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De como Anchieta esteve cativo entre os Tamóios

Busto do Padre José de Anchieta localizado no pátio da Igreja Nossa Senhora de Assunção em Anchieta, ES

Padecia a capitania de São Vicente grandíssima opressão dos contínuos saltos [assaltos] que os Tamóios nela faziam levando-lhes seus escravos e algumas vezes as próprias mulheres, que estavam em suas fazendas, entre as quais houve algumas das doutrinadas pelos Nossos, que fizeram fineza [primor], ainda que fossem mestiças, deixando-se matar por não perderem a castidade. Sabia bem o Pe. Nóbrega que a justiça estava da parte dos Tamoios pelos muitos agravos que tinham recebido dos Portugueses sem nenhuma satisfação, e posto que com muitas missas, orações, disciplinas e outras asperezas, procuravam aplacar a justa ira de Deus contra seu povo: vendo que isto não bastava, determinou procurar se fizessem pazes com eles com condições honestas e justas, porque concluindo-se, ficava a capitania livre, pois, enjeitando-as eles, ou quebrando-as, a justiça da guerra passava do lado dos Portugueses.

Tratou isso com os da terra e ofereceu-se a ir em pessoa aos Tamoios para as negociar, dali a 26 léguas por mar. Partiu com o Irmão José, seu fidelíssimo companheiro. Ambos padeceram muito e passaram por muitos tragos [perigos] de morte pelas muitas vezes que Índios de Rio de Janeiro vieram para os matar. E, uma vez que com eles vinha a esse efeito, um crudelíssimo francês e inimicíssimo dos Padres e Portugueses foi necessário para escaparem, o Irmão José passar às costas do Pe. Nóbrega, que com as poucas forças deu com ele na água, e assim molhados se esconderam no mato, até que passou aquele perigo. Mas porque disto se trata na vida do Padre Nóbrega somente direi aqui o que pertence ao Irmão José.

Depois de estarem como dois meses entre os Tamoios foi necessário o Pe. Nóbrega tornar-se [voltar] para São Vicente e deixar o Irmão para refém das pazes. O qual em três meses que com eles esteve só, aproveitou [ajudou] muito àquela gente, com doutrina e práticas das coisas de sua salvação e com o vivo exemplo da vida e muitos puderam se batizar se tivessem firmeza de não voltar mais atrás. Pasmavam os carnais Tamoios de ver um mancebo rodeado de um fogo babilônico e estar nele sem se chamuscar um cabelo. Para se livrar destes ardentíssimos perigos e propinquíssimas [imediatas ] ocasiões usava de muita oração e comunicação com Deus. Encomendava-se com muita força a N. Senhora de quem era e foi mui devoto, em especial de sua puríssima Conceição. Usava da disciplina,(3) que sempre teve em costume, por ser mui pronto remédio para toda doença e em especial para esta. Quando o Pe. Nóbrega o deixou, bem sabia quem deixava, de quem não menos confiava nesse particular que de si mesmo. Muitas vezes vieram os Tamoios de outras partes para o matar, mas sempre Deus o livrou por meio de seu hóspede, a quem ficou entregue, que era um Índio mui principal e respeitado pelos outros.

 

Fonte: Anchieta: um santo desconhecido? – 2014
Organização: Padre Illário Govoni
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2020
Onde comprar o livro: Santuário de Anchieta, Anchieta/ES ou Marques Editora, Belém-PA

 

NOTAS

(3) Açoite penitencial

Religiosos do ES

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José de Anchieta, pelo que se deduz de suas cartas devia exercer uma enorme influência sobre os indígenas por certas qualidades inatas e por aquilo que poucos ousam confessar em público, uma vontade divina. Anchieta tinha algo de pajé dos brancos

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