de vida, sempre piscando os olhos miúdos, era visto, dia inteiro, na Praça Oito, quando não na rua Duque de Caxias, invariavelmente bêbado, ora resmungando, ora xingando os que dele zombavam. Usava, magrinho e pálido (parecia ter diminuído de tamanho), roupa surradíssima, como que úmida pelo sereno das madrugadas. Todos o conheciam. Faleceu na década de 50.

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

Literatura e Crônicas

O imperdível Luís - Por Pedro Maia

O imperdível Luís - Por Pedro Maia

Para os que não sabem, esta coluna, "Cidade Aberta", que escrevemos há coisa de uns oito anos, era originariamente assinada pelo Luís Eduardo Nascimento

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

A safra de mamão - Por Álvaro José Silva

Na velha redação do hoje falecido jornal A Gazeta, na rua General Osório 127, o trabalho era feito...

Ver Artigo
Na Rua da Lama - Por Mário Gurgel

Fomos procurar lá para os lados da Engenharia, no último domingo pela tarde, uma velha conhecida nossa da Ilha do Príncipe

Ver Artigo
Ambulantes de Vitória – Por Elmo Elton

Chamava-se Maria Saraiva. Vendia seus produtos em ponto fixo, na rua General Osório, onde residia

Ver Artigo
O Incêndio do Mercado da Vila Rubim, 1994

Uma explosão de pelo menos 60 toneladas de fogos de artifício provocou um dia de pânico, morte e destruição na cidade

Ver Artigo